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The Ghost teacher – exorcise me – Ângela Gonçalves

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The Ghost teacher – exorcise me

Os professores estão em greve, eu não sou Professora, Professora, sou uma espécie de ‘ghost teacher’, não sou vista em greves, nem nas notícias, não apareço nas reivindicações, nem tenho voz que se ouça.

Terminei a minha licenciatura, de 5 anos, em 2005. Na altura, por necessidade de trabalhar e porque no ano em que ia fazer o RFE, deixou de ser pago, tive que me fazer à pista, tirar o CAP e começar a dar AEC’s, que eram uma novidade.

Comecei nas AEC’s, fui para escolas privadas, já com experiência e tempo de serviço, fiz um estágio do IEFP, outra surpresa que apareceu na altura. Um estágio onde era mal paga, tinha toda a responsabilidade e trabalhava mais de 40 horas por semana.

Continuei a dar aulas, pré-escolar, primeiro ciclo, secundário, formação, tudo era válido. Fui sempre aprendendo mais pois pagava formação específica para enriquecer a minha prática.

Em 2013, há rumores do DL 31/2007, e eu vou a correr para a FCSH outra vez. O par pedagógico que tinha para efeitos de profissionalização que seria obrigatória agora. Podia focar-me só numa das línguas e passar a concorrer apenas ao grupo 330 e apareceu um primeiro mestrado na FCSH.

Fui fazer o Mestrado, que ainda não fora homologado, em Ensino do Inglês, mas era o único que existia. Concluí a componente letiva e sai a homologação como mestrado de formação contínua de professores. Aprendi mais, mais um certificado, mais experiência, mas continuava na mesma então decidi ficar só com a pós-graduação pois o dinheironunca é muito!

Por esta altura já muitos dos meus colegas tinham mudado de profissão, mas eu perseverei, e fui pagar 600€, por cada nível intensivo de Espanhol, no mínimo teria de fazer 4, mais a propina (com desconto, a simpatia) para fazer os créditos necessários em Estudos Espanhóis e poder depois ingressar num outro mestrado e ter a profissionalização.

Seriam cerca de 3/4 anos para concluir este processo.

Fiz um ano, como trabalhadora-estudante. Concluí os níveis de Espanhol, fiz a maioria dos créditos, enquanto tinha horário completo numa escola profissional.

Todo o dinheiro que ganhei nesse ano, foi investido em educação, a minha vida parou, pois depois do trabalho ia sempre para a faculdade até às 23h, do Barreiro para Lisboa, e cada minuto era passado a preparar aulas, tratar de documentos, estudar, fazer trabalhos, 24 horas não eram suficientes em nenhum dos dias. Perdi contacto com pessoas, a minha relação na altura foi afetada, emagreci, deixei de conseguir dormir, mas o que eu queria era dar aulas, então valia tudo a pena.

Financeiramente, deixei de ter possibilidade para continuar a pagar as propinas e esgotei-me a tentar ser uma Profissional com letra grande, porque todos me diziam que era muito profissional, mas isso não contava para este concurso.

Então a atitude correta a tomar era voltar à precariedade. Explicações, aulas privadas, tradução, e raramente formação. Conformei-me por um tempo e coloquei-me no meu lugar.

A verdade é que há cus que aguentam, mas o meu não aguentou. O que me move neste mundo é partilhar conhecimento e há outras formas de o fazer, foi o que disse a mim própria na altura.

Para responder à péssima gestão do Turismo, a profissão de guia-intérprete havia sido desregulamentada e havia um espaço para mim.

Trabalhei como guia cerca de 2 anos e tive sorte na empresa com quem trabalhei e conheci mais pessoas fantasma ainda, com cus que aguentam! Dias de 12 horas, tours em três línguas, 500 km percorridos num dia, amas, gestores de conflitos, engolidores de sapos exímios, mal pagos, profissão desregulamentada através de outra política brilhante.

Não é que passados estes dois anos, decido que quero ir para a sala de aula outra vez e, estou a ser mal paga e explorada num colégio privado à beira da falência, mas quero voltar ao ensino, ter um contrato e como não sou profissionalizada, tenho de comer e calar, e um querido colega me relembra do Sighre.

Eu já há muito que não acreditava no Sighre, tornei-me agnóstica, acreditava que havia algo a gerir a educação, mas não sabia bem o quê! Tempo de serviço ou não, era igual, por isso também deixei de o certificar e passou a ser mais uma instituição fantasma para mim.

Vou ver o Sirghre, recupero os dados de acesso, insiro as minhas habilitações irrelevantes para o contexto, a formação da Universidade de Cambridge para Professores não conta para nada, nem a pós-graduação mal amanhada em Ensino do Inglês, tempo de serviço 0, mas vou ver no que dá!

Centenas de ofertas, não interessa se era profissionalizada, se era para Português, Inglês, Tutorias, Cidadania, PLA, toda uma panóplia. Ao pé de casa, nas escolas onde estudei, perto da família, era só escolher!

E lá vou eu, 38 anos, sem eira nem carreira, para uma escola secundária, em frente à casa dos meus pais, com anos de serviço, horas de experiência e uns milhares gastos em formação, mas contratada, a ganhar o mínimo e sem nenhuma hipótese de ser mesmo Professora Profissional (porque a de me continuar a sacrificar já nãofazia parte do cardápio). Direcções de Turma, PEI’s, PIT’s, legislação, ensino à distância, afinal, mesmo sem RFE, nem Mestrado Profissionalizante continuo a saber de tudo, a fazer tudo e a minha prática, baseada nos anos de formação e experiência que tenho continua muito melhor que a de muitos dos colegas zombie da sala de professores (os professores zombie foram mordidos pelo sistema, não têm culpa de como as coisas se desenrolaram e o cu deles também não aguentou, andam pelos espaços escolares à procura de reformas como se de cérebros se tratassem).

Mas, olha, dá-me jeito ter um contrato, mesmo que seja temporário ou até 31 de agosto, e é bom poder decidir que vou trabalhar menos horas, ser e fazer sempre melhor e ainda inspirar uns zombies pelo caminho.

E estou decidida. Não faço mais sacrifícios para ir pagar mais créditos, nem mestrados profissionalizantes. Vou ensinar para outras freguesias do conhecimento e está tudo bem.

Os colegas chocam-se muito, dizem que vá fazer o mestrado, que o ensino e a escola precisam de profissionais como eu, que certifique o tempo de serviço (parece que já não posso, vi um e-mail fantasma recentemente que dizia algo sobre isso, não lhe prestei muita atenção).

O meu pai só fala de um RVCC para professores. ‘Mas esses fdp’s não reconhecem as tuas competências?’ Eu relembro-o sempre de que os fantasmas não existem.

Ângela Gonçalves
Não-Professora desde 2005