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Será o regresso às escolas uma bomba-relógio pandémica? – Miguel R. Oliveira Panão

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A data de início das aulas aproxima-se e aumentam os receios pelos efeitos que esse regresso possa ter em relação à amplificação da segunda onda pandémica da Covid-19. As escolas estão a preparar-se com protocolos de desinfecção dos espaços, controlo da temperatura à entrada, desfasamentos no começo das aulas entre diferentes anos de escolaridade, mas será suficiente? Sabendo da possibilidade de pessoas infectadas serem assintomáticas e de que a maior parte dessas são os estudantes que regressam às escolas, estaremos diante de uma bomba-relógio pandémica?

Um grupo de investigadores britânicos publicou em Maio deste ano um estudo na Nature Medicine1 que mostrou como apenas 21% das pessoas com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos, infectadas com a Covid-19, mostravam sintomas. Quer isso dizer que existe uma probabilidade de 8 em cada 10 alunos que regressam às aulas estarem infectados e, mesmo que meçamos a temperatura à chegada, acabam por se tornar numa fonte de propagação da doença.

A necessidade de segurança é um factor psicológico muito importante. Por isso, quando os pais veem o pessoal auxiliar a medir a temperatura à entrada das escolas e a limpar as mãos com álcool, sentem segurança, mas acabam por confundir uma certa “ostentação visual” com eficácia.

O modo preferencial de propagação deste vírus é pelos aerossóis que se encontram no ar. Por mais que desinfectemos as superfícies, o ar pode estar contaminado. Os aerossóis são gotículas de tamanho ínfimo, isto é, tamanhos cem vezes mais pequenos que a espessura de um cabelo humano. Para terem uma ideia, os aerossóis representam cerca de 2% do volume total de partículas emitidas numa tosse ou falar, mas devido ao seu tamanho, tossir uma vez pode emitir 20 milhões de gotículas e o falar pode emitir cerca de 7 milhões.

Ao contrário das gotículas maiores, os aerossóis podem demorar cerca de 10 minutos até se depositarem no chão, sobretudo, se a ventilação for pobre. Logo, o distanciamento de dois metros é manifestamente insuficiente. Bastaria ventilar bem os espaços para diminuir a concentração destas partículas e, consequentemente, o risco de contágio. Porém, abrir as janelas e portas da sala de aula no inverno pode causar um grande desconforto, prejudicando a aprendizagem. Depois, existe a questão da temperatura.

Medir a temperatura permite identificar potenciais infectados, mas estaremos a falar de dois estudantes em cada 10, enquanto os 8 que estão infectados, e não possuem sintomas, entram na escola. A medida é útil, mas a teatralidade da situação pode gerar um certa condescendência em relação às medidas mais eficazes a tomar para conter esta pandemia. Por exemplo, o uso da máscara.

Tenho uns colegas de uma empresa relacionada com a visualização do movimento de partículas com lasers, que mostraram a diferença entre diferentes máscaras, e a importância do seu uso na diminuição substancial da emissão dos aerossóis. Contudo, a eficácia depende de um uso correcto das máscaras.

O coronavirus entra pelas vias respiratórias e as principais, sabemos, são o nariz e a boca. Pelas ruas veem-se inúmeras pessoas com a máscara abaixo do nariz. Não serve. O vírus entra. Felizmente, os jovens são mais rigorosos quanto a esse aspecto.

Depois, uma outra prática é deslocar a máscara para o queixo e pescoço. É, também, uma prática pouco recomendável. Se houver aerossóis contaminados que se depositem no pescoço, ao baixar a máscara, essa pode contactar com a pele contaminada na parte interior que, mais tarde, voltamos a colocar na boca. Logo, o vírus pode entrar. A solução passa por retirar a máscara, em vez de deslocá-la. Mas há um efeito da máscara de que pouco se fala: a fadiga pelo uso prolongado.

Como não respiramos da mesma maneira, o uso da máscara por algum tempo pode dar alguma sonolência, ou mesmo criar alguma ansiedade. Quando penso nas aulas de quase uma hora, o desempenho fica comprometido com estudantes e professores a usar máscara todo esse tempo. Não é possível gastar €150 em máscaras ventiladas com filtros HEPA da CIVILITY para todas as pessoas. Por isso, talvez seja necessário fazer mais intervalos, curtos, e estimular que os estudantes bebam água para lidar com a desidratação causada pelo uso prolongado da máscara.

Tudo tem um período de adaptação. E a insistência no regresso às aulas como sempre se fez, parece sobrepôr-se ao processo de aprendizagem que este “novo normal” exige de todos nós. Os defensores de um regresso convencional às aulas pensam que as medidas exteriores de conforto psicológico são suficientes. E que este esforço é importante para relançar a economia, uma vez que os pais precisam de trabalhar, e se os seus filhos não regressam à escola, os desafios logísticos são maiores. Mas o preço a pagar pela pressa pode ser elevado.

A solução talvez passe pela paciência e prudência. Para além da medidas teatrais (embora úteis), da melhoria da ventilação nas salas de aula, e do estabelecimento de boas práticas no uso da máscara, a melhor forma de avaliar a infecção pelo coronavirus é o teste. Esse é fiável para todos, incluindo os assintomáticos.

O início do ano lectivo deveria passar antes pela massificação dos testes nas escolas, com um gradual regresso às aulas condicionado ao resultado dos testes. Por exemplo, a Universidade de Coimbra iniciará um programa de rastreio para a Covid-19 para proporcionar condições de segurança fiáveis, apelando aos actos de cidadania, uma vez que os testes não são de carácter obrigatório. É uma medida exigente, mas parece-me ser a forma mais segura de evitar que o regresso às aulas se torne numa bomba-relógio com um efeito indesejável significativo sobre a segunda onda que se avizinha desta pandemia.

(1) Davies, N.G., Klepac, P., Liu, Y. et al. Age-dependent effects in the transmission and control of COVID-19 epidemics. Nature Medicine 26, 1205–1211 (2020)

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