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Os professores precisam do nosso apoio – Pedro Patacho

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Os professores portugueses, fartos do desprezo a que têm sido votados, despertaram nas últimas semanas de 2022 e responderam maciçamente ao apelo de um pequeno sindicado (S.TO.P., nascido em 2018, com apenas 1300 associados), que defende um novo paradigma sindical e afirma não ter qualquer agenda secreta que não seja estar ao serviço de todos os profissionais do ensino. Os seus seguidores saíram para a frente dos portões das escolas, para a frente das câmaras municipais, para as ruas do país. No passado dia 17 de dezembro concentraram-se mais de 25 mil em Lisboa.

Este sábado voltaram a fazê-lo. Um mar de professores encheu a Avenida da Liberdade e invadiu o Terreiro do Paço. Terão sido entre 30 a 40 mil, segundo a imprensa. E não vão parar. Já na segunda-feira os protestos continuam. Querem mobilizar a sociedade em torno da necessidade de valorizar os profissionais da educação e repensar o ensino enquanto dimensão crítica do processo de desenvolvimento de Portugal. Precisam do nosso apoio.

 

O movimento foi inicialmente espoletado pela recusa da intervenção de estruturas locais no recrutamento e colocação de professores. Mas é agora muito mais vasto do que isso. O ministro da Educação apressou-se a encetar um processo negocial. Ventilou a possibilidade de recuperar o tempo de serviço congelado durante a troika, já que os professores constituem a única classe profissional na qual isso não aconteceu. António Costa desdobrou-se em explicações. Prometeu acabar com a precariedade, reduzir os quadros de zona pedagógica, e negou qualquer intenção de proceder à contratação local de professores. Mas quer um quer outro parecem não querer perceber o que verdadeiramente está a acontecer. Claro que os professores querem recuperar o seu tempo de serviço, valorizar a sua carreira e condições dignas para o exercício da profissão. Só que também querem outras políticas para a educação.

Esta é uma oportunidade para a sociedade portuguesa se unir aos professores e reivindicar a construção de um compromisso político para a educação em Portugal. Porque a escola, o ensino e os profissionais de educação são decisivos para o futuro do país.

 

Nesta nova economia, que assenta no conhecimento e no talento, a formação das novas gerações é o mais crítico fator de desenvolvimento económico. Não há nenhum cidadão que não passe pela escola. Tudo, para todos, começa na escola. O investimento na educação e formação, nas pessoas, é a única maneira de Portugal abandonar a sua condição semiperiférica e aproximar-se dos países mais ricos da União Europeia. Não há outro caminho. Por isso é necessário olhar seriamente para o setor da educação e abrir este debate a todas as partes interessadas. É um debate urgente que interessa a toda a sociedade civil e a todas as sensibilidades políticas, da esquerda à direita.

Este pode ser um momento decisivo para a educação em Portugal. Os professores estão a fazer a sua parte. Falharemos como sociedade se não os apoiarmos nesta luta, que vai muito para além das suas justas reivindicações de classe. Falharemos se, enquanto cidadãos, não formos capazes de exigir um debate nacional sobre o que se está a passar nas nossas escolas. Falharemos se não conseguirmos colocar a educação e a estabilidade das políticas educativas no centro das decisões sobre o desenvolvimento do país. Falharemos se, como portugueses, não conseguirmos que o governo e a oposição tenham a coragem política e a humildade democrática para reconhecer a relevância estratégica deste setor e assumir compromissos para a educação, colocando os interesses do país à frente dos interesses partidários.

 

Professor do ensino superior