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O que a telescola ensina sobre a direita, e é muito – Francisco Louçã

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O sururu provocado esta segunda-feira pelo míssil de Nuno Melo contra Rui Tavares e a “aviltante e ignóbil revolução cultural em marcha” diz mais sobre a dificuldade sobre o confinamento silencioso de alguma direita do que sobre a realidade da telescola. Se o autor tivesse alguma noção do que questiona, ter-se-ia protegido do ridículo e saberia que estes cursos mobilizam conteúdos vários, como neste caso um excerto de um programa sobre História; se tivesse algum conhecimento do que é o ensino, saberia que a participação política não tem que se confundir com o trabalho académico, ou Cavaco Silva, Adriano Moreira e outros, como o signatário, ficariam excluídos do ensino.

Na verdade, até ao presente presidente do CDS, todos os seus antecessores ensinaram em universidades ou no politécnico e não consta que Melo se tenha revoltado com isso. Não será pois por acaso que o eurodeputado, depois da sua nota a ferver de indignação, desapareceu do radar e não mais se ouviu falar desta sua cruzada. Desmentido pela telescola e pelo Governo, e até amesquinhado pelo PSD, o denunciante saiu à sendeiro e o caso “aviltante” dos “alunos transformados em cobaias do socialismo” passou a ser coisa pouca. E tudo seria vagamente anedótico, não fora revelar duas características importantes deste segmento da direita, ambas com avantajadas consequências imediatas.

A primeira é que a agenda da competição pelo fanatismo determina o CDS. Melo já tinha sido protagonista de um ensaio de viragem à extrema-direita nas eleições europeias, convicto de que havia aí um grande espaço e que, a não ser que o partido o ocupasse, seria ensombrado por ele. O resultado foi o que se viu, uma crise de identidade. O que o portismo tinha meticulosamente construído em busca de respeitabilidade, com dose abundante de europeísmo e governismo, e até teorizado com o “à nossa direita uma parede”, a não ultrapassar e a que não se poderia sequer chegar, foi desmantelado a golpes de retórica violenta e sobrolho carregado, tudo em declinação do velho e consagrado segura-me se não eu bato-lhes.

Como seria de esperar, essa corrida estava condenada desde o primeiro minuto. Perdeu muitos eleitores e não ganhou nenhuns dos que já tinham um novo chefe a quem venerar. Tanto que o congresso se virou para uma cara nova, que prometia ser mais venturista e trazia créditos firmados numa acesa polémica sobre casas de banho. Ora, mesmo Chicão percebeu que a marca estava a ficar perigosa e tentou corrigir a imagem, dedicando-se a ensaiar um esforçado neoportismo que surpreendeu os seus apaniguados, amparando o Governo do aeroporto do Montijo ao IVA elétrico e prestando-se ao que fosse preciso. Apesar disso, o tempo é implacável e, aprisionado pela expectativa que criou, deixou que fale por ele Telmo Correia que, ao que se viu no Parlamento no 25 de Abril, é um pálido cheguista, e agora um Melo que não esconde o ressabiamento passadista a cavalgar contra a assustadora “revolução cultural em marcha”.

A segunda característica deste espaço da direita é que já não consegue escolher agenda, atirando-se ao que pode como se não houvesse amanhã, ou, se escolhe, resvala para um passado soturno. A questão do grupo parlamentar do CDS ao Governo atribui aquele programa da telescola uma “análise política e crítica (e, por isso, deturpada)” da Exposição do Mundo Português, organizada por Salazar em 1940, e indigna-se com essa análise. A frase é maravilhosa. Tratando-se de uma iniciativa governamental e portanto política (e de uma ditadura, mas para quê incomodarmo-nos com detalhes?), parece razoável que haja uma análise “política”. Que seja “crítica”, é também compreensível. Talvez o CDS peça uma análise “apolítica” e “acrítica” e, por isso, “não deturpada”, daquele acontecimento.

Mas de onde palpita esta sensibilidade salazarenta? Arrisco-me a pensar que o portismo fugiria disto a sete pés, para não ser apanhado em tal companhia, mas o CDS de hoje está mais obcecado em antecipar o que o Chega pode dizer, ou procurar uma causa que leve meia dúzia de entusiastas a rasgar as vestes no Facebook, do que em apresentar uma identidade que lhe permita alargar influência. Assim, está perdido. Não é preciso olhar para as sondagens para o constatar, basta ler as notícias destas atribulações.

Estas duas características são novas. Parafraseando Salazar com algum liberalismo, nesta direita o que lhe é confortável não é novo, aliás estava no armário, e o que é novo não é confortável. Consequência maior, o PSD fica sem parceiro à direita. Isso tem implicações. Retira a viabilidade eleitoral e bloqueia uma alternativa à direita pelos anos vindouros, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, polariza o PSD entre estes dois caminhos, o de um partido a procurar ser uma direita centrista com Rio, e o de um passismo seduzido por esta forma de política melista, como se viu quando manobrou nas sombras a campanha contra o 25 de Abril no Parlamento. O caso da telescola mostra como o CDS se está a despedir de si próprio, como o PSD fica sem parceiro e só pode temer o seu borbulhar interno e como António Costa deve mandar uma caixa de bombons a Nuno Melo.

Fonte: Expresso