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Regresso às aulas: “Não basta perguntar ao final do dia como correu a escola”

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Conversar sobre o que pode preocupar crianças e jovens no regresso a uma escola diferente, com mais regras e menos convívio, é fundamental, defende a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Pais ansiosos geram maior ansiedade nos seus filhos quando o mais importante é transmitir serenidade, explicar o porquê das mudanças e garantir que todos estão a trabalhar para encontrar soluções

Como devem ser geridos receios e ansiedades que possam ser manifestados pelas crianças e adolescentes no regresso às aulas?
Há dois tipos de ansiedade que podem estar a ser sentidos neste momento. Uma mais positiva, de quem está desejoso de regressar à escola ao fim deste tempo todo e de voltar a estar com os amigos. Mas também em relação ao que pode vir ou não a acontecer em função da evolução da pandemia e que não se pode prever. E, aqui, o contexto familiar tem um papel muito importante no sentido de alarmar ou acalmar esse sentimento. Os pais funcionam como modelo para as crianças. Se se mostrarem mais preocupados, elas vão conseguir perceber que algo não está bem. O que as crianças, sobretudo as mais novas, precisam de sentir é segurança. Quanto mais inseguras se sentirem, mas difícil será a adaptação à escola. E há o risco de assumirem comportamentos menos facilitadores de adaptação à escola.

Por outro lado, os pais precisam de ter a informação suficiente e correta para gerir bem a situação. Quer em relação à covid-19 e às orientações da Direção-Geral da Saúde, quer por parte da escola que os filhos frequentam. Esse contacto tem de ser permanente.

Mas também não será útil que os pais estejam sempre em cima das escolas, colocando dúvidas constantemente.
Essa tentação é natural. A escola tem de antecipar todas essas preocupações e de forma atempada e suficientemente esclarecedora, em reuniões com os pais. E deve também ter uma equipa montada que seja responsável quer pela ligação com os pais, quer pelas respostas que sejam necessárias dar dentro da escola. Haver esta equipa multidisciplinar de resposta à pandemia no contexto escolar é essencial. Se integrar um psicólogo pode até trabalhar na questão de identificação de indicadores de ansiedade ou stress que surjam, seja em crianças e jovens, seja entre professores ou outros elementos da comunidade educativa.

Tem-se falado muito da importância das primeiras semanas para a recuperação das aprendizagens, até pelo agravamento das desigualdades que o ensino à distância causou. Mas tem também de haver uma atenção às questões da saúde mental e psicológica das crianças e jovens que pode estar afetada.

Os pais devem conversar antes com os filhos sobre este regresso às aulas, mesmo que não manifestem nenhum sinal de ansiedade?
Conversar é fundamental. E essa conversa não se deve centrar apenas no futuro, mas no que foram estes seis meses e perceber como se sentiram. E depois ver se existe algum medo em relação ao regresso e porquê. Pode ser uma oportunidade para rebater alguns mitos ou ideias erradas que crianças e jovens possam ter sobre este momento e assegurar que há adultos que estão a trabalhar para que este problema se resolva. Ao final do dia, no regresso, deve-se conversar outra vez. Mas não basta perguntar como correu a escola. É diferente quando perguntamos ‘como correu o dia’ ou ‘como te sentiste’. Mas é também importante que seja uma conversa com dois sentidos, em que também há partilha do lado dos pais e uma experiência que está a ser vivida por todos e em união.

Quais são os sinais de alerta a que os pais devem estar atentos?
Quaisquer comportamentos que apresentem e que não tinham antes, seja no sentido de um maior isolamento, seja manifestações de agressividade ou indisciplina até à perda do rendimento escolar. Alterações de sono, de humor ou nos hábitos alimentares são também sinais a ter em atenção. Depois, há grupos mais vulneráveis, nomeadamente entre as crianças de famílias que passaram por situações de perda de emprego ou de rendimento e que podem exacerbar condições psicológicas prévias. Mas sabemos também que as crianças e jovens têm uma capacidade de adaptação muito grande a circunstâncias atípicas e difíceis. E até mesmo na velocidade com que aderem a novas regras. Se souberem quais são, o porquê da sua existência e da importância que têm na proteção dos outros, interiorizam com muita facilidade. Este é um aspeto importante para acalmar os pais.

