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Sem telemóveis, os recreios ganharam vida

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Àhora do intervalo, são centenas os alunos que começam a surgir de todos os corredores e andares, convergindo em direção ao bar, aos pátios e à biblioteca. Há quem jogue à bola, quem se limite a estar em grupo a conversar, quem vá requisitar as raquetes de pingue-pongue que passaram a estar disponíveis no “kit recreio criativo”. Ninguém tem um telemóvel na mão, um cenário altamente improvável, senão impossível, em qualquer concentração que junte adolescentes.

“Uma das diferenças que mais se nota é o volume do barulho, que aumentou, mas de forma saudável”, descreve Sandra Rosa, coordenadora de projetos no Agrupamento Gil Vicente, em Lisboa, um dos que iniciaram o ano letivo com novas regras no que respeita a telemóveis. Os smartphones podem entrar na escola, mas têm de estar desligados e permanecer dentro das mochilas.

Ao fim de três dias de aulas, é impossível fazer um balanço. Mas que os intervalos nesta escola frequentada por 800 alunos, do 5º ao 12º, ficaram diferentes é já uma evidência, atestada por professores, funcionários e alunos. “No ano passado, mal saíam da sala, pegavam no telemóvel e tac-tac-tac-tac”, descreve a funcionária Elisabete com a ajuda dos polegares, segurando um telefone imaginário. “É uma diferença muito grande que se nota” seja nas brincadeiras, seja no facto de estarem agora “em roda à conversa”, quando antes se punham lado a lado, cabeça enfiada no smartphone. “Saíam das salas com os dedos elétricos. As meninas enfiavam-se nas casas de banho e iam tirar selfies. Os rapazes era mais jogos. Nem saíam dos corredores. Agora saem das aulas e vão direto para o pátio. E poucos questionam a medida. Tem sido muito fácil”, confirma a auxiliar Manuela Reais. À porta, do lado de fora e já de telemóvel na mão, Guadalupe e Sofia, do 6º ano, só lamentam não conseguir ver que horas são e ligar aos pais durante o período escolar. “Conversamos mais uns com os outros”, atestam três alunos do 8º ano.

De Lisboa a Santa Maria da Feira, passando por Oeiras ou Almeirim, são vários os estabelecimentos públicos (nos privados a tendência começou antes) que adotaram este tipo de restrições. As regras vão variando, entre a obrigação de deixar os aparelhos num local próprio ou terem-nos consigo mas desligados; entre a interdição para todos e o uso condicionado para os mais velhos. Mas as razões que levaram à medida são comuns.

“No intervalo, víamos os alunos em silêncio agarrados ao telemóvel, sem brincarem nem interagirem. Um recreio silencioso é algo de muito estranho e estava a tornar-se patológico. Além de que estavam a aumentar os conflitos, já que alguns alunos filmavam os professores nas aulas ou fotografavam os colegas e partilhavam nas redes”, recorda a diretora do Agrupamento António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, o primeiro do país a proibir telemóveis, em 2017.

No caso da Gil Vicente, os problemas agravaram-se no pós-pandemia: “No regresso à escola, havia adolescentes que chegavam aqui sem amigos físicos, só virtuais, e sentia-se uma grande inércia nos recreios. Nas aulas, era uma falta de atenção e de foco. Não conseguiam ficar 90 minutos sem olhar para o telemóvel e os professores queixavam-se quase diariamente. As filmagens e partilhas feitas sem consentimento geravam conflitos entre pares e famílias”, conta Sandra Rosa.

O problema foi escalando e quando os professores se aperceberam que até conteúdos pornográficos eram visualizados por alguns alunos, no 2º período do ano passado a direção decidiu restringir o acesso ao wi-fi da escola. Este ano, ciente de que a proibição só na sala de aula não era suficiente, o agrupamento interditou a utilização de telemóveis em todo o recinto. Nas salas de aula podem usar-se os computadores e os tablets que a escola disponibiliza.

DEPENDENTES DO TELEMÓVEL

Ivone Patrão, psicóloga e coordenadora do Geração Cordão — um projeto de investigação na área dos comportamentos e dependências online —, conhece bem a realidade vivida dentro dos estabelecimentos de ensino: “O que se vê quando se entra numa escola a partir do 2º ciclo é uma tristeza: durante os intervalos, os miúdos estão todos a olhar para o telemóvel, sem interagir uns com os outros. E utilizam muito os intervalos para fazer ciberbullying.”

