Início Educação Somos todos professores – Manuel Carvalho

Somos todos professores – Manuel Carvalho

913
0

Sempre que um professor é agredido no quadro do exercício das suas funções, segue-se o tradicional rosário de queixas, de lamentações ou de pedidos de agravamento das penas aos agressores. Mas nada de substancial é feito para travar a repetição de ataques à integridade física dos docentes e à sua dignidade profissional.

 

O que aconteceu esta semana na Figueira da Foz, até pela escala da violência envolvida, deve levar o Governo e as autoridades judiciárias a agir com particular veemência. A agressão bárbara e cobarde a uma professora é um ataque à escola e, por extensão, a todos os portugueses. Um episódio que exige muito mais do que censura e solidariedade. Exige acção.

 

Os dados oficiais mostram que a violência em contexto escolar se estabilizou. Casos como o que foi esta semana registado não abundam, felizmente. Mas nem as estatísticas nem a exiguidade de exemplos servem para tranquilizar os docentes, os alunos e demais agentes da comunidade educativa. A notícia de uma professora que foi barbaramente agredida, chegando a ser arrastada pela rua pelos cabelos, acabando por necessitar de tratamento hospitalar, basta para criar a sensação de insegurança e a instilar a noção perigosa, mesmo que errada, de que as escolas portuguesas estão a ser minadas pela violência.

 

Este quadro, mesmo que se funde apenas na percepção, é perigoso por todas as razões, e talvez a mais importante seja a que se associa à quebra da confiança e da autoridade dos professores. Longe vão os tempos, felizmente, em que a disciplina se impunha pelas réguas e varas de cana-da-índia. Mas um professor tem de continuar a ter margem de segurança pessoal e profissional para separar uma briga entre alunos, mesmo que tenha de recorrer à força física, sem receio de sofrer represálias. Um professor tem de se sentir seguro para repreender e punir com proporcionalidade os alunos que reiteradamente põem em causa a sua autoridade e as normas de disciplina essenciais para o funcionamento da actividade lectiva.

 

É por isso que um caso como o da Figueira da Foz merece não apenas a punição severa prevista na lei, mas também uma revisitação de todo o quadro de segurança em que trabalham os professores. Havendo dúvidas sobre se é ou não necessário reforçar o regime jurídico que enquadra as agressões no espaço escolar, tornando-o crime público, discutam-se ao menos outras soluções para proteger os docentes.

 

 

O que aconteceu na Figueira da Foz, vale a pena insistir, não é apenas um episódio de violência inaceitável, como recordou o ministro da Educação. É um ataque a um dos pilares essenciais da nossa sociedade e da nossa esperança no futuro: a escola.

Público