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Zero euros para olear o elevador social. De que estamos à espera? – Luís Aguiar-Conraria

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Estamos à espera de quê?

Em 2024, precisamos de políticas de educação cujos resultados só serão verdadeiramente visíveis em 2028 ou 2031

Saiu no Diário de Notícias de quarta-feira uma notícia com um título alarmista. «Provas de aferição: Resultados são “desastrosos”». Mas, ao contrário do costume, o corpo da notícia confirma o alarme. Os resultados são mesmo um desastre. Não chegámos ao zero absoluto, mas, em algumas disciplinas, andámos lá perto: em História e Geografia de Portugal, a percentagem de positivas foi inferior a 3%. Até com a localização da Península Ibérica os alunos se atrapalharam!

Uma explicação racional para estes resultados tem a ver com a atitude dos alunos. Há relatos de alunos que sabendo que as provas de aferição para nada servem, não se dão ao trabalho de sequer as tentar fazer, havendo os que se limitam a preencher o nome e pouco mais. Depois há explicações (des)organizacionais. Os testes foram feitos online e houve muitos problemas, com sites a crashar, alunos a não conseguir entrar no exame, a estarem perto do fim e terem de começar de novo, etc. Há a explicação da pandemia. Houve greves. Não se apostou na recuperação de aprendizagens. (E, claro, há sempre a derradeira explicação: a culpa é do Passos.)

Não são só as provas de aferição descritas na notícia do DN. Vários outros indicadores ilustram a degradação substancial do ensino em Portugal. No TIMSS — teste internacional que avalia a performance em Matemática e Ciências de alunos do 4º ano —, tivemos os nossos melhores resultados a matemática em 2015. Em 2019 caíram para valores inferiores a 2011. Em Ciências, estamos em queda desde 2011. No PIRLS — programa internacional que avalia a literacia também em alunos do 4º ano —, estamos em queda desde 2011. No tão badalado PISA, avaliam-se alunos de 14/15 anos nas três áreas referidas. Os nossos melhores resultados são de 2015, depois é sempre a cair. Em Ciências, caímos 17 pontos; em Matemática, 20; e, em leitura, 21.

Lendo os dados do parágrafo anterior, fica a ideia de que no que se refere às crianças mais novas, o máximo foi atingido em 2011 e que com os adolescentes, o pico foi em 2015. Se repararmos que, na verdade, são os mesmos alunos, percebemos que, depois deles, foi sempre a piorar, pelo que é de esperar que também os resultados do PISA 2025 continuem a mostrar a degradação do ensino. Em 2024, precisamos de políticas de educação cujos resultados só serão verdadeiramente visíveis em 2028 ou 2031.

(A alternativa é desistir da escola de qualidade enquanto elevador social. As quotas nas universidades que se criaram para alunos carenciados são uma desistência. Não conseguindo a escola pública elevar o nível desses alunos, cria-se um atalho e transfere-se a responsabilidade para as universidades. Apesar de, no imediato, concordar com esta solução, temos obrigação ética de fazer melhor.)

Uma dificuldade de corrigir erros passados é a tendência que temos de culpar as políticas do outro e não as nossas. Nas entrevistas e declarações públicas dos protagonistas — seja de ministros ou secretários de estado da Educação atuais ou passados —, mais valia que cada um fosse impedido de apontar falhas a outros antes de identificar três erros próprios. Tendo já escrito múltiplas vezes sobre o desastre das políticas educativas, para variar, vou falar de uma coisa de que nenhum governo tem culpa, mas que urge mudar.

Em junho, com mais 20.000 pessoas, assinei uma petição para acabar com os telemóveis nas escolas. É dos casos em que vários estudos confirmam a nossa intuição. Comecemos por um de Pilar Beneito e Óscar Vicente-Chirivella feito em Espanha. Em 2014, os telemóveis foram interditados em apenas duas regiões autónomas, Galiza e Castilla-La Mancha. Os autores estudaram o impacto da interdição nas notas nos alunos afetados, usando como grupo de controlo os estudantes das restantes regiões. Os efeitos foram extraordinários. Em Matemática e em Ciências, o impacto foi uma melhoria de 10 e de 12 pontos nas classificações de PISA. Quer isto dizer que, em Portugal, proibir os telemóveis permitiria reverter metade dos efeitos negativos que os anos de pandemia tiveram na Matemática e quase anular o retrocesso nas Ciências.

Louis-Philippe Beland e Richard Murphy estudaram os efeitos em escolas inglesas de quatro cidades diferentes e concluíram que os resultados médios melhoraram à custa dos estudantes mais desfavorecidos, diminuindo as desigualdades. Banir os telemóveis não teve qualquer impacto — nem positivo, nem negativo — nos estudantes do quintil mais alto. Nos do quintil mais baixo, o efeito foi máximo.

Vários outros estudos chegam a conclusões que reforçam os resultados já referidos. Por exemplo, da sua tese de doutoramento na Universidade de Bergen, Noruega, Sara Abrahamsson não só chegou às mesmas conclusões como concluiu que problemas como o bullying também se reduziam com o fim dos telemóveis.

Boas políticas públicas nem sempre precisam de dinheiro. Não há qualquer custo orçamental para banir os telemóveis das escolas. Zero euros para olear o elevador social. De que estamos à espera?

Expresso