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Quem são as crianças do século XXI. Estamos preparados para o flagelo social das próximas gerações? – Mário Santos

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É costume dizer-se que o ser criança é a melhor fase das nossas vidas, porque a nossa principal tarefa é brincar e não temos responsabilidades.

As crianças são alegres, autênticas, sonhadoras, imaginativas, criativas, brincalhonas, tudo isto funciona de forma natural proporcionando um crescimento, motor, cognitivo e emocional, o que nos estrutura para a vida.

Não há alegria igual e tão genuína como a que mora no olhar de uma criança, porque não tem qualquer preocupação e os seus únicos medos são o escuro e as feras dos desenhos animados.
Estamos em pleno século XXI e começamo-nos a aperceber que as crianças de hoje são bastante diferentes das crianças das gerações dos finais do século XX e que as suas atividades são muito distintas do brincar na rua, do cair e partir a cabeça, da construção da cabana do Tom Sawyer, do jogo do pião e do saltar as poças nos dias de chuva.

Quem são e para onde vão as crianças do século XXI…

Os estímulos que se apresentam sobre as crianças de hoje são completamente distintos dos que se apresentavam nas gerações que nasceram antes da descoberta do telemóvel e do tablet e de outras tecnologias. Hoje, as crianças desenvolvem-se com mais rapidez, dominam todo o aparato mediático e tecnológico, mas perdem um sem número de vivências sociais que são de fulcral importância para o seu desenvolvimento.

As crianças de hoje “já nascem com um telemóvel na mão” o que os permite ver o mundo de uma forma bem diferente das gerações do século XX, terem acesso a todo o tipo de informação e à distância de um click, interagirem com todos os países do planeta.

De facto, esta revolução tecnológica existente no início do século XXI mudou o mundo e está a mudar as nossas crianças, também. A dinâmica, os hábitos, a maneira de educá-las é diferente, hoje, aprendemos mais com elas, uma vez que estão sempre atualizadas com as transformações que ocorrem no seu quotidiano. Os valores e princípios que faziam parte da educação da criança também se modificaram.

As mentes das crianças estão a ficar dependentes da tecnologia. A realidade tem um ritmo muito mais lento, o que é insatisfatório para essas crianças. Além disso, com o tablet nas mãos, eles isolam-se de outras crianças e dos jogos reais.

A interatividade de um tablet ou jogos online cria sensações agradáveis que a criança pode repetir, sem descanso. Essa sensação é viciante porque ativa a dopamina, que é ativada em adultos pelo consumo de álcool, cocaína ou tabaco.

Essa dopamina gera um estado de bem-estar, euforia e motivação, que faz que encontrem a satisfação quando têm um tablet na mão. Assim, os pais, em vez de ensiná-los a regular as emoções para que sejam adultos felizes e responsáveis, estão a promover uma dependência real.

Cris Rowan, uma terapeuta ocupacional pediátrica norte-americana defende que o uso excessivo de tecnologia provoca, problemas no desenvolvimento das crianças, a nível cerebral, cognitivo, motor e social: 1. Crescimento cerebral impróprio; 2. Atraso no desenvolvimento motor, cognitivo, linguagem verbal e não verbal; 3. Obesidade infantil; 4. Privação de sono; 5. Doenças mentais; 6. Agressividade; 7. Demência digital; 8. Vício em tecnologia; 9. Emissão de radiação.

Perante todas esta evidências receio que estejamos a criar um problema social sem precedentes e que estejamos a “fabricar” seres egocêntricos, alheados da realidade, sem valores e que estejam a pôr em causa todos os valores sociais desenvolvidos ao longo de décadas e pelos quais nos pautamos.

É urgente devolver às crianças a alegria, a autenticidade, o sonho e a criatividade, devolvendo a possibilidade de brincarem umas com as outras, de se sujarem, esmurrarem os joelhos, treparem árvores, porque assim se tornam seres sociáveis, desenvolvem as suas habilidades motoras finas e grossas, competências sociais e emocionais e pessoais, bem como hábitos de alimentação saudável.

Sou da opinião que temos de começar desde já a proteger as crianças do século XXI, não proibir o acesso à tecnologia, mas ter em conta um papel preventivo por parte dos pais ao esperar até a idade apropriada para usar esses recursos e promover o uso racional e responsável. Isso inclui não apenas o controle do número de horas de uso da tecnologia, mas também o conteúdo consumido.

Da mesma forma, ao supervisionarmos o comportamento de nossos filhos na vida real, também devemos fazê-lo com relacionamentos virtuais. Pedimos aos nossos filhos que tomem cuidado com estranhos na rua, mas teremos de perguntar o mesmo com as pessoas que entram em contato nas redes sociais. As regras da vida real também servem ao trânsito pelo mundo digital. É nossa responsabilidade apoiar e orientar os nossos filhos a terem a alegria, a desfrutar de uma infância socialmente rica e bem divertida.

Fonte: JE