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Por um novo modelo de gestão escolar – Alberto Veronesi

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Fora da agenda sindical e, consequentemente, fora da mesa de negociações entre sindicatos e governo, a gestão das escolas públicas é uma das áreas que maior influência tem no clima organizacional e consequentemente no bem-estar da comunidade educativa.

A gestão das escolas públicas é uma área fundamental para o bem-estar da comunidade educativa. O atual modelo de gestão, consignado no Decreto-Lei nº 137/2012, prevê a participação da comunidade educativa na tomada de decisões, mas na prática, as decisões são frequentemente tomadas por um pequeno grupo de pessoas, em detrimento dos interesses e necessidades da maioria.

A autonomia que o atual modelo de gestão trouxe às escolas foi a de permitir que estas desenvolvam estratégias ou adiram a projetos mais adequados às suas necessidades e características da sua comunidade educativa. No entanto, essa autonomia pode ser limitada pela falta de recursos financeiros e humanos, bem como pelas pressões e exigências externas, como as políticas educativas do governo e as expectativas dos pais e da sociedade em geral.

Ao analisar os resultados da implementação do atual modelo de gestão, é possível concluir que, embora haja vantagens em termos de participação da comunidade educativa, ainda existem desafios e limitações que precisam ser superados para que a escola possa atender às necessidades e expectativas de todos os membros da comunidade educativa e alcançar os seus objetivos de forma efetiva e sustentável.

Considerando esses desafios e limitações, defendo a ideia de um modelo de gestão democrática para as escolas públicas em Portugal, no qual os diretores sejam eleitos diretamente pelos seus pares. A implementação de um sistema eleitoral nas escolas é crucial para fortalecer a comunidade escolar e promover uma gestão mais transparente.

Seguindo o pensamento de vários autores que estudam a gestão escolar, estou em condições de afirmar que a gestão democrática é o maior alicerce para a qualidade educativa. A eleição direta dos diretores garantiria uma liderança legitimada pelo voto da comunidade escolar, fortalecendo a responsabilidade e o comprometimento de todos, melhorando o clima organizacional e eliminando caciques.

Este movimento em direção a uma gestão escolar mais democrática não apenas atende aos requisitos legais, mas também responde às necessidades de uma sociedade em constante evolução, onde a voz de todos os envolvidos na educação deve ser ouvida e valorizada.

A ideia de uma gestão democrática nas escolas públicas é quase um imperativo e tem ganho reconhecimento em todo o mundo. Michael Fullan argumenta que a liderança eleita pelos pares leva a melhores resultados educativos, já que ela envolve todos os membros que votam, criando um ambiente de confiança e reconhecimento entre todos.

Também a pesquisadora sueca Ingrid Carlgren apoia a ideia de uma gestão democrática, salientando a importância de envolver os professores na tomada de decisões. A gestão democrática, de acordo com Carlgren, contribui para a construção de uma cultura de confiança e responsabilidade compartilhada nas escolas.

No entanto, sabemos que, por cá, o argumento mais comummente usado em desfavor da eleição pelos pares é o medo do corporativismo. Na realidade, os opositores à democracia nas escolas dizem que esse tipo de eleição pode fazer com que os pares elejam um diretor que priorize os seus próprios interesses em detrimento dos alunos. Discordo deste argumento pelo facto de considerar que a democracia vale sempre a pena e não apenas quando nos dá jeito. Para além disso, não está comprovado em lado nenhum que a eleição direta tem implicação no aumento de corporativismo. Pelo que esta me parece muito mais uma afirmação imobilista de quem não pisa os corredores da escola e não compreende os efeitos nocivos que este modelo tem trazido ao clima organizacional das nossas escolas. Também não está comprovado que o corporativismo seja nocivo, pois não creio que haja um único professor que queira eleger alguém a quem não lhe reconheça competência para ocupar o cargo e um compromisso com a qualidade da educação.

Além de uma liderança mais alinhada com as necessidades da escola, a gestão democrática oferece uma série de benefícios:

  • Os diretores eleitos são diretamente responsáveis perante os seus pares, criando um sistema de prestação de contas sólido.
  • A gestão democrática fortalece o sentido de comunidade entre os membros da escola, melhorando o ambiente de aprendizagem.
  • Professores e funcionários que se sentem valorizados e ouvidos tendem a estar mais satisfeitos e comprometidos com o seu trabalho.

Considerado por muitos como o maior potenciador de um mau clima organizacional, urge alterar o atual modelo de gestão das escolas. É de extrema importância caminhar no sentido da implementação de um modelo de gestão democrática nas escolas públicas em Portugal. Este sistema deve ser visto como uma oportunidade de envolver os profissionais da educação na liderança e gestão das escolas. À medida que a procura de melhores práticas de gestão educativa continua, vale a pena considerar o papel da democracia no fortalecimento do sistema educativo português.

CNN