No entanto, para que continuem a cumpri-las ao longo do tempo, e não apenas numa fase inicial, precisam de continuar a sentir-se acompanhadas e a receber informação sobre a necessidade de manter certos comportamentos.

O facto de se estar agora a educar as crianças para o afastamento, a não partilha, a ausência de contacto não pode levar a que estas gerações assumam comportamentos de distanciamento e isolamento que perdurem além da pandemia?
Assim como se adaptam a novas regras facilmente e trocam um beijo ou um abraço por um toque de cotovelo, também voltarão às rotinas de uma socialização normal quando for possível. Para isso é muito importante que percebam porque é que estão a fazer agora de forma diferente, para depois perceberem a alteração. Dito isto, é verdade que algumas crianças com uma condição psicológica prévia, como alguma dificuldade no contacto físico, vejam esse comportamento ou característica reforçada e, no limite, incorram num desajustamento psicológico a necessitar de intervenção.

É muito importante reforçar a ideia de que distanciamento físico não implica afastamento social. Antes pelo contrário. Agora mais do que nunca precisamos de promover relações de empatia, reciprocidade e proximidade, que criem um sentimento de união e uma comunidade mais resiliente.

Com tantas regras e restrições na escola não há o risco de estas se tornarem espaços que transmitem preocupação, ao contrário do que seria desejável?
É possível que exista um choque inicial no regresso. Ao verem as alterações podem ganhar outra consciência da dimensão do que está a acontecer. Mas é também com base nessa perceção que vão ser mais colaborantes. Por outro lado, a existência de regras e de uma estrutura acaba por fazê-las sentir protegidas. É organizador para elas.

Não há regras que acabam por fazer mais mal que bem? Por exemplo, não é uma violência dizer a pais com filhos pequenos que vão pela primeira vez à creche ou à escola que não podem entrar nesse espaço e obrigá-los a entregar à pressa a criança a uma educadora que nunca viram?
Tem de se encontrar sempre um equilíbrio entre as regras. Com crianças pequenas, e sobretudo quando vão pela primeira vez para a creche, para o jardim de infância ou para o 1.º ano da escola, é importante que os pais possam permanecer por alguns momentos no espaço educativo e que conversem com os filhos antes de os passar do seu colo para o da educadora. Isto ajuda a suavizar a experiência da separação e a diminuir a ansiedade da criança. Por outro lado, também faz sentido que a orientação seja a de evitar que todos os pais possam entrar no recinto escolar. Deve caber a cada direção de escola avaliar as condições que tem e a melhor forma de conciliar os dois tipos de medidas, sanitárias por um lado, e pedagógicas por outro. Se a escola tiver um espaço exterior grande pode ser possível permitir o encontro entre a educadora e o pai ou a mãe e garantir que esse processo se faça com mais tempo, respeitando todas as outras medidas de utilização de máscara e outras.

Nos últimos tempos tem-se falado muito de saúde mental. É já uma evidência que esta pandemia também vai deixar marcas a esse nível?
Globalmente há um aumento do número de situações de vulnerabilidade e/ou desajustamento psicológico, sendo que há grupos específicos que podem ser mais afetados.

Como por exemplo?
Entre os profissionais de saúde que passaram por experiências difíceis na resposta de emergência à pandemia, por exemplo. Os idosos são também um grupo de grande vulnerabilidade, em particular os que já tinham situações prévias de isolamento e que foram agravadas com um isolamento forçado ainda maior e menor acesso às redes de apoio, como centros de dia, universidades da terceira idade ou a simples ida ao café. Ou professores, que são igualmente um grupo muito vulnerável a situações de stress e burn out e que tiveram de responder muito rapidamente à pandemia, alterando num curto período de tempo a sua forma de trabalhar. E muitos acumulando essa mudança com a necessidade de acompanhar os próprios filhos em casa.

Expresso

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