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“Respeito” – José Gil e Ana Godinho

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Na manifestação de 14 de Janeiro, uma palavra sobressaía, incessantemente, de entre os vários cartazes de reivindicações dos professores: “Respeito”. Associada ao respeito, vinha a exigência de “dignificação” da profissão. Parecia – e parece – ser uma questão de ética, não de ética profissional, mas de ética pura: nas condições de trabalho que lhes são impostas, os professores sentem-se feridos, enquanto pessoas. Mas não é assim na maioria das profissões vítimas de desigualdades de toda a espécie? Quando se degradam, para além de certos limites, as condições laborais põem em causa a dignidade da profissão. Não será o caso dos professores?

Todos os sectores que protestam por melhores salários ou melhores carreiras estão também a exigir respeito e uma vida digna. Porque é que só os professores se lembraram de colocar o “respeito” à frente de todas as outras reivindicações?

O discurso dos governantes ia traçando o quadro de um usufruidor abusivo da riqueza do Estado, um tanto anárquico e selvagem, cuja liberdade profissional se confundia obscuramente com a intolerável impunidade de que gozava, o que não se podia permitir que continuasse. Uma espécie de arrogância social inadmissível parecia agora acompanhar a imagem do professor.

Criou-se então um dispositivo complexo para o “pôr na ordem” (além de servir uma série de outros objectivos educativos e políticos), com o apoio da sociedade civil. “Pôr na ordem” significava disciplinar, domar e, de certo modo, castigar, controlando o mais apertadamente possível a sua prática profissional. Duas componentes essenciais desse dispositivo são: as estratégias de avaliação dos professores e dos alunos, e as metodologias utilizadas para as concretizar, que implicavam um extraordinário desenvolvimento da burocracia, poderoso instrumento de captura e esmagamento da actividade dos docentes. Ao mesmo tempo, transformavam-se o ensino, as aprendizagens e a própria Escola.

Praticamente, os professores entraram numa máquina infernal de imposições, directivas, ordens, e obrigações caídas do céu (do Ministério da Educação) que lhes foi roubando, progressiva mas rapidamente, o tempo de vida, e a liberdade e o prazer de ensinar. Ao mesmo tempo deterioram-se as condições laborais, salariais e de progressão nas carreiras. Instalou-se um minucioso sistema de controle da vida profissional e privada dos docentes.

Hoje, encurralados entre uma burocracia monstruosa e os restos de brio profissional que ainda sentem, sem tempo para prepararem as aulas ou para se dedicarem à família, perseguidos pelo olhar panóptico do Ministério-patrão que lhes envia, a toda a hora do dia e da noite, mais formulários, grelhas, esquemas a preencher sempre com urgência, os professores parecem sobreviver como ratos de laboratório, exaustos, desmotivados, humilhados, ameaçados de depressão, burnout e patologias afins. Estava ganha a aposta dos governantes: vergaram-se os professores, perderam a arrogância e os privilégios, desapareceu aquela liberdade intolerável que parecia situá-los acima de todos, tornaram-se previsíveis e bem controlados.

Julgava-se isto até à manifestação de sábado 14. Eis que de novo surgiu, não se sabe como nem de onde, a antiga figura do professor imprevisível, ainda livre, a exigir respeito (ao mesmo tempo que renasciam velhos fantasmas do poder: a GNR revistava autocarros de manifestantes…). Respeito por quem ou por quê? Precisamente, por aquela liberdade sem a qual não há aprendizagem, nem ensino e formação, e que certos responsáveis e executantes, inconscientes do laço que une a escola pública e a educação à democracia, teimam em querer controlar e suprimir.