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Por que têm razão os professores?

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Subtilmente, algumas vozes erguem-se contra as greves (e grevezinhas) dos professores. São os mesmos que, fora outro o Governo, diriam presente e indignar-se-iam juntamente com os docentes contra um ministro insensível, talvez neoliberal e reacionário. O problema é que os professores têm razão.

Algumas reivindicações podem nem fazer sentido, ser abstrusas. Mas, face à situação a que se chegou, qualquer pessoa de bom senso percebe que os docentes (e falamos do ensino básico e secundário) têm promessas, direitos e situações que nunca foram resolvidos; há sete anos que o Governo chegou, mas há muitos mais anos que os professores são desconsiderados, proletarizados, escamoteados e atirados para um canto qualquer das prioridades. Nunca chega o dia em que podem cantar uma pequena vitória que seja.

As entradas para o quadro de uma escola, ou seja, o ser efetivo numa escola, apesar de parecer algo banal, é uma proeza. Cada ano, um professor pode ficar a 200 ou mais quilómetros da escola em que foi colocado. Não tem casa (nem é um nómada digital); é uma espécie de caixeiro viajante, de terra em terra, de casa em casa, ou de quarto alugado em quarto alugado, com a missão de ensinar os nossos filhos e netos, nos intervalos da infinidade de papelada burocrática que tem de preencher.

O que mais dói, penso eu, a qualquer professor (e tenho muitos ex-colegas que seguiram essa carreira com aquele amor que é próprio dos pedagogos, dos que gostam mesmo de ensinar), o que mais lhe dói, dizia, é o facto de os sucessivos governos não reconhecerem, sequer, que os tratam de forma vil e desonesta. Aproveitam a sua vocação, e a necessidade de as crianças terem aulas, para logo os criticarem por qualquer greve. E, desta vez, a questão não está no aproveitamento político que Mário Nogueira sempre fez e nunca escondeu; e ainda que alguém aproveite politicamente as iniciativas de sindicatos como o STOP ou o SIP, antes de qualquer interrogação dessas há que voltar ao essencial; é preciso dizer que os professores têm razão. Como têm os médicos e os enfermeiros e, provavelmente outras profissões da esfera pública, pagos miseravelmente.

Perante a agitação, mais do que justificada, nas escolas, já vi de tudo. Nas redes sociais circulou uma frase em que um professor dizia: “Faço greve e depois dou explicações a 50 euros a hora.” Esta ideia é decalcada do ataque aos médicos hospitalares que também têm clínica privada. É idiota. Um professor deve conseguir viver uma vida digna, acima da média, sem ter de dar explicações. E se as quiser dar, fora das horas de serviço, alguém tem a ver com isso?

Fala-se muito na geração mais bem preparada de sempre. Alguém pensou naqueles que a prepararam? E mesmo que não seja a mais bem preparada, alguém se interroga sobre as condições que existem nas escolas? Alguém se preocupa por as escolas privadas, em rankings independentes, terem, no geral, resultados muito melhores do que as públicas? Os professores, neste particular têm culpa, porque em vez de aproveitarem esses mesmos ‘rankings’ para exigir mais condições e menos burocracia, deixaram-se representar por líderes sindicais que, no geral, abominam qualquer ordenação, seja de escolas, seja de mérito.

Claro que é difícil discutir o mérito de um professor e compará-lo, se ele dá aulas em Ponte de Frielas, ou Ribeira de Pena, com um que está instalado no Liceu Camões, ou no Pedro Nunes, em Lisboa. Obviamente, as condições são diferentes. Mas o que acontece é que nenhum deles tem condições mínimas, um salário decente e uma palavra de incentivo dos dirigentes da Função Pública.

Por isso, ainda que os dirigentes sindicais possam ter posições erradas, os professores têm, no essencial, razão em estar descontentes. Ainda que as greves fossem parecidas com os coletes amarelos de França, como agora também é muito falsamente sugerido, teriam razão. O direito à indignação é algo que os professores devem ter. Há mais de 20 anos que lhes andam a retirar a dignidade.

O Governo e os seus apoiantes deviam reconhecê-lo. Em vez de desculpas e suspeições, que acentuam a sua fraqueza e a inépcia do ministro, bem poderiam tentar arranjar soluções; algumas das quais, como a do excesso de burocracia, pouco custa e seria uma bênção para os docentes. Acresce que o mesmo Governo que tarda em arranjar soluções para os professores e escolas, ou para os médicos e serviços de saúde, orgulha-se dos seus feitos económicos, e de ter os cofres cheios. Ainda bem, sobretudo se os investimentos feitos forem em sectores decisivos. E a Educação, como a Saúde, são fundamentais.

Expresso