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Os professores só querem mais dinheiro? – Alberto Veronesi

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Ao longo do último ano esta foi uma das perguntas mais vezes feita por jornalistas, comentadores, políticos e sociedade civil.

As respostas, essas, nem sempre foram as corretas. Aqueles que queriam diminuir a classe e denegrir as manifestações e greves diziam que apenas se tratava de reivindicações relacionadas com a recuperação do tempo de serviço e questões de condições de carreira. Os outros, sobretudo professores, tentavam por todos os meios, infinitamente menos eficazes, explicar as verdadeiras razões pelas quais os professores estão em luta, desagradados, com vontade de abandonar a profissão.

Talvez fosse importante que os meios de comunicação social, sobretudo a audiovisual, promovessem um debate sério, alargado e plural sobre as causas, consequências e sobretudo soluções para o problema da educação em Portugal.

Se é verdade, efetivamente, que a questão da recuperação de tempo de serviço e algumas outras relacionadas com a carreira são reivindicações, também é verdade que não são nem as únicas nem as mais importantes.

Os professores lutam por uma escola pública de qualidade, uma escola pública que consiga cumprir o seu propósito mais importante: transmitir conhecimento, ou seja, ensinar.

Como deveria ser do conhecimento de todos aqueles que se consideram aptos a comentar a educação, o Currículo Nacional foi totalmente esfrangalhado pelos ministros da educação dos governos de António Costa. Os conhecimentos estruturantes das humanidades, como são o Português, as línguas estrangeiras, a literatura, a filosofia, a história e geografia assim com a Matemática, as Ciências Naturais, a Música, as Artes e a Educação Física e Desporto, devem retomar o seu papel central no currículo, que se quer amplo. O atual Perfil do Aluno à Saída Da Escolaridade Obrigatória (PASEO), em conjunto com as Aprendizagens Essenciais, são o novo paradigma que, com a esfarrapada desculpa de que ninguém pode ficar para trás ou aquela que impõe a transição dos alunos quer saibam muito ou saibam pouco, são o exemplo máximo daquilo que é a escola dos mínimos.

Os professores lutam contra o deslumbramento ideológico com o digital. Vários estudos apontam para as enormes desvantagens que suplantam por completo as vantagens. A maior parte dos estudos sugerem que o uso excessivo de dispositivos digitais em idades precoces pode interferir no desenvolvimento cerebral normal, especialmente nas áreas relacionadas à atenção, memória e controlo impulsivo, assim como nas habilidades de comunicação das crianças. A concentração da atenção também pode ser prejudicada, pois os estímulos digitais intensos e imediatos acabam por prejudicar a capacidade de as crianças se envolverem em atividades que exijam uma maior atenção sustentada. Até pode interferir na qualidade e na quantidade de sono das crianças. E como é do conhecimento comum, a privação do sono está associada a uma série de problemas de saúde física e mental, incluindo dificuldades de aprendizagem e falta de concentração. Se isto não chega, então há ainda aquele que, quanto a mim, é o mais preocupante. Os professores lutam para terem uma palavra a dizer sobre este assunto. Seremos capazes de resistir a este deslumbramento? Os pais estarão connosco? Sabem os pais e encarregados de educação que investigadores da Noruega, que analisaram 730 000 testes de Q.I. aplicados em jovens convocados para o serviço militar obrigatório nos últimos quarenta anos, concluíram que os aumentos anuais do Q.I. dos noruegueses passaram de 2 pontos nos anos 80, para 1,3 ponto nos anos 90 e tiveram um recuo de 0,2 ponto neste século?

É também por esse motivo que os professores lutam.

Resolver o problema da indisciplina nas Escolas. Portugal está entre os países onde os professores mais tempo gastam para manter a disciplina em sala de aula. É sabido que o papel social dos professores foi sendo desvalorizado, propositadamente, e que resultado disso é o aumento exponencial da indisciplina, não só na sala de aula como na comunidade escolar. Hoje, ao contrário do que acontecia no passado, o professor não tem um papel de autoridade na escola. A consequência deste flagelo nacional é que, como aliás apontam vários estudos, as condições para lecionar em salas de aula com índices de disciplina baixos são prejudiciais e corrompem as aprendizagens. Mitigar a indisciplina em contexto escolar, restituindo aos professores a autoridade e o respeito é também outra luta dos professores.

Rever a exequibilidade do Decreto-Lei nº 54/2018. Este decreto prevê a inclusão de alunos com necessidades educativas específicas nas turmas “regulares”. Propósito inatacável. Ninguém, com o mínimo de discernimento, pode ser contra a inclusão. No entanto, este Decreto tem tido, na maior parte dos casos, um efeito perverso por falta de meios humanos para fazer cumprir aquilo que é escrito nos “papéis”. Ao invés de incluir estes alunos, excluímos os restantes, que se veem muitas vezes abandonados pelos professores, que têm de se dividir entre todos. Para que tenha noção, caro leitor, temos casos de alunos que carecem de um acompanhamento direto e permanente de um adulto, mas como não há recursos humanos esse aluno é “despejado” na sala onde passa o dia todo sem o devido cuidado e muitas vezes em descompensação. É também por mais professores de apoio, mais terapeutas, mais técnicos, mais psicólogos que os professores lutam.

A violência entre alunos e o bullying, no meio escolar tem aumentado nos últimos anos. Esse aumento está diretamente relacionado com a quantidade de assistentes operacionais. Estes, na maior parte das escolas, estão abaixo do número limite. Nos recreios, centenas de alunos são vigiados por um parco número a auxiliares. Obviamente aumenta o bullying e as lutas com necessidade de intervenção, sem haver quem acuda. É outra das razões pela qual os professores lutam.

Numa escola que ensina a democracia, que experimenta a cidadania que se esbarra num modelo de gestão que não tem nada de democrático. Os professores lutam para que se devolva a democracia às escolas. É urgente mudar este modelo de gestão e permitir a livre escolha das escolas entre o regresso ao modelo anterior (de Conselho Diretivo/Executivo) e o atual, que, ainda assim, teria de ser democratizado com um diretor eleito pela comunidade escolar, apresentação de toda a equipa diretiva, previamente à eleição, e mandatos limitados. Com esta mudança de paradigma na gestão escolar, melhoraria o clima e o bem-estar organizacional com repercussões diretas no bem-estar docente e por sua vez com efeitos diretos no bem-estar discente.

Por último, mas não de somenos importância, os professores lutam para que os pais sejam responsabilizados pela educação e o comportamento dos seus filhos, que sejam cooperadores, e não obstáculos, com os professores na resolução de problemas relativos ao percurso académico e de desenvolvimento pessoal e social.

Como vê, a luta dos professores está muito para além das, mais que justas, lutas por melhores condições de carreira. Sejamos sérios, os professores não são inimigos da escola. Não se deixe enganar, na dúvida esclareça-se com um professor.

CNN