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Testes sumativos sim ou não? – Maria Manuela Richter

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Testes sumativos sim ou não?

Testes, sim, mas sumativos complexos e exaustivos, não!

Este tema daria por certo um manancial de teses.

Se considerarmos o teste sumativo como “o mais importante” e por favor meus alunos (dou sempre comigo a dizer isto aos meus alunos quando me perguntam: este trabalho conta para avaliar, ou conta para a nota final? Como se apenas os sumativos valessem). Claro que sim, tudo conta desde o momento que o aluno entra na sala de aula, diria, entra na escola.

Pela minha prática em escolas do chamado ensino regular público assisti ao longo da vida profissional à operacionalização de diferentes instrumentos de avaliação. Numa lógica integradora e numa avaliação holística, integral do aluno, o teste sumativo deixa muito a desejar, porque não há uma participação fidedigna da aferição dos conhecimentos de cada aluno sobre determinada matéria curricular, basta que nesse dia tenha assistido a uma discussão em casa, entre pares, indisposição, etc. Na avaliação, o teste sumativo é por si mesmo apenas um instrumento e não o principal. Quem de nós nunca se deparou nas vésperas de avaliação final de períodos a corrigir quase à pressa, em tempos record, testes sumativos?

A avaliação quer-se diariamente, é contínua, continuada, forma, formativa e deve ser aplicada em cada aula, sim em cada aula dentro de sala, com um feedback dos alunos em auto-avaliação e hetero avaliação, de mãos dadas entre a diagnose na aula seguinte, como súmula, até ao realizar-se aulas invertidas, onde o aluno é “ professor”.

São muitos os autores que apontam uma avaliação integral do aluno declinando o teste sumativo, privilegiando o qualitativo, a título de exemplo, Paulo Freire, Maria Montessori (deixai brincar as crianças) ou Rudolf Steiner e a Pedagogia Waldorf (filosofia da educação deste filósofo austríaco) que coloca em cada aula à prova do chamado nivelamento de competências, porque como afirmava Steiner, a criança/pessoa quando nasce, não é para reprovar, mas sim para se desvelar em vocações pessoais numa perspectiva construtivista do ensino. Forma educativa que pressupõe e implica todos no processo de aprendizagem, alunos, seus pares, professores, Diretores e até E.E., estes últimos, deveriam ser “formados” sensibilizados para a cultura integral do educando e não apenas “afinal quanto vale o teste sumativo? Ou: só quero saber quanto tiraste no teste sumativo!?” Testes sumativos, redutores ou perigosamente modeladores de capacidades dos processos cognitivos dos alunos e das atitudes e valores.

Quando cheguei a uma escola TEIP onde permaneci quase 20 anos, lutei muito em sede de CP por perceber que os conhecimentos se pautavam em 90% e 10% para atitudes e valores. Alunos do 2º ciclo transitavam com 4 e 5 mas já tinham enxovalhado professores, para não referir aqui outras violências físicas e ameaças. Caminhamos num mundo onde a humanização, prática de bondade, atitudes de paz se deveriam avaliar paralelamente aos conhecimentos. Desenvolver uma avaliação positiva através da qual os alunos tenham plenas oportunidades para provarem o que podem e sabem fazer, de modo a que revelem e desenvolvam as competências, as atitudes e os saberes.

Deveria ser norma de indispensabilidade em coerência e objetivos, metodologias, conteúdos, o princípio da integração, do raciocínio, da arte, ou sensorial artístico e destreza física, em vez de apurar ou avaliar factos isolados de determinada matéria fazendo-a a rainha da avaliação, como tem sido o teste sumativo. São muitos e diários os instrumentos de avaliação ao dispor dos professores, as simples fichas formativas ao longo dos manuais acabam por ser mais fidedignas in loco que o sumativo e pode minimizar os pontos fracos de cada aluno e dos seus ritmos de aprendizagem, também a respeitar. Se todos pensássemos igual… Ainda bem que não, tem de haver raciocínio divergente para convergência que advém das características pessoais de que cada pessoa é portadora e pontos fortes de recolha nos instrumentos de avaliação e minimizar os pontos fracos, de forma que assente em várias experiências e das vivências de cada aluno.

