O Ministério da Educação decidiu mostrar o seu empenho na recuperação das aprendizagens comprometidas pela pandemia com um cheque de enormes proporções: 900 milhões de euros. Há neste anúncio um lado positivo e o rasto de uma dúvida: o lado bom está na clara aposta política do Governo no apoio às crianças e jovens, na sua maioria de famílias desfavorecidas, que a pandemia deixou ainda mais para trás. Mas se o volumoso investimento previsto no plano de recuperação é sinal dessa prioridade, é legítimo discutir se o seu sucesso depende mais da dimensão do cheque ou de factores qualitativos alocados à iniciativa.
Há anos que diferentes governos respondem aos problemas com promessas de mais dinheiro. Em tempos, repetia-se até a expressão “regar os problemas com dinheiro”. No caso em concreto, a dúvida acentua-se a partir do momento em que se sabe que, dos 900 milhões, a maior parte, 670 milhões, terá como destino o “apetrechamento” e as “infra-estruturas” escolares. Não se percebe bem o que tem esta iniciativa que ver com a necessidade de recuperar a curtíssimo prazo os atrasos nas aprendizagens. Mais do que obras, as escolas precisam de assumir e aprofundar a sua autonomia (o “ingrediente principal”, como reconheceu Tiago Brandão Rodrigues), de se organizarem e de assumirem que o sucesso ou o insucesso não são nem uma certeza nem uma fatalidade: os directores e os professores podem fazer a diferença.
Igualmente discutível é a prioridade concedida à contratação de mais 3300 professores. Mesmo que se conceda que a recuperação de aprendizagens vai exigir atenções especiais a cada um dos alunos com dificuldades, também aqui é importante que o país discuta este novo reforço do pessoal docente quando o número de alunos continua a reduzir-se – e isto depois de no último ano terem sido contratados mais 3000 professores e 8000 funcionários. Deve-se aceitar que se a escola pública quer recuperar a normalidade no próximo ano lectivo, tratando ao mesmo tempo de reduzir as sequelas da pandemia, talvez necessite de mais professores.
Como em todos os grandes desafios da escola, não serão, no entanto, os cheques ou o reforço dos quadros a determinar o sucesso da ambição do Governo. Mais importante é a motivação, a mobilização e o desenho de planos exigentes e compreensíveis que tenham os alunos e os professores na primeira linha da prioridade. O dinheiro ajuda, mas, mais do que dinheiro, o desafio com que a escola pública e o país se confrontam tem o seu sucesso dependente da capacidade de os seus agentes acreditarem que, nestes tempos difíceis, eles têm nas mãos boa parte do futuro de milhares de crianças e jovens deste país.
