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Professores dão aulas “muito condicionados” por exames e notas

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Mais do que testes e exames, a legislação determina que a principal modalidade de avaliação dos alunos é a formativa, ou seja, aquela que permite ir recolhendo elementos sobre o que cada criança e jovem está a aprender e perceber assim o que já foi alcançado e o que há a melhorar. Mas, na prática, e olhando para o que relatam os professores, é a avaliação sumativa — os testes e as notas que deles resultam — aquela a que “gestores escolares, docentes, alunos e pais dão mais importância”. Mesmo quando há um reconhecimento de que esta última “serve apenas para a classificação dos estudantes” e que é a avaliação formativa que “potencia o desenvolvimento das aprendizagens”.

A conclusão consta do estudo “Avaliação das Aprendizagens em Instituições Educativas”, pedido pela Fundação Calouste Gulben­kian ao ex-ministro da Educação Júlio Pedrosa, e que vai ser apresentado na segunda-feira. A investigação faz o ponto de situação das práticas de avaliação, entre os três e os 18 anos, em Portugal e em vários países — de Singapura aos Estados Unidos, da Noruega ao Reino Unido, passando pela Alemanha e Finlândia —, e termina com um conjunto de recomendações para escolas, professores e instituições que formam os profissionais de ensino.

“Quando falamos de avaliação, as pessoas automaticamente associam a esta palavra notas e classificações. E nas escolas encontramos muitos professores a dizer que se sentem muito condicionados pela importância que todos os agentes lhes atribuem. Em particular no ensino secundário, pelo papel decisivo que as notas desempenham no acesso ao ensino superior”, começa por salientar Júlio Pedrosa ao Expresso.

E é esta importância dada aos exames que faz com que, na opinião de vários docentes, estes sejam o fator que “mais influencia as práticas avaliativas e curriculares desenvolvidas nas escolas”. “Os exames condicionam a introdução de práticas e metodologias de ensino inovadoras, porque o que conta no final são as notas que os alunos conseguem nos exames e a imagem que essas classificações passam sobre a escola para o exterior. Enquanto houver exames, haverá muito pouca disponibilidade para práticas de avaliação que se afastem do paradigma sumativo”, descreve um dos professores ouvidos para este estudo.

O que conta no final são as notas dos alunos nos exames e a imagem que essas classificações passam sobre a escola para o exterior, lamentam alguns professores

Mais do que oposição entre dois métodos — sumativo, com os seus momentos formais de avaliação, testes e exames, e formativo, com au­toavaliação e recolha de elementos que permitam definir planos de trabalho para uma melhor progressão de cada criança e jovem —, é uma boa articulação entre ambos que tem de ser conseguida, defende Júlio Pedrosa. A tarefa é complexa, exige tempo para os professores, formação e até uma mudança de mentalidade. Mas é fundamental, atendendo à “diversidade de alunos” na sala de aula.

Definir uma referência média ou uma bitola comum a todos não faz sentido, argumenta. Nem tão-pouco se trata de nivelar por baixo. “É precisamente o contrário. Perante uma turma que tem alunos muito diferentes, podemos trabalhar com eles de forma a que cada um faça o seu caminho e chegue o mais alto que conseguir.” E para isso é preciso que a avaliação seja mais do que a atribuição de uma nota e sirva de facto para “promover melhorias nas aprendizagens”.

O que implica também, reconhece Pedrosa, “tempo, autonomia e liberdade” para os professores conseguirem trabalhar dessa forma. Pegar em cada criança ou jovem e usar a avaliação para perceber onde está cada um e as melhores estratégias de ensino e aprendizagem é muito mais exigente do que dar a matéria e aplicar dois testes por período para saber com que classificação se chega ao fim do ano letivo e se se passa ou se chumba. A tentação é visível inclusivamente na educação pré-escolar, onde se assiste “muitas vezes ao uso de checklists estandardizadas que apoiam classificações, quando a avaliação neste período deve ter uma orientação eminentemente formativa”, assinalam os autores do estudo.

Os investigadores também quiseram perceber o que levava os professores a privilegiarem a avaliação sumativa ou a sentirem-se condicio­nados nesse sentido. A elaboração de rankings produzidos com base nos resultados dos alunos nos exames nacionais foi uma das respostas dadas. Mas também as provas de aferição, que não contam para a nota, embora sejam frequentemente vistas como ‘exames’. E ainda o envelhecimento do corpo docente, “com o cansaço e a resistência à mudança que o mesmo pode potenciar”.

Outra discussão que devia deixar de existir em Portugal é a dicotomia política no que respeita ao tema da avaliação. Já se sabe que se no Ministério da Educação manda um Governo de esquerda, a tendência será retirar importância às provas de avaliação externa; se for de direita, carrega nos exames. Foi o que aconteceu nos últimos anos, com as provas nacionais a mudarem de figurino consoante o resultado eleitoral.

O que o estudo que vai ser apresentado sustenta é que é preciso conhecer experiências que possam servir de exemplo, usar a melhor evidência científica, definir objetivos e um plano para lá chegar, alinhando todos os envolvidos nesse esforço. “A educação não pode ter orientações novas a cada quatro anos”, critica Júlio Pedrosa.

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