Início Educação Professores criam fundos de greve nas escolas

Professores criam fundos de greve nas escolas

76
0

Os professores estão unidos e prometem não baixar os braços na luta por, frisam, uma escola pública de qualidade. E para conseguirem manter a greve que se iniciou no ano passado, por tempo indeterminado, com o mínimo possível de impacto nos salários há já escolas onde os docentes estão a criar fundos de greve.

Com greves marcadas até fevereiro, há uma pergunta que paira no ar. As negociações entre o ME e os sindicatos (de 18 a 20 de janeiro) vão colocar um ponto final nos protestos? Dezenas de docentes contactados pelo DN deixam claro que não se contentarão com “pouco” e que a possível municipalização do ensino foi apenas “a gota de água” num movimento de protesto que teve início em dezembro e não tem fim à vista. Dizem que não se contentarão apenas com o deixar cair as alterações dos concursos e que há outros problemas graves para resolver. Problemas que estão a levar à escassez de professores de norte a sul do país, num ano no qual se vão reformar cerca de 3500.

Em causa estão questões ligadas ao baixo vencimento, a “injustiça na avaliação”, as quotas para subir na carreira, o congelamento da contagem de tempo de serviço, a precariedade da profissão com milhares de professores contratados “anos a fio”, a falta de apoio para os professores deslocados, o excesso de burocracia, entre outras. “São estes problemas que levam à falta de atratividade da profissão e à consequente grave falta de professores nas escolas. Estamos a lutar por uma escola pública de qualidade”, afirma Alberto Veronesi.

Pais e alunos juntam-se aos protestos

“Já sou professor há 16 anos, nunca houve uma greve assim. Tem sido interessante porque começou lenta e tem vindo a aumentar de dia para dia, juntando cada vez mais pais e alunos. Muitos unem-se aos protestos na porta das escolas dos filhos. No agrupamento onde trabalho [Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais], tivemos pais e alunos à porta. Percebem que estamos a lutar pela escola pública de qualidade e não apenas pelas más condições de carreira”, explica.

Para Alberto Veronesi, “é inédita esta união da classe docente”, que começou em dezembro por tempo indeterminado, podendo fazer-se em dias inteiros ou aos primeiros tempos da manhã ou aos últimos da tarde. “Na minha escola, em dezembro, fizemos à 1.ª hora, das 9h00 às 10h00. Agora, estamos em protesto todos os dias, das 7h00 às 9h00, em frente à escola sede e, a partir das 9h00, há professores que regressam e outros que ficam em greve”, explica. Assim, a forma de greve “é escolhida a nível de escola e dentro daquilo que tem mais impacto em cada agrupamento”. “O STOP deu-nos essa liberdade para ir parando aqui e ali. E este desbloqueio para os auxiliares é importante porque torna o combate mais eficiente. Às vezes, os professores não conseguem fechar escolas, ao contrário dos auxiliares, que são tão importantes como os docentes nas escolas e que também precisam de grandes melhorias na carreira”, sublinha.

Alberto Veronesi quer deixar claro que a luta dos professores não se justifica somente pelas mudanças nos concursos e afirma que o seu anúncio foi apenas “a gota de água que fez transbordar o copo”. Um bom acordo entre sindicatos e professores seria, para o docente, medidas que contemplassem “a recuperação do tempo de serviço, a eliminação das quotas, a revisão do modelo de avaliação e do modelo de gestão e a revisão do vencimento”. “Perdemos 20 por cento da massa salarial do poder de compra. Se houver vontade, as mudanças deveriam também passar por resolver o problema da monodocência e o dos professores contratados, lesados da Segurança Social quando têm menos de 16 horas semanais. Estas questões todas têm de ser revistas”, conclui.

“Esta greve ultrapassou os sindicatos”

Segundo Arlindo Ferreira, diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio e autor do blogue ArLindo (um dos mais lidos no setor da Educação), “esta greve ultrapassou os sindicatos, à semelhança do que aconteceu em 2008, culminando com uma manifestação que juntou 150 mil professores em Lisboa. “Os professores, finalmente, acordaram e estão unidos. Tal como em 2018, na greve às avaliações, estamos a assistir a uma grande união que ultrapassa os sindicatos”, constata. E também agora, tal como em 2018, os docentes estão a “constituir fundos de greve nas escolas”. O que diferencia também este protesto é, segundo Arlindo Ferreira, o apoio dos pais e alunos na luta pela escola pública. Na Póvoa de Varzim, na quarta-feira, encarregados de educação e estudantes marcaram presença numa manifestação em frente à Câmara Municipal. “Não havendo melhores condições, não há professores para dar aulas e os pais estão do lado dos professores”, destaca. Sobre o que leva a este apoio, o autor do blogue ArLindo diz que “os pais conhecem as escolas e conhecem os problemas das escolas e dos professores”.

Marcha pela Escola Pública

Amanhã tem lugar em Lisboa uma Marcha pela Escola Pública. Organizada pelo STOP, contará, segundo aquele sindicato, com toda a comunidade escolar: professores, funcionários, pais, alunos e figuras de renome na sociedade portuguesa. Alberto Veronesi acredita que deverão estar presentes, pelo menos, o dobro dos que participaram na manifestação de 17 de dezembro de 2022. “Acredito que seremos 60 a 70 mil pessoas. Esta luta está a unir muita gente dentro e fora da educação. Numa altura em que todos sabem que há uma grave falta de professores, é uma luta por todos e de todos”, afirma.

Arlindo Ferreira também espera uma enchente em Lisboa e alerta que, “havendo uma grande adesão, o ministro pode perder condições para negociar com os professores, a não ser que mude drasticamente as medidas”.

Para o também diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio, o ministro tem de dar garantias, abrir um processo negocial para a contagem do tempo de serviço, ter em conta os problemas que os professores estão a passar e aumentar salários”, ou poderá deixar de ter condições para continuar a assumir a pasta da Educação.

A greve por distritos

Além da greve por tempo indeterminado convocada pelo STOP, a FENPROF agendou paralisações por distritos a partir de segunda-feira:

Janeiro
16 Lisboa
17 Aveiro
18 Beja
19 Braga
20 Bragança
23 Castelo Branco
24 Coimbra
25 Évora
26 Faro
27 Guarda
30 Leiria
31 Portalegre

Fevereiro
1 Santarém
2 Setúbal
3 Viana do Castelo
6 Vila Real
7 Viseu
8 Porto

DN