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“Um professor precisa de muitos anos para aprender a ser professor” – Eduardo Sá

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O sucesso escolar em 2030

Quanto tempo leva a formar um professor? Duma forma apressada, imagino que haja quem afirme: 3 ou 4 anos. Mas não é verdade! Um professor precisa de anos de experiência para converter aquilo que ensina numa excitante história de aventuras. Precisa de anos  de pequenos erros para apanhar o jeito de intuir em cada dificuldade de um aluno o mapa do tesouro que o leve daquilo que ele acha que não sabe a tudo o que já descobriu sem dar por isso. Precisa de muito anos de rebeldia silenciosa para que entenda que uma dificuldade escolar duma criança é só um engarrafamento de perguntas que esperam que alguém as traga até à luz e as ligue, umas nas outras, com cuidado. E precisa de anos de engenho para ir das respostas na ponta da língua às perguntas debaixo da língua. Um professor precisa de anos de “remorsos miudinhos” para ir duma nota que atribui à sabedoria de avaliar. E de alguma dor para reconhecer que em cada aluno que não percebe está alguém que ele decepcionou, sem querer, quando não o soube ensinar. Um professor precisa de anos e mais anos para ser professor. Por isso mesmo, não é só preocupante que, dentro de um ano, cerca de 110 mil alunos não terão professor a, pelo menos, uma disciplina. Nem que a maioria dos professores tenha, pelo menos, 50 anos e que, por isso mesmo, dentro de 7-8 anos, metade deles, atualmente no ativo, se aposente. O que preocupa é que um professor precise de muitos anos para aprender a ser professor. Porque entre chegar à escola e ele próprio se transformar num professor haverá muitas crianças difíceis cujas dificuldades resultam da inexperiência de quem as ensina. Porque um professor é uma história interminável. Uma tarefa sem princípio nem fim. Um professor não é um influenciador. Nem um tutorial. Um professor é um livro que se abre. E uma biblioteca que nunca se termina. É por isso que quando se acha que qualquer licenciado pode ser um professor a escola devia fechar. Para balanço. E abrir, só depois, de repetir 100 vezes, “de castigo”: não se brinca com o bem mais precioso, depois dos pais e da família, que uma criança pode ter. Porque, exatamente como as crianças, que precisam de muita experiência para aprenderem a ser crianças, um professor precisa de muitos anos para deixar de ser alguém que dá aulas até se transformar, finalmente, num professor.

Só a falta de professores já nos devia levar a perguntar como se pode imaginar o sucesso escolar em 2030. Mas, mais do que a escassez de professores, que se avizinha, há outros dois aspectos que contribuem para que, em 2030, o sucesso escolar possa estar ainda mais comprometido: a forma como não damos às crianças tempo para que aprendam a ser crianças; e os equívocos que continuamos a ter em relação à forma como elas aprendem.

 

As crianças não têm tempo para ser crianças! Como é que se pode aprender a ser criança sem se ter tempo para se experimentar a infância? Não se pode. Como se pode aprender sobre o tudo resto que a escola não dá quando se finta ou se ignora aquilo que se vive? Não se pode. Como se pode crescer saltando etapas do crescimento como se cada uma delas não fosse indispensável para que se aprenda com a outra, que vem a seguir? Não se pode. Logo, quando não permitimos que as crianças tenham tempo para serem crianças, mesmo que o façamos movidos pela bondade de olhar pelo seu futuro, estamos a dizer-lhes: aprender com a infância não é indispensável para aprender a viver. Ou: viver não é aprender! Perante isto, talvez a conclusão mais ponderada passe por afirmarmos que não, não foi escola que se transformou num obstáculo à infância das crianças. São os pais. Quando consideram a escola mais importante que a infância para elas crescerem. Não o fazem por mal; claro. Mas fazem mal.

 

Finalmente, continuamos, hoje, a ver as crianças quando aprendem como se não estivessem no século XXI. Como se, independentemente de todas as inovações técnicas de apoio à educação, a forma como as crianças pensam e aprendem continuasse, perigosamente, na cabeça de quem pensa a educação, no século XIX. Na verdade, na maior das circunstâncias, elas continuam a ser ensinadas como se não aprendessem do todo para a parte, do concreto para o abstracto, do corpo para o espaço, da sensibilidade para a inteligência, da intuição para a síntese ou da compreensão para a memória. Logo, como pode um programa educativo dar-lhes conteúdos que as leve a aprender e a discorrer sobre eles se teimamos em não reconhecer que a forma como elas aprendem está longe, muito longe, do modo como pensam e discorrem?

 

É, por tudo isto, muito urgente – pelos professores e pelas crianças – que nos perguntemos que sucesso escolar nos espera em 2030.  Em nome da  daquilo que queremos da escola. Em nome do futuro. E de forma a compensarmos todos os nossos pequenos desmazelos de ontem e de hoje em relação à educação e às crianças. Para que, em 2030, a escola seja – mais do que hoje é – amiga da criança.

Observador