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Telemóveis no primeiro ciclo? Não há como defender o indefensável – Ana Catarina Mesquita

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Nos últimos dias, tivemos conhecimento de uma petição que pretende restringir o uso de telemóveis nas escolas, com o objetivo de promover que se “viva o recreio escolar, sem ecrãs de smartphones”. Não consigo pensar em algum argumento que me convença que, no primeiro ciclo, um aluno deva levar um telemóvel para a escola, ou mesmo sequer ter um em casa. Ainda assim, se o que acontece dentro de cada casa e em cada família apenas a esse núcleo diz respeito, por outro lado, quando passamos para o campo do espaço escolar, a realidade é outra e é da responsabilidade da escola, como instituição de educação, restringir o acesso à tecnologia, já tão presente pela vida fora, em tantos momentos do nosso quotidiano.

Não estou com isto a dizer que possa existir uma proibição efetiva de que os alunos levem os seus telemóveis para a escola. O que pretendo destacar é que deve partir dos pais ou outros encarregados de educação impedir que tal aconteça. Se pensarmos no primeiro ciclo, os nossos alunos estão ainda num microcosmos com proteção relativamente ao exterior, podendo os encarregados de educação facilmente contactar o professor ligando para a escola, e o professor também tendo em sua posse o contacto de cada um dos encarregados de educação dos seus alunos.

Parece-me pois que, perante o crescimento da obesidade infantil e a necessidade de uma socialização maior fora dos ecrãs, além da urgência de um contacto próximo com a realidade ao vivo e a cores, os alunos do primeiro ciclo não devem trazer um telemóvel para o espaço escolar. Mas sublinho que esta atitude parte de casa, da educação e princípios que os pais transmitem aos seus filhos.

Considero, porém, incoerente defendermos o princípio da não utilização de telemóveis na escola e depois forçarmos crianças, que tanto precisam de treinar a sua ortografia e motricidade fina, a utilizarem computadores para fazer provas ou manuais digitais em contexto de sala de aula. Este jovens terão muito tempo para utilizarem as tecnologias ao longo de toda a sua vida. Nestes primeiros anos de aprendizagem, é muito mais relevante conhecerem melhor o mundo em seu redor, contactarem diretamente com as pessoas, com a natureza, brincarem, fazerem exercício físico, lerem livros, participarem em visitas de estudo, do que propriamente estarem agarrados à tecnologia dentro da sala de aula ou no recreio.

Isto não invalida que o professor não possa ou não deva utilizar recursos tecnológicos para enriquecer as suas aulas. Certamente que sim, porque a tecnologia também trouxe diversas formas didáticas de aprendizagem. Porém, é o professor que controla o uso dessa tecnologia e a ela recorre, não o aluno.

Desta forma, compete, em primeiro lugar, aos adultos restringir o acesso das crianças à tecnologia, seja em forma de telemóvel, de tablet, de computador, seja do que for. A socialização fora das redes sociais é muito importante e as nossas crianças têm muito mais para viver e para aprender fora dos ecrãs. Precisamos de um mundo mais humano e, para tal, de educar para a sensibilidade, para a empatia e para uma convivência saudável em sociedade, e isso vai muito além da tecnologia.

Observador