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Parece que a professora Isa é a única que não gosta de ler…

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Vi esta manhã que a professora Isa não gosta de ler. Quem? A professora Isa, a que inaugurou a nova Telescola, nervosa e simpática. Isa, que foi ao programa de Ricardo Araújo Pereira, caiu no erro de dizer ao Expresso: “Não sou leitora, nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los.” Como é que uma professora que ensina as primeiras letras não gosta de ler? Iram-se os comentários nas redes sociais. Da mesma maneira que uma professora que ensina os primeiros números não gosta de fracções, responderia eu, ao fim de duas décadas a acompanhar a área da Educação e, volta não volta, a ler estudos ou a cruzar-me com especialistas que mostram as fragilidades do sistema.

Os deuses do Olimpo, os heróis mitológicos, os animais fantásticos… Nada lhes dizia alguma coisa. Nada lhes fazia brilhar os olhos num reconhecimento longínquo de algo que tivessem lido quando estavam a crescer. “Não leram o Harry Potter?”, perguntei, para não ir mais longe. Duas ou três levantaram os braços. No final, souberam-me falar das dificuldades da classe, do Ministério da Educação não dar condições aos professores, e do mau comportamento das crianças — elas, que ainda estavam em formação, já tinham a cassete docente gravada e debitavam-na exactamente com os mesmos argumentos que os professores com 30 anos de carreira e razões reais de queixa.

A professora Isa não gosta de ler, mas gosta de matemática e de ciências, afinal, os professores do 1.º ciclo são generalistas, não são como os de Português, aqueles que estudaram numa Faculdade de Letras e especializaram-se em línguas e literaturas, li também nas redes sociais. Esses sim, gostam de ler, dizem os próprios de si mesmos. Aqui a teoria da nota do último colocado varia, pois há cursos que os aceitam com 10, mas também há o 16 na Universidade do Porto.

Nas redes leio ainda o argumento “no meu tempo é que era bom”. Confesso que cá em casa, tivemos azar: foram poucos os professores de Português que passaram pelas turmas dos meus filhos que expressaram o seu o amor aos livros e um conhecimento profundo da literatura. Lembro-me e recorro muitas vezes ao exemplo de uma dessas docentes. A professora trabalhava em aula o Eça, o Saramago e até alguns escritores mais jovens, mas o seu autor preferido era o José Rodrigues dos Santos. Sempre imaginei Os Maias ou o Ano da Morte de Ricardo Reis na sua estante, sublinhados porque fazem parte do programa, e as obras da Geração de 70 ou os Cadernos de Lanzarote escondidos por detrás de A Filha do Capitão ou A Amante do Governador.

Não é fácil encontrar culpados. Temos faculdades vetustas e que se julgam imunes aos preconceitos que existem em relação às ciências sociais e humanas, não os combatendo, convencidas que estão num Olimpo inatingível — há que lembrá-las que os deuses morreram. Temos escolas básicas e secundárias que trucidam professores, afogando-os em trabalho burocrático, em vez de lhes darem espaço para criarem, para fazerem alguma coisa em benefício dos seus alunos. Temos pais que acham graça à função decorativa do livro, que vivem em casas onde o ecrã da televisão é panorâmico, tal como o do smartphone. Temos filhos que “não gostam de ler”, porque ninguém lhes pôs um livro na mão nem no coração. Temos um Plano Nacional de Leitura activo, muito activo, com imensos projectos, mas cujos resultados pouco se vêem porque, afinal, os livros são bons para ter, mas não para ler. Temos uma sociedade que reflecte isso mesmo: bom é ter, não é ser.

Público