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Professor por uns meses – André Castro Soares

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Com mais de 40 anos e ainda enredado em estratégias para garantir a minha estabilidade profissional e pessoal, vi-me obrigado a suspender, por uns meses, a minha bolsa de financiamento da FCT no âmbito do meu doutoramento em antropologia e decidi concorrer a um horário de escola. Optei por um horário de 22 horas de forma a não perder rendimentos, numa escola no Cacém, a básica e secundária Gama Barros. Moldado e toldado pela visão antropológica do mundo, entender as práticas das pessoas e as instituições, conheci uma realidade que merece ser partilhada.

A escola pública está sob ataque, está dividida, desmotivada e sem energia. Os anos de neoliberalismo dos sucessivos governos colocaram a educação num atordoamento tal que só as analogias da guerra e dos bombardeamentos de uma cidade descrevem, infelizmente, o que se está a passar. Os alunos e alunas estão sem professores durante meses e os professores e professoras que concorrem desistem, pois não conseguem lidar com tamanhas requisições. Uma energia que é sugada, não apenas pela aula e sala onde a ligação entre aprendizes e pedagogos acontece, mas pela teia burocrática a que estão votados.

Para além disso, os encarregados de educação, 28 pessoas responsáveis pelo acompanhamento dos alunos e alunas da direcção de turma, também eles 28 seres especiais e únicos, com desejos, angústias, questões, emoções. O pós-pandemia colocou os alunos mais novos em momentos de ansiedade e questionamento que a escola pública não tem possibilidade de acomodar. Precisamos de dar matéria, precisamos de entender as dificuldades de cada um e de cada uma. Em menos de uma semana, vi-me na vida de mais de uma centena de crianças, o futuro do nosso país. Em paralelo, lidar com uma máquina tenebrosa de leis e decretos, de relatórios, credenciais e passwords, emails, reuniões e mais reuniões, a avaliação e os PIMUS (Planos de Implementação de Medidas Universais), mais as adaptações curriculares aos alunos com necessidades específicas… Para tudo a escola pública é convocada sem que o Ministério da Educação entenda que os valores salariais e as carreiras não compensam de todo o esforço e performance a que estão votados os professores e professoras neste país.

A sala de professores da escola onde fui professor por uns meses tem uma média de idades acima dos 50 anos. As jovens e os jovens professores são tão poucos que acabamos por ter uma ligação imediata. Para partilhar a estupefacção, mas também para escutarmos os relatos dos professores mais velhos a braços com uma impotência de uma máquina construída para colocar docentes e discentes como meras roldanas numa máquina de números capaz de dar os resultados que mantenham Bruxelas de que tudo vai bem na educação em Portugal.

Lamento o desabafo, mas não vai tudo bem. Se nada for feito, se não voltarem a escutar aqueles e aquelas que estão há anos a construir gerações e gerações de cidadãos e cidadãs sérias, empresários inovadores, cientistas sagazes, matemáticos e operários e trabalhadores competitivos, o nosso país não tem futuro. E o futuro da nossa economia e sociedade joga-se na escola pública, da qual sou filho, com muito orgulho.

Através da escola pública e dos seus desígnios de construção de uma sociedade decente, cheguei ao doutoramento financiado pela FCT, no Iscte-IUL e na Nova FCSH, ultrapassando a formação da minha família em três gerações. A escola pública que me levou a ir para universidade, a ter empregos mais bem pagos do que os meus pais alguma vez sonharam, a poder pensar criticamente e politicamente sobre a sociedade que quero, o país que desejo, onde haja igualdade e onde as pessoas possam concretizar livremente os seus desejos e vontades. Foi na escola pública que conheci a diversidade de pensamento e a força dos meus concidadãos. As discussões, os debates e as conversas com os meus professores e professoras (com destaque para a Filosofia) fizeram de mim um cidadão melhor, mais completo.

Tudo isto para ganhar pouco mais do que mil euros enquanto professor contratado? Numa Grande Lisboa, em que as rendas estão acima, em média, dos 800 euros?

Senhor ministro da Educação, senhor primeiro-ministro, senhor Presidente da República, se querem um país decente, tirem um tempo para a escuta daqueles e daquelas que fazem a cidadania plena num país cuja única riqueza são as pessoas. Volto a repetir: a única riqueza que Portugal tem são as pessoas.

Passados estes meses, os meus alunos e alunas abraçaram-me e agradeceram ter ficado ao lado deles a construir aprendizagens, a construir o país do futuro. Percebi isso no último dia de aulas e naquele dia em que duas alunas vieram ter comigo no pátio da escola, referindo que eu tinha faltado às suas aulas (por obrigações legais). Eu referi que tive de faltar por questões pessoais. Ao que me disseram: “Ai professor, ficamos preocupados, porque a última vez que os professores faltaram nós ficamos sem aulas!”. Eu respondi: “Não se preocupem que eu não vos vou deixar!”. Um sorriso aberto no rosto e a felicidade de poderem ter estabilidade nas suas aprendizagens. Mágicos instantes da vida de um professor por uns meses. Obrigado aos meus colegas da escola básica e secundária Gama Barros por me terem ajudado a ser professor por uns meses e quem sabe para o resto da vida.

Público

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