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Socialização – Paulo Guinote

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Quase todos os anos lectivos, enquadrados em actividades mais formais, definidas no âmbito escolar ou apenas como interesse meu, costumo fazer mini-inquéritos aos alunos sobre o seu nível de satisfação com a escola, as aulas, os professores ou o meu desempenho como director de turma. De forma anónima e voluntária, os alunos podem responder em completa liberdade sobre o que acham daquilo que os envolve.

Este ano, elaborei um pequeno questionário sobre o que mais ou menos gostam na sua escola (podiam escolher até três opções, com a possibilidade de acrescentarem outras não previstas no leque inicial), como a classificam e aos professores, na escala que estão habituados a ser-lhes aplicada (de 1 a 5). A amostra é naturalmente localizada e restrita, limitando-se a seis turmas, duas do 5.º ano e quatro do 6.º, num total de 144 alunos registados, mas apenas de 140 a frequentar as aulas. Desses, não solicitei respostas a quem chegou à escola (e, por vezes, ao país) nos últimos 2-3 meses e, em especial, aos que nem ainda conseguem compreender ou expressar-se em Português ou que, por outras razões, manifestam dificuldades em responder a um questionário com escalas de valores e a necessidade de seleccionar opções. O que me fez restar 113 respostas válidas.

A primeira constatação é óbvia: as turmas apresentam perfis diversos na sua relação com a escola e professores, mas a principal diferença se verifica-se entre os mais novos, que avaliam de forma mais generosa o que e quem os rodeia, e os mais “velhos”, que já apresentam um maior cepticismo e atribuem avaliações mais baixas. Tudo contado, globalmente, a avaliação da “escola” foi de 3,25, enquanto a dos “professores” foi de 3,52, ou seja, um Suficiente, mais ou menos robusto.

Quanto aos factores de que mais gostam na escola, 68% das respostas distribuíram-se pelas opções “conviver com os colegas” (26%), “espaço para brincar” (21%) e “praticar desporto” (21%). “Aprender coisas novas” surge apenas no quarto lugar, com 14,5%, enquanto “assistir às aulas” ou “ler/estudar na Biblioteca”, no seu conjunto, nem chegam aos 6%.
Quanto ao que menos gostam na escola, não me espantei por serem as actividades encaradas como trabalho, obrigação ou dever, a surgir nos primeiros lugares: 25% não gostam de ler ou estudar na Biblioteca, 21% de ir às aulas, 17% de estudar e 8% de aprender, o que totaliza 71% das respostas.

O espaço escolar é visto pelos alunos, em comunidades como aquela onde lecciono, num concelho de subúrbio com muitos problemas socio-económicos e um perfil demográfico com muita diversidade, mas baixos hábitos de consumo na área da cultura, como um ambiente de socialização, onde as actividades lúdicas superam largamente as académicas nas preferências. O que se pode considerar “normal”, atendendo ao contexto etário, mas levanta enormes desafios ao trabalho de quem quer promover aprendizagens que vão além do que é mais imediato, “giro” ou que “não é chato”. Que dê trabalho e exija concentração e um mínimo de auto-disciplina.

Não sei como teria respondido, assim como os meus colegas, no meu tempo, a um inquérito destes. Talvez as respostas não diferissem muito em alguns aspectos. Acredito que as opções “académicas” estivessem ao mesmo nível. Mas sei que, pelo menos, existia a percepção de que, gostando ou não de estudar ou assistir a aulas, a escola era um espaço destinado à aprendizagem e não apenas a brincadeiras e convívio. Porque o espaço da diversão ainda era a rua. Assim como o processo de socialização passava pela família e “vizinhança”. Algo que, progressivamente, foi passando para as escolas e reforçou a erosão do seu papel como instituição destinada prioritariamente ao “ensino-aprendizagem” no seu sentido mais tradicional.

Tudo aliado à descrença nas possibilidades abertas pelo sucesso académico, a começar pelas famílias, cujas expectativas são factor determinante para esta situação. Algo que não se consegue inverter apresentando o “sucesso” como um direito sem futuro. E a Escola como algo sem identidade específica.

DN

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