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Os professores são uma classe oprimida (?) E porque não mudam o rumo à luta? – Luís Braga

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Alguns acham que invocar Gandhi, Rosa Parks ou Martin Luther King nas questões da luta dos professores portugueses é abuso.
Como muitos sabem, sou professor de História e não faço estes paralelos com leviandade. Conheço bem as realidades históricas de que falo e a que apelo na comparação. A FENPROF pode agora ter-se convertido aos métodos de Peter Benenson, mas a ferramenta da contestação cívica, criada nas lutas de direitos cívicos e políticos dos séculos XIX e XX é mais vasta e tem de ser usada com sentido do momento.
E este é um momento de oportunidade de valorização pública dos professores, único, e que não pode, nem deve ser, desaproveitado.
E os métodos da desobediência civil e as suas figuras não estão num Olimpo inacessível, em que só as homenageamos, como memórias passadas e nunca nos inspiramos nelas para agir. A melhor maneira de os comemorar é lembrar como a sua lógica de acção pode ser útil no presente.
E os professores portugueses preenchem o perfil de grupo oprimido, para terem legitimidade de usar essas inspirações de ação. Ora vejamos:
1. Os governos oprimem os professores como grupo profissional desde há 15 anos, quando começou a desmontagem do ECD. Preciso listar as medidas de opressão em questões de salário, condições de trabalho, horários, aposentação, concursos, tratamento dos contratados, avaliação, imagem pública e sua degradação junto da opinião pública?
A opressão não é feita com chicote ou violência física (Orwell explica), mas o aperto tem sido tal que um grupo profissional, com níveis muito elevados de formação e tradição de luta, entrou em astenia cívica e resigna-se a pensar que nada há a fazer. Só acumulamos derrotas em 15 anos e precisamos de uma vitória para se perceber que não nos resignamos.
2.Como os escravos do passado, achamos que o amo nos há-de reconhecer o esforço e dar prémios pela boa colaboração. Nos EUA e Brasil da escravatura havia escravos que achavam que ser doméstico era melhor que lutar pela liberdade na plantação. E alguns da plantação, entre a liberdade que custava luta e a casa grande, morriam escravos domésticos sem ver a liberdade. A escala de opressão é diferente, mas os processos são iguais, até na estratificação de estatutos de opressão. Aquilo a que, no passado, chamavam salamização.
3.E, quando os professores lutam por meios tradicionais, os governos reagem com indiferença e agravam a opressão profissional, aproveitando a manipulação da opinião pública, que dominam com propaganda.
As greves (tirando a das avaliações, que quem capturou a representação dos professores tratou de enfraquecer) são ignoradas, as petições não têm atenção e, quando milhares assinaram uma proposta de lei de cidadãos, que tinha apoio parlamentar, o governo reagiu, ameaçando a sua própria demissão.
O que devia fazer pensar sobre a força real dos professores, quando saem do quadro mental da opressão e do conformismo com ela. Perante um movimento forte, que recolheu e motivou apoios parlamentares, o único caminho do governo foi ameaçar demitir-se.
4.Por isso, há que pensar em coisas que marquem simbolismo e mostrem força. E sem pensar em pseudo-moralidades bacocas e no “parecer mal”. Abordar as pequenas questões como tática, com as grandes questões como horizonte estratégico. Bem explicado, a opinião pública entenderá.
Gandhi começou a fazer sal, gesto simples de desobediência a uma lei iníqua, com horizonte na independência na Índia. E o argumento foi: podem prender centenas, mas não centenas de milhar. Rosa Parks e a sua cidade deixaram de andar de autocarro, a pensar em todas as discriminações e não só nos autocarros. Nos sit in, os afroamericanos limitavam-se a sentar nos balcões dos restaurantes onde estavam proibidos, a mostrar, no detalhe, a opressão geral. E não falemos das sufragistas que, numa profissão maioritariamente constituída por mulheres deviam ser inspiração inesquecível.
Nós só temos de desligar em nossa casa, uns tempos, a nossa net e o nosso computador.
Nada tem de ilegal e ninguém terá poder legal de reagir ou marcar falta ou o que seja.
Não se passa tudo na nossa casa e com coisas nossas?
Eu já desliguei e tive de ir para a escola. Para os que ficaram em casa, se desligarem muitos, o governo fica paralisado.
Acham que vão prender gente? Ou raptar a casa?
Ao governo restará a propaganda, mas o povo não é estúpido, perante o que se vê à frente dos olhos.
E o simbolismo de mostrar “quem manda e é dono do ensino à distância” terá impacto e obrigará o governo de hoje e os do futuro a ver a força e a falta que faz a boa vontade dos professores.
Uns dias a fazer isso e o governo percebe.
E a opinião pública perceberá, se for bem explicado, e não houver agourentos que queiram ser como os escravos da casa grande: servir docilmente o amo, na esperança de ter opressão suave.
Forte, este pensamento?
Não, realista e focado no tempo histórico presente.
E a nossa luta é fácil e não exige coragem especial, como a de enfrentar tortura ou prisão, num regime militar, como os nossos colegas de Myanmar.

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