Início Educação Sem internet, o interior fez “milagres” com a radioescola

Sem internet, o interior fez “milagres” com a radioescola

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Afrequência é 87.7 FM e as aulas começam às 15h. Às quartas-feiras, é dia de história infantil: enquanto um narrador profissional — como António Fontinha ou Patrícia Amaral — dá voz a um conto, os alunos são desafiados a fazer desenhos. Às quintas, até ao final do ano letivo, havia aulas de Estudo do Meio; agora, durante o verão, vão ser emitidos apontamentos sobre a flora local. Pergunta-se: “Como é uma roselha?”, “O que é uma rosa albardeira?”

Desde o dia 16 de março, a programação da rádio Voz da Raia, sediada em Penamacor, ganhou uma nova vida. A modesta emissora regional, que pertence à Santa Casa de Misericórdia, transformou-se numa radioescola devido à pandemia e às circunstâncias do município onde está implementada. Maria Marques e Ana Beatriz, ambas com 10 anos, são alunas (e ouvintes) fiéis. Escutam os programas emitidos “na rádio”, “pelo telemóvel” e “até no carro”. Sempre à hora marcada.

Maria mora na aldeia de Águas, onde faltam meninos da sua idade e a cobertura de internet é periclitante. As aulas pelo computador durante o 3.º período foram um “desafio”, assume a mãe Bárbara Marques, 38 anos. Houve episódios insólitos. Mesmo de máscara, o levantar de sobrolho de estranheza é evidente quando conta: “Duas ou três vezes, a Maria teve de se filmar a fazer educação física, para depois enviar ao professor.” Por causa da má qualidade da rede de internet, Maria apenas conseguiu cumprir esse “trabalho de casa” uma vez.

Para Bárbara, ver a filha, durante meses, a assistir ao “Estudo em Casa”, na RTP Memória, foi um jogo de espelhos geracional. “Às vezes, lá em casa, era gozada quando dizia que tinha andado na telescola. Perguntavam: o que era isso?”, conta. “Bem, agora já ficaram com uma ideia.”

AMPARAR A QUEDA

Maria gostou da experiência, mas teve dificuldades. Primeiro, com a dessincronização dos currículos. “Não era a matéria que estava a dar na escola.” Segundo, “estava sempre a dar muitos erros”. Ou seja, precisava de mais acompanhamento. Esse foi precisamente um dos motivos pelos quais nasceu a radioescola no concelho.

O lugar-comum diz que a necessidade faz o engenho. Em Penamacor, com a pandemia, tornou-se urgente pensar numa “medida educativa que pudesse levar o ensino aos alunos que estão em quintas ou aldeias, onde a rede de acesso à internet é mais fraca”, diz Gorete Brito, uma das dinamizadoras do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar (PIICIE) da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa. Em suma: era fundamental criar “atividades que minimizassem o impacto da pandemia” na aprendizagem das crianças.

Penamacor é um dos concelhos mais envelhecidos de Portugal, mas, nos últimos anos, tem sofrido uma renovação demográfica graças à fixação de muitos cidadãos estrangeiros. No ano letivo que findou, o infantário municipal voltou a ter duas turmas no pré-escolar. “Há muito tempo que isto não acontecia. O infantário privado, que pertence à Santa Casa, está neste momento completamente lotado e com lista de espera”, conta o presidente da câmara António Luís Beites.

A população estrangeira representa, neste momento, 10% do total do concelho; há muitos jovens e crianças a morar em locais isolados e sem acesso à internet, televisão ou mesmo rede telefónica. Ora, “a rádio tem uma vantagem enorme que é o sinal chegar a todo o lado, de uma forma extraordinária”, frisa o autarca. Andreia Carrasco, outra das responsáveis do PIICIE, acrescenta: “Nos dias de hoje, toda gente tem um telemóvel com rádio. Não há necessidade de ter internet, nem mesmo de ter rádio físico.”

As dinamizadoras do PIICIE — apesar de nunca terem pisado um estúdio até ao início do estado de emergência — lançaram a ideia da radioescola. E concretizá-la foi fácil: bastou uma conversa informal de António Beites com o provedor da Santa Casa local, João Cunha, para ganhar acesso ao tempo de antena “a custo zero”.

É uma rádio de um homem só. Não é raro Luís deixá-la em piloto automático para ir entregar almoços aos utentes do Centro de Dia

Sob orientação do radialista Luís Teixeira, as tutoras conseguiram, em muito pouco tempo, criar dois programas. As histórias infantis às quartas, que permitem às crianças “ouvir corretamente a língua portuguesa e continuar a desenvolver a sua aquisição da linguagem”, e as aulas de Estudo do Meio, para o ensino básico, às quintas. Em coordenação com os docentes do Agrupamento de Escolas Ribeiro Sanches, passaram, então, a selecionar todas as semanas a matéria que achavam mais importante. “Fazíamos um resumo e depois íamos gravar”, conta Manuela Augusto.

O “feedback desta iniciativa tem sido muito positivo”, e como em setembro é pouco provável que a pandemia tenha desaparecido, as aulas de Estudo do Meio vão voltar, garante Gorete Brito. Mas há mais novidades: vão ser introduzidas outras disciplinas, como Matemática. “Já estamos a pensar no futuro.”

NOVO DESAFIO: PODCASTS

O estúdio da Voz da Raia resume-se a duas salas. A mesa de mistura em que Luís Teixeira trabalha é a mesma desde a abertura da emissora há 22 anos; o monitor do computador, “ainda dos gordos”, está amarelecido. Algum do equipamento já foi “reparado e reparado”. “Trabalhamos e chegamos muito longe com poucos meios”, assume o radialista.

A emissora é uma rádio de um homem só. Luís é, na realidade, funcionário da Santa Casa; durante a semana, não é raro deixar a programação em piloto automático para ir entregar almoços aos utentes do Centro de Dia. “Faço rádio por hobby”, explica.

Os meios podem ser limitados, mas as ideias de Luís são criativas. “Por vezes, com as devidas ressalvas, comparo-me a um pintor com uma tela em branco”, diz. A pensar no próximo ano letivo, Gorete Brito já tem um novo desafio para o radialista: “Gostávamos de alargar aos podcasts.”

Desta forma, qualquer aluno, em qualquer ponto do concelho (ou do país) poderia “pegar no telemóvel e ouvir as aulas a qualquer hora”, explica. Luís Teixeira gosta da ideia e não se diz “intimidado”. Afinal, “já se fizeram aqui muitos milagres”.