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Recuperar a Educação – Diogo Fernandes Sousa

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A recuperação das aprendizagens proposta pelo Ministério da Educação contempla números gordos para se aplicar na educação. Números que à vista desarmada aparentam ser um forte investimento educacional e uma grande aposta no futuro. Mas será mesmo assim?

Vamos interpretar os números e determinar aquilo que se faz e aquilo que se deveria fazer, de acordo com a minha opinião enquanto docente.

O bolo global, a aplicar na educação, traduz-se em sensivelmente 900 milhões de euros. Número relevante, significativo, mas apenas para quem o vê enquanto computo global, enquanto um todo, pois neste caso específico, o todo é bem melhor que a soma das suas partes.

Que partes são estas? Muito simples, uma subdivisão em quatro vertentes, contemplando os recursos humanos, a formação, os recursos digitais e as infraestruturas.

O que resulta efetivamente destes 900 milhões? 140 milhões para aplicar em recursos humanos, dos quais deve resultar um acréscimo de 3300 docentes no panorama nacional, que engloba 5735 escolas, portanto determinando um aumento de docentes que não perfaz um único docente por estabelecimento de ensino.

E daqui surge a questão: que futuro pretendemos para a educação? E quem são os atores mais relevantes no desenvolvimento desta educação?

Os docentes assumem um papel de extrema importância, o papel mais central do funcionamento dos estabelecimentos de ensino, e quando se projeta alternativas pedagógicas, designadamente uma prática mais individualizada do aluno, com suporte na presença de uma equipa interdisciplinar para ajudar esses mesmos alunos, seguimos a apostar na monodocência, onde o professor parece uma ilha num oceano que é a sala de aula e que contempla dezenas de paragens necessárias para individualizar o ensino, a pedagogia, e para responder à diversidade de ritmos de trabalho.

De seguida, aplicamos cerca de 43 milhões para a formação e a pergunta que subsiste é: que formação?

Ora interpretando que esta designada formação será a educação contínua para os docentes, basta contemplar o funcionamento dessa mesma formação e percecionar se isso são as verdadeiras necessidades dos docentes. Claro que a resposta é não!

Esta formação, providenciada por os vários centros de formação, muitos dos quais integrados em agrupamentos de escolas para servir os docentes desse agrupamento ou de uma determinada região, responde à vontade do Ministério da Educação. Vontades limitadas porque os professores pretendem formação creditada na sua própria área disciplinar, para a sua progressão, mas também para uma verdadeira formação contínua, e o que se obtém é uma simples formação geral, formações que não respondem às necessidades dos docentes e ao interesse em se atualizarem cientificamente e melhorarem pedagogicamente.

Prosseguem os recursos digitais num período onde ultrapassamos o ensino à distância e os docentes e alunos recorreram, maioritariamente, aos seus próprios meios para laborar e estudar. Aqui aplicam-se aproximadamente 47 milhões. Recursos digitais, recursos digitais… A escola virtual e/ou a aula digital? Serão estes os famosos recursos digitais? Devem ser, até porque o Ministério já garantiu licenças gratuitas para um leque de estudantes. Mas serão esses recursos suficientes? Parece-me que não, até porque esses servem outro tipo de interesses, privados, e porque os mesmos não respondem a todas as necessidades dos professores nem apresentam todos os materiais que se gostaria de aplicar aquando de uma planificação de aula.

Estão a melhorar e assim vão continuar, mas é preciso diversificar e não monopolizar e a alternativa eterna será o Youtube… E vídeos que até parecem confundir os nossos próprios estudantes, tornando-os num português do Brasil, como eles já se estão a habituar a essa maneira de falar e escrever…

Por fim, resta-nos a grande fatia do bolo, aplicada nas infraestruturas. 670 milhões para melhoramentos e infraestruturas. Necessários? Em certos casos específicos, muito! Escolas obsoletas, infraestruturas degradadas, casos trágicos e polémicos em estabelecimentos de ensino.

Mas tudo isto será para infraestrutura e a educação/ensino/aprendizagem/pedagogia não é apenas existir uma escola, é também existir um profissional motivado na escola. Alguém que move mundos e fundos para responder às necessidades do aluno e transmitir ideias e princípios fundamentais para o aluno, enquanto ser social, enquanto futuro profissional (de uma qualquer atividade económica) e enquanto projetor de um futuro que se diz inovador.

Concluindo, continuamos a falhar na correspondência das nossas necessidades com o dinheiro que pretendemos aplicar. O verdadeiro problema são as bastas necessidades para os fundos limitados e, portanto, vamos priorizar, mas priorizar sempre com uma aposta no mesmo patamar que são as infraestruturas e, desta forma, deixamos de apostar nos recursos humanos e nos docentes, esquecendo o seu papel central no ensino e a sua importância na vida do aluno e no futuro da sociedade.

Observador

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