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“Turmas em casa parece o elefante branco no meio da sala, de que ninguém quer falar” – Rita Gorgulho

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Os danos colaterais da Covid

Este ano, o problema das turmas em casa por períodos mais ou menos longos parece o elefante branco no meio da sala, de que ninguém quer falar.

Estamos a cerca de três semanas do fim do primeiro período de um ano letivo subsequente a um reconhecidamente desastroso do ponto de vista das aprendizagens. Como seria de prever, este ano também tem sido atípico, com casos positivos na generalidade das escolas. Mas há muitos alunos que, apesar de saudáveis, já contam, só neste ano, com mais de um mês de isolamento profilático no currículo. Falo de turmas inteiras enviadas para casa depois de haver um caso no seu grupo-turma, ou no caso de o professor titular ter testado positivo.

No ano passado, quando as escolas fecharam em março, foram imediatamente tomadas medidas para tentar mitigar o problema, como o programa de televisão “EstudoEmCasa” e uma estratégia de ensino à distância (E&A). Este ano, porém, o problema das turmas em casa por períodos mais ou menos longos parece o elefante branco no meio da sala, de que ninguém quer falar. Acresce que as cinco semanas de recuperação de aprendizagens decretadas pelo governo não chegaram a existir para muitos destes alunos, quer por falta de professores, quer precisamente porque se viram de novo remetidos ao lar durante esse período. E continuam a faltar os computadores que deveriam ter sido distribuídos no início do ano, falta o reforço de pessoal docente e não docente, faltam psicólogos, assistentes sociais e, principalmente, falta uma estratégia de ensino que coloque o aluno no centro da equação. Nada de novo, aqui.

No final deste ano, até podemos estar todos num mesmo barco desprovido de abraços e festas, mas uns farão exames depois de meses de explicações e anos de privilégio, e outros trazendo na bagagem pouco mais do que a miragem de um milagre chamado escola pública

A não ser aquilo que já sabemos: que, apesar de todos os esforços dos professores, que tiveram de adaptar-se a uma realidade absolutamente inédita, foram os alunos oriundos de famílias economicamente desfavorecidas quem foi ficado para trás desde o começo da pandemia. Os mesmos que veem a fome a entrar-lhes pela casa adentro, o desemprego dos pais, a falta de alternativas. Precisamente aqueles para quem a escola pública faz a maior diferença, ao permitir-lhes sair do circulo vicioso da pobreza herdada.

De pouco vale — a não ser para memória futura — apontar o dedo ao que devia ter sido previsto, feito, acautelado. Mas o fim do primeiro período é a altura ideal para avaliar o que pode ser melhorado e/ou alterado. Por exemplo, o Ministério da Educação continua a insistir no exame às disciplinas de término de ano e de ciclo, como se o presente ano letivo tivesse mais a ver com o de 2018-19, quando tudo o que estamos a viver ainda pertencia apenas ao reino da ficção, e não com o ano passado, quando a distopia passou a ser a nova realidade. E, apesar de existir até uma recomendação do Conselho Nacional de Educação para separar claramente o final do ensino secundário dos mecanismos de acesso ao ensino superior, os exames de 11.º e 12.º ano mantêm-se, com impacto não só na média de acesso à universidade, como para cálculo da média das disciplinas. Como se não houvesse aprendizagens a recuperar, aulas a deixar de existir, alunos e professores exaustos, assustados, perplexos com uma escola que lhes exige que tudo seja diferente mas fique como dantes quando toca a separar os bons dos maus alunos. Como se os abraços, a amizade e anos preciosos na vida de crianças e adolescentes pudessem ser transformados, adiados, substituídos — mas os exames não.

Num ano extraordinário, finge-se uma normalidade seletiva, esperando que, por algum milagre bem perverso, a pandemia que virou as nossas escolas do avesso não tenha efeitos nos processos de avaliação. Quando todos sabemos que é precisamente aqui que as desigualdades que transitam do ano passado se agudizarão, até níveis possivelmente irreversíveis. No final deste ano, até podemos estar todos num mesmo barco desprovido de abraços e festas, mas uns farão exames depois de meses de explicações e anos de privilégio, e outros trazendo na bagagem pouco mais do que a miragem de um milagre chamado escola pública, que se esqueceu deles e os reduziu a danos colaterais de uma pandemia.

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