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Verba prevista no PEES para o reforço de recursos humanos nas escolas? Zero

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Estão enganados aqueles, como eu, que achavam que com o PEES Programa de Estabilização Económica e Social , poderia haver um reforço de recursos humanos nas escolas para enfrentar as pandemia e criar programas que pudessem ajudar aqueles que ficaram para trás!


No sábado passado, José Maria Pimentel, autor do podcast “45 Graus”, perguntou no Twitter quem era o melhor colunista de direita em Portugal e quem era o melhor à esquerda. Curiosamente, fui nomeado para ambas as categorias. Esta ambiguidade nada tem de estranho. Sempre que me pedem classificação ideológica, respondo que sou um liberal de esquerda. Acredito que, regra geral, o mercado é bastante melhor que o Estado a organizar a vida económica. Mas a sua mãozinha corretora é necessária para combater as imperfeições do mercado e redistribuir o rendimento.

Tradicionalmente, diz-se que o que distingue esquerda e direita é o equilíbrio que se encontra no dilema entre igualdade e liberdade. Alguém de esquerda dará mais importância à igualdade e defenderá um Estado mais intervencionista. Alguém de direita valorizará mais a liberdade, preferindo menos intervenção do Estado, ou seja, será mais liberal.

No entanto, sou muito pouco sofisticado para interiorizar estas distinções. Por um lado, encontro demasiadas exceções à regra de que a direita é pela liberdade individual: basta lembrar como há à direita muito mais oposição à legalização das drogas leves ou da eutanásia do que à esquerda. Por outro lado, muitas vezes o dilema entre liberdade e igualdade soa-me falso: uma liberdade que não seja meramente formal exige que haja capacidade de fazer escolhas e poucas coisas a limitarão tanto como a pobreza. Como, até certo ponto, o combate à pobreza implica um combate à desigualdade, temos igualdade e liberdade lado a lado.

Além de ser liberal — o que me leva a, muitas vezes, desconfiar do papel do Estado no planeamento e organização da economia —, sei fazer contas, o que faz com que, há pelo menos 15 anos, defenda a necessidade de se equilibrarem as contas públicas. Dada a conjuntura económica e política nos últimos anos, é normal que, por mais que me afirme de esquerda, muitos pensem que sou de direita.

Estranhamente, voltei a sentir isso nas últimas semanas por causa das escolas fechadas. Foi quando partilhei no meu mural do Facebook um artigo de alguém de direita (não me lembro de quem, peço desculpa) a defender a sua reabertura. Em comentário, perguntaram-me se não achava peculiar que apenas colunistas de direita defendessem a reabertura das escolas. A insinuação era a de que estava mal acompanhado.

O investimento público na educação é daqueles assuntos em que não tenho dúvidas de que o dilema entre igualdade e liberdade é completamente falso. A única forma de combater a desigualdade de forma sólida é garantir às crianças das classes desfavorecidas uma boa educação. Só uma pessoa educada é livre, dado que só ela tem um verdadeiro cardápio de escolhas na vida.

Por isso, não me surpreende nada que haja gente de direita a mostrar fortes preocupações com as consequências das escolas fechadas e a pedir um plano de recuperação para os miúdos que ficam para trás. Sinto-me muito bem acompanhado pelo João Miguel Tavares e pela Maria João Marques, no “Público”, e pelo Alexandre Homem Cristo, no “Observador”.

O que surpreende é que haja tão poucos de esquerda a manifestar essa preocupação. Afinal são algumas centenas de milhares de alunos em casas de famílias de parcos recursos. Imagino que seja mais importante não afrontar nem um governo socialista nem a Fenprof, que, apesar de se dizerem preocupados, não mostram qualquer disponibilidade para o esforço necessário neste combate. É que esse exige planeamento, capacidade política e recursos humanos.

É preciso perceber que o problema das escolas fechadas não atingiu todos por igual. Da mesma forma que muitos alunos perderam todo e qualquer contacto com a escola, muitos avançaram nas matérias e cumpriram o programa. Retomar as escolas agora não resolve nada, tal como não bastam as aulas presenciais em setembro. Isso servirá para alguns avançarem, enquanto outros terão de voltar atrás. Reabrir escolas, sem mais, fará com que, para que uns recuperem, os outros marquem passo. Poderá ser a estocada final na escola pública, dado que quem pode fugirá para a privada.

Os que ficaram para trás necessitam de um apoio diferenciado e extra. Isso implica identificar quais são e exige a contratação de professores para dar esse auxílio. Não se assustem com o aumento da despesa, que a classe docente está tão envelhecida que rapidamente urge sangue novo. Contratar docentes seria só uma antecipação de algo que enfrentaremos em breve.

Dos vários milhares de milhões anunciados para apoiar a retoma, sabe qual é a verba prevista no Programa de Estabilização Económica e Social para o reforço de recursos humanos nas escolas? Zero.

LUÍS AGUIAR-CONRARIA Professor de Economia da Univ. do Minho in Expresso