Início Educação “Os pais têm de confiar na escola” – João Costa

“Os pais têm de confiar na escola” – João Costa

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Nunca um arranque de um ano letivo foi tão simultaneamente ansiado e receado quanto o que se inicia para a esmagadora maioria dos alunos na próxima semana. Com as escolas básicas fechadas desde o dia 16 de março, o regresso é urgente. Mas com a pandemia a não dar sinais de abrandamento — antes pelo contrário —, o futuro é incerto.

Voltar a fechar as escolas por inteiro não é opção, a menos que a situação epidemiológica se degrade a um ponto extremo. A ideia é ir avaliando, dia a dia, caso a caso, como a situação evolui e as medidas que precisam de ser tomadas. Com uma certeza, reforçada pelo secretário de Estado-adjunto e da Educação, João Costa, em conversa com o Expresso: “Se aparecer um foco de contágio numa escola em Lisboa, isso implica uma atuação sobre esta escola e não necessariamente sobre mais nenhuma. E havendo um aluno, professor ou funcionário contaminado, isso não significa que a escola toda encerre.”

Para os diretores de estabelecimentos de ensino e autoridades de saúde há agora uma espécie de bíblia que norteará a atuação dos vários intervenientes. Chama-se “Referencial escolas – controlo da transmissão de covid-19 em contexto escolar”. O documento define como surto a existência de dois ou mais casos de infeção ativa numa escola, com ou sem ligação entre eles. Nesse caso, entra em campo a autoridade de saúde local, que fará a avaliação de risco e que determinará isolamentos e encerramentos de uma ou mais turmas ou de uma ou mais zonas do estabelecimento de ensino.

Segundo o documento, o fecho de toda uma escola “só deve ser ponderado em situações de elevado risco no estabelecimento ou na comunidade” e terá de ser decidido com a autoridade de saúde regional e nacional.

A ideia é também garantir que os que mais precisam da escola serão sempre os mais protegidos. “O que está previsto é que se a situação epidemiológica se agravar e caso se avance para um regime misto, há um conjunto de alunos que não deverão ir para casa. É o caso das crianças do 1º e 2º ciclos do básico, dos jovens em risco, dos que beneficiam de terapias na escola ou dos que não têm as melhores condições, em termos de contexto familiar ou de recursos tecnológicos, para estudar de forma autónoma”, explica João Costa.

Além da questão da autonomia, os estudos que existem, apesar de não permitirem tirar conclusões taxativas, indicam que os mais novos terão um papel menos ativo na transmissão do vírus (ver texto ao lado).

GERIR RECREIOS E RECEIOS

Mas nem só da antecipação de cenários e da definição de medidas e procedimentos — circuitos de entrada e saída, horários desfasados, ‘bolhas’ de alunos que não se misturam —, se faz a preparação de um ano letivo em tempos de pandemia. Há toda uma gestão da ansiedade e do medo a que é também preciso atender, reconhece o secretário de Estado.

Quando, em março, surgiram os primeiros casos positivos em escolas e faculdades (trazidos de fora para dentro), alguns pais começaram desde logo a não querer que os seus filhos fossem às aulas.

Seis meses depois, não se sabe tudo, mas sabe-se bastante mais em relação ao novo coronavírus, à forma como afeta a saúde e aos que que são mais vulneráveis. E percebeu-se que as consequências de encerrar um país e uma economia são brutais a vários níveis, e não apenas económicos. “Temos de conseguir um justo equilíbrio entre o prejuízo pandémico de ter as escolas a funcionar e o prejuízo em termos de aprendizagem, desenvolvimento das crianças e jovens e de redução das desigualdades, no caso de as fechar”, defende João Costa.

Ao contrário do que aconteceu em maio, quando foi determinado que o regresso às aulas para os alunos do 11º e do 12º era facultativo, agora a ida à escola no ensino obrigatório não será opcional. Apenas os alunos que pertencem a grupos de risco para a covid-19 vão poder ter aulas online. “As escolas estão preparadas. Há orientações desde julho e que foram agora complementadas. As autoridades de saúde sabem o que estão a fazer. O SNS nunca colapsou durante este período. Os pais têm de confiar no que a escola diz e no que as autoridades de saúde dizem. Não é entrar numa crença de que não há risco, porque risco há em todo o lado e em qualquer interação que tenhamos. Mas tem de haver confiança e perceber que há um mal maior que é o não ir à escola, com consequências muito graves para as crianças”, sublinha.

Os prejuízos são académicos, mas não só: “Vamos receber crianças que estiveram demasiado tempo fechadas em casa, com faturas pesadas em termos emocionais e de socialização, muitas com pais que perderam o emprego ou parte do rendimento. Elas precisam de viver esta alegria de voltar à escola e não estar num clima permanente de alarmismo.”

A questão é saber se um regresso que é feito com máscaras, sem abraços e beijos, com distanciamento físico e turmas separadas nos recreios e corredores e tantas outras restrições permite essa alegria. Para João Costa, é óbvio que esta não é uma escola igual a sempre, mas é melhor estar lá, “com os colegas ali ao lado, do que fechados em casa, muitas vezes com poucas condições, em ambientes de conflitualidade e de stress acrescidos”. No fundo, não é muito diferente do que se passa entre os adultos: “Durante um tempo tivemos que dar os parabéns à distância e por um ecrã. Agora já conseguimos comer um bolo em família, ainda que sem abraços. Mas é melhor do que estar numa janela do Zoom.”

O que não pode acontecer é um relaxamento dos comportamentos nem um exacerbar das preocupações, defende, apelando a uma “tranquilidade responsável”. “Todos têm de fazer a sua parte, incluindo os alunos. Os primeiros dias de aulas vão ser muito importantes em termos de cidadania e de apreender o que são comportamentos responsáveis. Se não, vamos ter o medo a decidir. E uma sociedade que decide em função do medo decide mal”, avisa João Costa.

Também os diretores defendem a necessidade de voltar às aulas presenciais. Mas têm receios e apontam falhas. Logo à partida, a questão das salas de aulas que, nas escolas de áreas mais populosas, funcionam cheias de alunos e onde o distanciamento de pelo menos um metro é difícil ou impossível de cumprir. Ou a questão do arejamento, dificultado por janelas basculantes que abrem pouco ou pelos meses de frio e chuva que hão de chegar.

Outras das grandes preocupações é a escassez de funcionários, agora obrigados a uma multiplicação de tarefas de higienização e limpeza e durante mais horas, já que há escolas que estenderam o horário de funcionamento para diminuir o cruzamento entre estudantes. A substituição de professores que seja necessária, por casos de infeção ou por baixas que decorram do facto de pertencerem a grupos de risco para a covid-19, também preocupa.

No último ano letivo, em particular, foi visível a falta de professores disponíveis para dar aulas a determinadas disciplinas e regiões do país, como Lisboa e Algarve. Agora, as dificuldades adivinham-se ainda maiores.

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