A escola deveria ser um lugar de prática social, práxis, quase como um micro cosmos, uma espécie de Kidzania, com laboratórios de práticas, cozinha, mini bancos, feiras de trocas, jardinagem, mini-agricultura, apoio à criação de animais domésticos, às tradições, ao manufacturado, por exemplo na procura integral, de maneira holística, do desenvolvimento físico, intelectual, artístico e espiritual dos alunos. O vivencial de uma sociedade adaptada a crianças/jovens. Veja-se a título de exemplo o “Portugal dos pequenitos” em Coimbra, como é um tratado de reprodução histórica, um museu vivo de aprendizagem. Aqui o contributo das autarquias é muito importante.

A escola não pode estar distante da sociedade, para não estarmos a formar “monstros alheados” abortos caminhantes da guerra. O Princípio da postura, do respeito, da clareza e a avaliação deve acontecer num ambiente de confiança.

Os alunos devem considerar que a aprendizagem é para a construção da Pessoa e não para a avaliação, e muito menos numérica, quer-se qualitativa, sempre qualitativa. Não somos números. Nestes ficamos “esquecidos” e os bancos da Suíça, sabem-no bem… ou seremos números presidiários.

Construção e nunca competição, uma co-responsabilidade em ambiente de partilha entre todos como num continuum e nunca exclusão ou classificação. Portanto a avaliação quer-se orientadora, motivadora-antes-durante-final–no ensino/aprendizagem em que existe um transfere de capacidades,  cooperação,   iniciativa,  ajuda, o respeito e responsabilidades dentro das áreas do saber entre todos os membros, nunca sancionatório. A título de exemplo: alunos fazerem parte da equipa do jornal escolar, por exemplo, fazerem entrevistas sobre variados temas, serem eles a construírem os textos, com a mediação dos professores… na organização de um campo conceptual. Filosofia para crianças, o saber questionar, abertura ao espírito crítico e criativo. O feedback é o melhor modelo de avaliação, e há muitas e variadas formas e instrumentos para o avaliar, não é rotulando numericamente que se espelha a promoção da autoconfiança.

Nunca a repetição de anos. Defende-se que a própria condição humana, é contrariada com os chumbos. (Já trabalhei numa escola onde se erradicou o teste sumativo, nem por isso os alunos ficaram mais ignorantes do currículo). Importa os variados estágios de aprendizagem, paulatinamente numa formação harmónica da personalidade – trilogia- pensamento-sentimento-vontade, como equilíbrio, acompanhada por um estímulo da imaginação, responsabilização do espírito da comparticipação inclusiva e ambiental.

Da mesma forma os professores deveriam conter nos horários, tempos para reflexão, evitando estarmos a formatar e formar tecnicistas mórbidos.

Visitei, haverá uns 20 anos (por iniciativa própria) uma escola do 1º ciclo, de pedagogia Waldorf e fiquei muito agradada sobretudo com a calma e o desenvolvimento criativo das crianças, estavam num ambiente caseiro, familiar e não na “escola castigadora”.

Por outro lado, sou formadora de classificadores de provas de aferição de HGP. Formação acreditada realizada em Coimbra com o IAVE. De 30 professores que “fizemos” a prova maquete para alunos, nenhuma coincidia nas respostas… É esta diagnose que pretendemos para os alunos, aferindo-os desta forma incongruente? Ao construirmos um edifício começamos pelos alicerces, neste caso, se a tutela eliminasse as aferições, que são já por si mesmas um atestado de incompetência aos professores, o efeito dominó dos sumativos perderiam o reinado, pelo menos enfraqueciam.

Muito haveria a escrever sobre este tema, citando…,citando…