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Quebra inédita nos desempenhos dos alunos: procuram-se explicações

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Odesempenho dos alunos portugueses de 15 anos a Matemática caiu a pique em 2022, com uma queda de 20 pontos nos testes PISA (Programme for International Student Assessment), que constituem a maior avaliação internacional em Educação. Apesar de ter sido transversal à maioria dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o declínio dos resultados foi particularmente acentuado em Portugal e quebrou a trajetória de melhoria registada entre 2000 e 2015. A pandemia, que obrigou ao fecho das escolas e impôs um ensino à distância para o qual ninguém estava preparado, teve, obviamente, impacto na prestação dos jovens, mas está longe de ser a única responsável pelo desaire. E a prova é que a média alcançada pelos estudantes de países cujos estabelecimentos de ensino estiveram encerrados até mais tempo do que em Portugal, como é o caso da Irlanda, por exemplo, caiu menos de metade da dos colegas portugueses. O que pode, então, ajudar a justificar o descalabro nacional?

Em Educação encontrar explicações cabais que permitam estabelecer uma relação de causa efeito entre uma determinada medida e as notas dos alunos, sejam elas boas ou más é um exercício complexo e arriscado, uma vez que as mudanças demoram tempo a produzir resultados. O certo é que, depois de uma estreia desastrosa no PISA em 2000, quando ficou nos últimos lugares da tabela, Portugal tinha vindo sempre a melhorar nas três áreas avaliadas — matemática, leitura e ciência. Em 2015, o país conseguiu ficar acima da média da OCDE em todas elas e na edição seguinte, em 2018, chegou mesmo a ser notícia por ser o único membro da organização a melhorar os resultados dos seus alunos de forma consistente desde que foi criada esta avaliação internacional. A maioria dos países vem a piorar já há dez anos.

Perante o desaire conhecido esta semana, o ministro da Educação admitiu a “preocupação”, mas recusou análises precipitadas, lembrando que a quebra nos resultados é transversal, verificando-se em países culturalmente muito diferentes e com políticas curriculares bastante diferenciadas. “Há uma descida que tem a ver com a pandemia, mas a pandemia não explica tudo, porque há uma queda na média da OCDE desde 2012 que ainda não foi ainda suficientemente explicada”, declarou João Costa, salientando que o desempenho dos jovens portugueses está em linha com a média da Organização, tanto em matemática (que foi o foco da edição de 2022), como em leitura e ciências.

Terça-feira, dia em que foram conhecidos os resultados destes testes — aplicados em 2022 a quase 700 mil jovens de todo o mundo —, o ministro da Educação garantiu ainda que as alterações introduzidas em Portugal no programa de Matemática do ensino básico — as chamadas Aprendizagens Essenciais — seguem os melhores exemplos internacionais, nomeadamente o currículo de Singapura, país que apresenta a média mais elevada entre todos os 81 países e regiões que participaram no estudo. Estas alterações ao programa da disciplina começaram a entrar em vigor no último ano letivo e não podem, por isso, ser associadas aos resultados da última edição do PISA, já que não tiveram tempo de produzir efeitos.

Ainda assim, João Marôco, investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e especialista em estatísticas da Educação, não hesita em atribuir o mau desempenho dos alunos portugueses a outras alterações educativas introduzidas nos últimos anos pelo Governo, como o fim dos exames nacionais do 4º e do 6º ano, e várias mudanças curriculares. “Os países onde as alterações de política têm mais impacto são aqueles onde os currículos não estão solidificados, que é precisamente o nosso caso. Em Portugal, sempre que há alteração de ciclo político há uma alteração dos currículos. E não há mecanismos de prestação de contas com consequências que produzam resultados válidos e fiáveis. Ou seja, o que Portugal fez foi contrariar tudo o que a literatura nos diz sobre o que são políticas eficazes para melhorar o desempenho dos alunos e os resultados estão à vista”, critica.

DIFERENÇAS ENTRE REGIÕES

Nos últimos anos, o problema da falta de professores começou também a refletir-se na educação. Em 2022, mais de 60% dos alunos portugueses frequentavam escolas cujos diretores reconheciam que a qualidade do ensino está a ser afetada pela falta de docentes. No PISA anterior, de 2018, a percentagem era metade.

Os dados do estudo também permitem perceber as acentuadas assimetrias que ainda existem em Portugal. No caso da Matemática, os alunos da região centro conseguem alcançar uma média superior em quase 30 pontos aos colegas do Algarve. Mas a maior desigualdade provém do estatuto socioeconómico dos pais. Os jovens de famílias favorecidas conseguem, em média, mais 101 pontos do que os de famílias carenciadas. Estatisticamente, 20 a 25 pontos no PISA é o intervalo que corresponde à aprendizagem que deve ser conseguida ao longo de um ano letivo inteiro. Ou seja, o desfasamento entre ricos e pobres equivale a cerca de quatro anos de escolaridade.

A diferença não se afasta muito da média da OCDE, mas o pior é que se tem mantido constante. De acordo com a análise do PISA, as condições socioeconómicas são responsáveis por 18,5% da variação do desempenho a Matemática. Já em relação ao tipo de escola frequentada — pública ou privada —, não se encontram em Portugal diferenças estatisticamente significativas entre os alunos de um e outro sistema.

Além dos testes, os alunos envolvidos no PISA são chamados a responder a questionários que permitem conhecer muitas outras dimensões, como a relação com os docentes ou a satisfação com a vida escolar. Que no caso dos adolescentes portugueses é bastante positiva: estão entre os que se sentem mais seguros na escola, com maior sentido de pertença e menos afetados pelo bullying. Apesar de muito bons, estes indicadores não têm nenhuma influência no desempenho a Matemática, segundo a análise da OCDE.

O inquérito revela ainda que os alunos portugueses estão entre os que contam com maior apoio dos pais e os que fazem uma avaliação mais positiva dos professores, elogiando o seu empenho e disponibilidade para ajudar.

Expresso

1 COMENTÁRIO

  1. Só ainda não percebeu quem não quer perceber.
    Muitos professores têm as explicações. Não é preciso procurar muito.
    Outros professores não querem perceber…

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