Segundo um estudo que coordenou no ano passado, a partir de inquéritos realizados em várias escolas, 15% a 20% dos jovens entre os 12 e os 25 anos apresentam sinais de dependência online — dados que estão em linha com os apurados no resto da Europa. A utilização excessiva dos smartphones reduz as competências sociais dos alunos, prejudica o rendimento académico e aumenta as dificuldades de comunicação e os conflitos dentro da família, tendo ainda impactos ao nível do sono e da alimentação, enumera a investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

A gravidade do problema tem sido discutida um pouco por todo o mundo, levando mesmo a UNESCO a apelar, em julho, à proibição dos telemóveis nas escolas. Em França, a interdição já foi decretada pelo Governo e os Países Baixos preparam-se para fazê-lo em 2024. Por cá, têm sido as escolas a adotar medidas caso a caso. Foi o que aconteceu nos dois agrupamentos de Almeirim, após uma recomendação do Conselho Municipal de Educação: no 1º ciclo os telefones não entram na escola, nas turmas do 5º ao 9º anos são entregues na primeira hora e recolhidos na última e no secundário são deixados numa caixa durante as aulas mas podem ser usados no intervalo.

“No regresso à escola, vimos adolescentes que chegavam sem amigos físicos, só virtuais, e sentia-se grande inércia nos recreios”, diz Sandra Rosa

Os pais, na sua maioria, aplaudem. Até pelos problemas de comportamento e de dependência com que se deparavam: “Temos miúdos que acordam a meio da noite porque têm de ver o direto do youtuber ou o live no TikTok, que passam o dia inteiro sem falar uns com outros, alguns com 10 anos e já medicados”, conta o presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Almeirim, Pedro Raposeira, frisando que a ideia das novas regras “é incentivar a socialização e prevenir problemas de saúde mental”, e não promover um “retrocesso na utilização das tecnologias”: “Todos os dispositivos que os professores achem necessários podem ser usados. O que não queremos é fomentar a dependência do telemóvel.”

Em Lisboa, no Agrupamento Gil Vicente, os pais, inicialmente “muito céticos” sobre o cumprimento da medida, ficaram surpreendidos: “Acredito que se as outras escolas soubessem como é fácil interditar os telemóveis, muitas já teriam avançado”, comenta Manuel Esteves, um dos pais que esteve envolvido na discussão com a direção sobre o uso dos telemóveis na escola. E o debate ajudou os próprios adultos a ganhar maior consciência do problema, afirma.

No Agrupamento António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, o balanço de seis anos de proibição é igualmente muito positivo. “Os pais dizem que têm dificuldade em controlar o tempo de telemóvel quando os filhos estão em casa e ficam contentes que pelo menos na escola não o possam usar”, conta a diretora, acrescentando à lista outros ganhos “inequívocos”: “Os alunos têm mais amigos reais, conhecem-se melhor, interagem mais e o ciberbullying diminuiu.”

Mas nem todas as famílias estão contentes. “Em alguns agrupamentos onde vigora a proibição os pais dizem que os filhos parecem estar de ressaca quando saem da escola; chegam a casa e só querem ficar colados ao telemóvel para ver tudo o que não viram ao longo do dia”, diz Ivone Patrão. A investigadora não tem dúvidas de que alguma coisa tem de ser feita, mas, mais do que a proibição, defende uma regulamentação em que alunos, pais e docentes acordem regras de uso em conjunto.

João Faria, psicólogo e coordenador do núcleo de intervenção no comportamento online na Clínica PIN — Progresso Infantil, concorda. “A proibição cria um ambiente muito artificial nas escolas, que nada tem a ver com a realidade lá fora. Basta ver o que os adultos e os próprios professores fazem quando estão no intervalo.” O especialista salienta que nas escolas a regulação do uso do telemóvel tem de ser acompanhada de uma modernização dos espaços escolares para os tornar mais atrativos. Até porque “há pátios de prisões mais interessantes e com mais atividades do que muitos recreios”.