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Os de baixo contra os de cima, os de cima contra os de baixo- Visão

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https://visao.pt/opiniao/tudo-e-politica/2024-06-28-os-de-baixo-contra-os-de-cima-os-de-cima-contra-os-de-baixo/
Vítimas de um deslumbramento bacoco com a novidade tecnológica, as escolas não ensinam a ver para lá do óbvio. Instruídas para “capacitar”, reproduzem padrões sociais em vez de os quebrarem, tornam-se produtoras de pequenos burocratas, técnicos desencantados, mão de obra barata e precária. Salvam-se os que encontram em casa outros recursos.

Todos os dias o jornal Público chega à biblioteca da escola. Ninguém lhe toca. Até que, um dia, uma professora de Filosofia resolve levá-lo para a sala e pedir aos alunos que o leiam e escolham uma notícia que suscite um debate filosófico. Há um alvoroço. O papel passa pelas mãos da turma de 12.º ano. Há quem note que tem cheiro, quem estranhe que tenha tantas notícias (“até de desporto”, espanta-se um). Entusiasmado, intrigado, um dos rapazes dirige-se à professora. “Stôra, e fazem este jornal todo só para a nossa escola?”. Não se seguiu uma risada, porque ninguém sabia a resposta. A professora hesitou. Talvez o adolescente troçasse dela. Mas não. Era só a candura de quem, pela primeira vez, quase às portas de chegar ao ensino superior descobre o que é um jornal.

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Esta história é real. Foi partilhada pela protagonista principal num debate de professores, que se prolongou com queixas sobre miúdos alienados pelos telefones, incapazes de usar as mãos, entorpecidos por um silêncio apático, distraídos de tudo menos da pantalha.

Quando a contei à minha filha de seis anos, abriu-se-lhe no rosto um espanto desconfiado. “Até o mano sabe o que é um jornal”, contestou, incapaz de compreender como o conhecimento que está ao alcance de um menino com cinco anos escapa aos que ela vê como crescidos. E foi aí que me apercebi de que esta história não é sobre o falhanço da escola (embora também possa ser) nem sobre a digitalização da sociedade (embora também seja). Esta é uma história sobre desigualdade

Esta história não é sobre o falhanço da escola (embora também possa ser) nem sobre a digitalização da sociedade (embora também seja). Esta é uma história sobre desigualdade.

A escola pública foi construída como um espaço de oportunidade e nivelamento social. O lugar aonde se encontravam as ferramentas capazes de fazer ascender os que vêm de baixo. Se existe algum elevador social, ele está na escola pública. O problema é que as escolas não são ilhas. E, em certa medida, deviam ser. Para lá dos seus portões, os alunos deviam encontrar o tempo e o espaço do conhecimento, da reflexão, da curiosidade.