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A Guerra Mesquinha Dos Professores

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Sempre que se inicia um concurso de professores começa a guerrilha entre professores  que trabalham no ensino público e os que trabalham no ensino privado.
Confesso que me custa perceber esta guerrilha pelo que gostaria de tentar explicar porque é que não deve continuar!
Sinto que tenho legitimidade para falar deste assunto pelo facto de já ter estado dos dois lados da barricada!
Fui professor, durante muitos anos quer no Ensino Privado e Cooperativo, quer em IPSS quer na escola pública.
Nunca me senti, confesso, nem mais nem menos que nenhum dos meus colegas profissionais, nem quando fui dos quadros no EPC, nem quando enquanto contratado no Ensino Público, mesmo quando apenas fazia umas “horinhas precárias” de substituição.
Custa-me muito observar a guerra constante a cada vez mais cerrada entre professores do público e do privado, sobretudo porque me parece vazia de razões, ainda mais com a atual legislação dos concursos.
Atualmente, quem pretende fazer a transição do privado para o público nunca gastará menos de 2 anos completos e só num hipotético terceiro ano é que pode concorrer em “igualdade”, e digo dois anos se tudo “correr bem”.
Transição essa que me parece legitima, porque enquanto cidadãos todos nós temos o direito de concorrer, ontem, hoje e amanhã!
A decisão de trabalhar numa ou noutra escola, pública ou privada, é muitas vezes, para não dizer a maioria das vezes, uma decisão de circunstância, trabalha-se onde houver possibilidade e às vezes até trabalha-se entre público e privado no mesmo ano!
Não concordo com o pedido de muitos colegas em penalizar os que concorrem e depois recusam ou desistem da oferta pública, como se estivéssemos a castigar um direito.
Como é óbvio o que aparecer primeiro é o que aceitam, porque precisam, como todos nós, de trabalhar, de sustentar a família, de viver. Em março a decisão de onde se vai trabalhar no ano a seguir não é certa, nem no público nem no privado.
Voltando um pouco ao início, porque é que existe esta guerra para com os professores do privado?
Uns dizem que os colegas do privado são uns acomodados e que querem é estar perto de casa e que não se esforçam e sacrificam pela causa pública, outros dizem que são os do factor C e que assim é fácil…e eu, perante estes argumentos, tenho duas hipóteses ou ignorar ou responder, tentando explicar.
Vamos por partes, em primeiro, generalizar nunca é boa ideia, nem todos os professores que ensinam no privado entraram por cunha, até porque esses serão residuais, nem todos os que ensinam no privado não tentam todos os anos concorrer ao sacrifício público, nem todos os que ensinam no privado tem boa vida perto de casa!
Todas as afirmações anteriores são verdade, após centenas de currículos entregues lá vão a uma, duas ou três entrevistas, se tiver essa sorte por vezes passa por diversas fases de candidatura, entrevista, aula assistida e exame de admissão, sim já vi qualquer uma destas fases em escolas privadas…
Dirão vocês, mas vai entrar a “cunha” e não o melhor dos candidatos!
E eu pergunto: se tinham uma cunha para entrar porque é que se dariam ao trabalho de fazer o concurso?
Ou seja se há “concurso” para a vaga é porque não há cunha que lhes valha! E isto é muito mais comum que aconteça do que aquilo que apregoam alguns professores do público…
Ouvem muitas vezes a frase: “devias era ver o que é o público” ao que me apetece responder “devias era ver o que é o privado”.
Sim,  porque se quisermos ser pragmáticos, e até “mauzinhos”, respondendo à letra, podemos perfeitamente desconfiar de todos aqueles que nem sequer tentam os privados, porque, dizem de boca cheia, se ganha mal, porque se é explorado, porque se trabalham as 35h/40h na escola mais umas tantas de extra curriculares, entre muitas outras razões que rapidamente enumeram!
E até podemos ir mais longe e perguntar qual acham a forma de “arranjar” trabalho mais meritória, através de um concurso cego onde o que conta é o número e nunca a competência ou a forma de entrevista e validação de competências através das fases já descritas?
Não todos, mas muitos dos que falam,será que seriam capazes de aguentar a pressão de um privado, tendo em conta a exigência dos pais que pagam e que por isso exigem mais?
Será que aguentariam mais de um ou dois anos em funções tendo em conta as características descritas anteriormente, sujeitar-se-iam a tanto?
E que dizer dos vencimentos muitas vezes fora de qualquer tabela legal, pagos quando dá jeito?
Acho que a resposta não deve ser difícil de dar, e por isso nem o privado é o céu nem o público o inferno!
Em jeito de conclusão, gostava que se percebesse que seja no público seja no privado o professor é sempre um professor e tem, tendo em conta a escola onde leciona, os seus prós e os seus contras, não encontro razão para esta persistente “mania” de desvalorizar quem trabalha no privado…
Somos todos professores, somos todos necessários ao sistema e isso devia ser o mais importante…
Alberto Veronesi

1 COMENTÁRIO

  1. Hummm Muito raramente mas lá concordo contigo desta vez
    É uma guerra absurda. Eu sou do professor do público e sempre fui.
    Mas vejo uma grande capacidade de inovação e um certo amor à camisola superior algumas escolas privadas. Sem generalizar e sendo apenas um “achismo”
    E sobretudo a avaliação …. ai a avaliação … tem consequências . prontos já podem bater

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