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Os dias da escola online começam a ficar pesados

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Querida Mãe,

Os dias da escola online começam a ficar pesados — parece que toda a gente se esqueceu que a saga para os maiores de 10 anos continua —, as expectativas dos professores aumentam, mas a resistência dos miúdos para horas sem fim de aulas por Zoom, como é óbvio diminuiu. Mãe, mas nem é para menos, com horas de repetições do género “Liga a câmara!”, “Professora, não ouvi”, “A Internet está a falhar”, e trabalhos que já ninguém sabe se fazem parte da aula ou se são TPC, e que se vão acumulando. Mas agora há ainda uma nova modalidade pior e que desgasta ainda mais: os trabalhos que surgem fora de horas, na classroom, e que os obrigam a lá irem constantemente verificar, e que os induz num comportamento ao estilo do workaholic que nunca descansa, nem se pode afastar do e-mail, interiorizando a ideia de que tem de estar sempre contactável. Spoiler alert: muitos deles acabam em burnout.

Mas, no meio disto tudo, reparei na minha hipocrisia quando comecei a tentar a todo o custo “organizar” os trabalhos em falta, fazendo listas e post its para os ajudar. O que faço? Perante a resistência começo o sermão: “Mas porquê??? São só três exercícios. Coisas tão simples!! Coisas que sei que sabem fazer!” e continuo — apesar das lágrimas e respostas monossilábicas do “não sei”, “não consigo”, “não quero!” — “é tão melhor se ficar feito e depois não têm de ficar aflitos… e podem ir brincar… fica tudo entregue e podemos descansar!”.

Reparou, querida mãe, como eu acabei a frase no plural — “podemos descansar”? Pois, é que o grande motivo desta minha intervenção é assegurar que eu posso mentalmente descansar, sem ficar assombrada pela ideia de que se não fizerem o trabalho em falta, os professores vão zangar-se — comigo ou com eles? Já nem sei o que me preocupa mais.

Espere, ainda não confessei tudo. De repente recebo uma mensagem, e logo as primeiras linhas deixam-me nervosa — “Ana, não te esqueças de me mandar…”. Desabafo com o meu marido, pela milionésima vez, sobre aquela tarefa que ainda não fiz e ele, exasperado, responde “Mas porque é que não fazes? É tão simples… É só uma coisa e que tu sabes tão bem fazer! E ias ficar tão aliviada e tão descansada a seguir!”. E aí cai-me a ficha. Não faço, não porque não queira, mas porque estou com medo de falhar, estou cansada e ansiosa, o que me torna menos capaz mesmo de resolver coisas simples e muito mais evitante de qualquer tarefa menos agradável. Tudo isto torna-me milhões de vezes mais procrastinadora.

Foi aí que me lembrei de lhe perguntar: a mãe que parece nunca ser atingida pela procrastinação, diga-me qual é o segredo para superar os bloqueios? E para os evitar? Não teremos de aprender melhor a deixar os nossos filhos ficarem bloqueados, sem sentir a necessidade de os salvar? Mesmo sabendo que as consequências vão ser difíceis?


Querida Ana,

É verdade que procrastino pouco… nas coisas de que gosto. Se incluíres na lista de tarefas, cozinhar, tratar de papeladas em repartições, pôr o carro a arranjar ou um qualquer desafio tecnológico, já não respondo por mim. Por isso suponho que o verdadeiro segredo é guardar para nós o que nos dá prazer, e delegar nos outros o que odiamos — infelizmente para ti e para os meus netos, este nirvana só se consegue com a idade, um emprego estável e um ordenado mais ou menos certo ao fim do mês.

Dito isto, comigo o teu sermão funcionaria. Sou muito sensível ao “faz agora para poderes descansar”. Suspeito que são os genes ingleses. Digo isto porque conheço mesmo muitos portugueses que procrastinam até à última hora, mas que depois são mega criativos com a adrenalina que o prazo à vista lhes provoca. A mim matava-me.

Quando bloqueio, também me ajuda imenso que alguém de fora dê comigo os primeiros passos, mas infelizmente essa pessoa não pode ser alguém muito próximo — em criança a ajuda da minha mãe bloqueava-me ainda mais, nunca percebi bem porquê, mas acho que ninguém gosta de falhar aos olhos das pessoas que queremos que nos admirem. Será qualquer coisa por aqui.

Confesso que nunca sofri de perfeccionismo, e se tivesse sofrido nunca teria conseguido trabalhar num jornal diário, em que mal ou bem o nosso trabalho tem de ser entregue. Quando bloqueava lembrava-me que desejavelmente depois de ter sido lido, aquelas páginas forrariam a gaiola dos periquitos do leitor, e esse simples facto aliviava a pressão.

Por fim, as consequências. As consequências aceitam-se bem se sentirmos que são justas e proporcionais. Neste momento duvido que qualquer aluno, e por maioria de razão os pais dos alunos, e também os professores, estejam em condições de viver esta praga do ensino online com a serenidade mínima exigida para não acabarem todos malucos. Ainda há dias li no PÚBLICO uma reportagem muito impressionante sobre o aumento de casos de violência contra as crianças sinalizados às Comissões de Protecção e fiquei de cabelos em pé, mas não surpreendida: mesmo em famílias sem antecedentes a pressão da escola online, somada às dificuldades económicas, há falta de espaço em casa, ao cansaço, é verdadeiro dinamite, com o rastilho já bem aceso. Felizmente os mais pequenos já voltaram à escola presencial, é mais do que tempo de que os outros também regressem — não pode mesmo ser procrastinado.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.