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PÁGINA 3 – OS SINDICATOS – Luís Costa

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PÁGINA 3 – OS SINDICATOS

 

Sem os sindicatos, os professores nada podem conseguir no tocante às suas principais reivindicações. Porém, com eles, parece que também não. E são múltiplas as razões que desembocam neste beco sem (aparente) saída. Não sou doutorado nesta matéria, mas tenho algum conhecimento empírico, que quero deixar nesta terceira página do meu “Testamento vão”.

 

Diz-se por aí, há muito, que os sindicatos da educação e do ensino estão demasiado partidarizados, demasiado controlados pelos aparelhos partidários, demasiado sujeitos aos interesses conjunturais dos partidos que os alicerçam. Diz-se até que, não raras vezes, esses interesses conjunturais falam mais alto do que as eternas reivindicações dos profissionais da educação. Não posso afirmá-lo de forma clara e taxativa, mas o meu conhecimento empírico leva-me a admitir que sim. Quando os planetas se alinham, é uma “festa” reivindicativa, quando desalinham… são impasses atrás de impasses.

 

Dizem — não tenho a certeza, porque não tenho documentos comprovativos — que a FENPROF está afeta ao Partido Comunista e que Mário Nogueira também é militante desse partido. Creio que será verdade. Dizem também que a FNE anda ali entre PS e PSD, ou seja, no dito arco da governação, área política à qual têm pertencido os seus líderes. Também creio que será verdade. Há mesmo quem diga que é por isso que da FNE nem bom vento nem bom casamento. Não posso confirmar o que não sei. Dizem também que o S.TO.P. terá ligações ao MAS, partido do qual André Pestana, pelos vistos, se pretende desvincular. E é um escândalo nacional. Dizem que até o próprio sindicato lhe terá feito um ultimato do género “Se preferes os braços de outro, então tens de sair de casa!”. Parece que se quer mudar para o Mudar. E é outro escândalo. As pessoas sensíveis sentem-se usadas, instrumentalizadas, ultrajadas e traídas. A mor disso, anda meio país atrás de André Pestana, com vontade de o zurzir.

 

Antes do aparecimento do S.TO.P., o lago educacional estava a serenar em águas cálidas e quietas. Em 2018, este sindicato — cujo líder terá saído intempestivamente, segundo dizem, das entranhas da FENPROF — veio agitar as águas. E logo os sindicatos do regime passaram, pelos vistos, a ter um inimigo. Depois, seguiu-se um longo armistício, sob os auspícios da Geringonça e da pandemia COVID. Por fim, já nos finais de 2022, a erupção. O S.TO.P. deu mais uma valente sapatada nas águas quedas e voltou a ser o principal alvo a abater, porque mostrou que, afinal, os professores ainda não tinham morrido e que nem sequer estavam conformados com a sua triste sorte, como já rezavam as novas escrituras. Passou a ser — segundo a minha modesta perceção — o principal alvo do Governo e das canónicas estruturas sindicais (interesses comuns, nesta matéria). A divisão da classe e o enfraquecimento da luta eram apenas uma questão de tempo. E o ministro sabia isso muito bem. E sabia também que, para levar a suas ideias a bom porto, lhe bastaria apenas esperar, empatar as negociações. Mas o S.TO.P. também não está isento de culpas, neste processo.

 

Se, ressabiados, talvez, pelo modo como André Pestana, batendo com uma porta, abriu logo outra, fazendo “concorrência”, os restantes sindicatos hostilizaram o S.TO.P. — desde a primeira hora, nunca sequer referindo o nome do seu líder nem o nome do sindicato, como se do Diabo e do Inferno se tratasse — a verdade é que o S.TO.P. também muito pouco fez, de facto, para contrariar esta hostilidade e tentar a exigida convergência. Sim, afeiçoou algumas das suas greves às greves alheias, de modo a não coincidirem. Porém, o seu líder também se fartou de lançar reptos públicos às outras organizações sindicais, sabendo, “à priori”, que, dessa forma, as entalaria e condenaria ao silêncio. As verdadeiras pontes, nestes domínios, não são construídas assim, na praça pública, entre a espada e a parede, com factos consumados; devem ser gizadas nos bastidores, com muita diplomacia. Na minha perspetiva, o S.TO.P. sabia disso, mas queria conquistar desiludidos para as suas fileiras de simpatia.

 

Porém, tudo isto são detalhes, reveladores, é verdade, mas que não passam de detalhes. A convergência — a desejada, a obrigatória, a imprescindível convergência — entre os sindicatos da dita Plataforma com o S.TO.P., enquanto André Pestana for seu líder, se não é impossível, é, pelo menos, muitíssimo improvável. Julgo que André Pestana, para o PCP, será assim uma espécie de excomungado. É a minha perceção leiga a dizê-lo. E até nem sei se essa proscrição não se manterá numa era pós-Pestana (e o que será o S.TO.P. sem ele?). Se assim for… o lago volta, inevitavelmente, à sua dormência. Desta vez, mais duradoura, porque, entretanto, muitos dos explorados passarão à reforma.

 

Por tudo isto, reafirmo o que deixei na introdução: nada fazemos sem os sindicatos, mas com eles parece que também não. É, por isso, de extremo pessimismo o meu olhar para os amanhãs. Divididos até à mais ínfima parcela, acobardados até ao tutano, somos presas fáceis. Cada um lamentando o infortúnio do outro, mas dando graças por a desgraça não se ter abatido sobre si. Os professores, em geral, e os sindicalistas, em particular, deveriam reler a “Parábola dos sete vimes”, de Trindade Coelho, porque não a terão compreendido efetivamente. Se a compreenderam e não são capazes de pôr em prática a sua lição de moral, então… Concluam os leitores!