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Um 25 de Abril: no país na educação – António Carlos Cortez

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Aos pais e professores deste país. Pensar para agir.

A crise na educação reflecte a degradação geral do país. É uma crise de natureza complexa que se nota em muitos membros deste actual PS, que trai o projecto dos seus fundadores, de Salgado Zenha e Tito de Morais, de António Arnaut e de Mário Soares. Na oposição, salvo excepções, é igual. O PSD há muito que não lê os escritos de F. Sá-Carneiro e há muito se esqueceu que a sua família é o socialismo democrático, o de Olof Palme, o de Willy Brandt.

Impreparação técnica, incultura, desconhecimento dos dossiers que ministram, a acção de inúmeros políticos roça a indigência. Sobra a arrogância que esconde a menoridade e convida ao autoritarismo. Na educação é cristalino: nem com mais de cem mil professores na rua o ministro foi capaz de assumir a verdade gravíssima da situação: os baixos salários, o regime de colocações, o ambiente pidesco que se vive em tantas escolas. Há professores, de Norte a Sul do país, perseguidos por directores que, próximos do ministro, exercem o poder de uma forma Salazarista – quem não alinhe com o que diz quem manda, esses sofrem um processo disciplinar.

Soma-se a indisciplina da maioria dos estudantes. A indiferença com que estão nas aulas. A ditadura do digital. As reuniões inúteis. A mentira que é avaliar alunos hoje em dia, pois que todos transitam – e ai do professor que se atreva a querer reprovar um aluno!! Se quem lecciona sabe que a escola da cooperação acabou; que só há competição, espanta que haja quem desista de leccionar? À alienação de quase todos, soma-se a hipocrisia de muitos que, quais escuteiros obedientíssimos, pensam que a escola é uma extensão da Segurança Social. A escola não é isso.

Crise das instituições, crise mental, desde a ministra Maria de Lurdes Rodrigues que se roubou ao professor a sua relevância pública. Cinicamente, sob a capa da “exigência e do rigor”, a Tutela dividiu os professores para melhor reinar. A história dos professores-titulares prova-o à saciedade. Acresce o óbvio: Rendas altas e baixos salários, burocracia incapacitante, projectos-de-escola para inglês ver, mas inúteis, muitos perguntam que significa ser professor hoje? Que reconhecimento? Que hipótese real existe de melhorar o salário? De que vale ter um currículo paralelo rico se a avaliação de desempenho depende da simpatia do director(a) para com o avaliado?

A escola é o espelho fidelíssimo da brutalização a que chegámos. Não se percebeu ainda que, em vésperas dos 50 anos do 25 de Abril estamos à beira de uma disrupção social, que se prolongará no tempo. Não se percebeu ainda que é urgente zelar pela profissão docente, pilar do país. Muitos professores traem a profissão ao serem apaniguados das actuais políticas, ao deixarem-se manietar pela malha de influências de João Costa. António Costa gosta de quem lhe obedece.

Crise mental, crise da consciência e que se revela às claras nos paupérrimos programas escolares, ora infantis, ora eivados duma sórdida pseudo-exigência. Crise mental, na verdade, porque o desprezo por disciplinas como História, Filosofia, e, claro, Português e Artes contribuiu sobremaneira para a insensibilidade e ignorância dos estudantes nos últimos vinte anos. Sem espanto, sem curiosidade, por que razão se está na escola se é a escola que mata a curiosidade e o espanto?

Senhores políticos: Vivemos emparedados: na educação e na vida. A Liberdade foi confiscada em Portugal, visando estupidificar, bestializar os portugueses, colocando-nos ao serviço dum sistema económico abjecto. É vital libertar Portugal dum sistema educativo apodrecido. Urge: 1º) Subir os salários de quem ensina; 2º) Rever os curricula, apostando definitivamente nas Humanidades e nas Artes; 3º) Apostar na formação (livresca!!) dos professores, libertando-os de todas as burocracias; 4º) Libertar a Escola da mentalidade tecnocrata, digital e pidesca e acabar com este modelo de avaliação de desempenho docente.

Urge um 25 de Abril – e a quantos são cúmplices actuais das acções persecutórias movidas a colegas, lembrem-se: ser professor é semear cultura, não é perseguir quem a semeia. A barbárie de amanhã será culpa dos decisores de hoje.

Sugestão de Leitura:

A Educação e o Significado da Vida, ed. 70

Autor: J. Krishnamurti