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O primeiro milho é dos professores – Rui Correia

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Assistimos a um esgotamento provocado, um descalabro induzido. É uma crise de contrabando. Desnecessária e evitável. É preciso fazer a separação dos lixos e compreender devidamente os contornos do enredo.

As escolas não têm culpa nenhuma de nada daquilo a que assistimos. É manifesto e consensual que as escolas não têm quaisquer responsabilidades neste abismo absolutamente artificial que se criou. Apesar de todas as agressões, pancadas, injúrias e bofetadas que leva, a escola pública, com os dentes a ranger, segura como pode as pontas todas, com dez pratos a rodar lentamente em cima de varas.

Uma boa forma de saber como vai a educação em Portugal é fazer uma semana de job-shadowing com um qualquer director de um agrupamento escolar. Seja de que terra for. À escolha.

O seu dia é passado a correr como galinha sem cabeça num ininterrupto estado de frenesi. À primeira vista até parecem serenos e seguros mas, na verdade, nenhum deles sabe o dia de amanhã. E isto, num sistema educativo, é intolerável. A previsibilidade legislativa e institucional é o cimento armado de qualquer estrutura educativa.

A letra escarlate
É sabido que todo o ministro gosta de deixar a sua “marca”. Algo que reflicta o seu contributo para o aperfeiçoamento do sistema que tutelou. Gosta de apregoar autorias. Houve um tempo em que isso foi necessário. Hoje é uma calamidade.

Sempre que se percebe que um ministro quer “deixar a sua marca” isso deve ser visto como um adultério público, um alarme sísmico, um prenúncio de desvario. Qualquer pessoa que aceite ser ministro da educação e queira “deixar a sua marca” no exercício do seu mandato ministerial deve ser hoje encarado como um alvo a abater, sem apelo nem agravo.

O sistema está carregado de “marcas” e feridas por cicatrizar em todo o corpo. A automutilação educativa é um flagelo muito sério e deve interromper-se o mais cedo possível. Basta, pois, de “marcas”.

Com meia dúzia de marcas políticas irresponsáveis condenou-se um sistema inteiro a uma astenia estrutural. Não era fatal estarmos hoje sem professores em número suficiente para substituir aqueles que irão aposentar-se dentro de poucos anos. É apenas um dos sintomas. A degradação sistemática das condições de trabalho dos professores representa a maior fatia desta esperada e previsível agonia.

Por que se escolhe ser professor?
A melhor forma de saber o que fazer para dar a volta a este estigma que se abateu sobre a educação em Portugal é recordar por que motivo alguém pode ainda querer ser professor. Recordemo-nos, pois.

Aquilo que leva uma pessoa a escolher a carreira de professor é, em primeiro lugar, aquele humanismo essencial que o ofício lhe proporciona, presente numa relação humana produtiva e transcendente com a miudagem; o facto de se tratar de um ofício de intrínseca índole cultural; a segurança e a previsibilidade de um vínculo laboral, que lhe permite atravessar crises e pandemias sem a aflição imediata do espectro do desemprego; a autonomia de decisão e exercício que lhe é concedida; a oportunidade de poder escolher fazer ou refazer a sua vida numa localidade à sua escolha com alguma simplicidade; um salário que possa garantir uma qualidade de vida decente; poder partilhar tempo útil com a sua família, nomeadamente períodos de férias coincidentes com as férias dos filhos; algum módico estatuto social; a oportunidade de se envolver em projectos educativos aliciantes, nacionais ou internacionais; participar activamente no crescimento e progresso da sua comunidade; ser estudante a vida toda, em permanente contacto com novos formatos de aprendizagem e novas gerações de tecnologias, num estado continuado de renúncia à estagnação; o sentido de vida que uma carreira como estas lhe confere.

O engodo
Com tantas vantagens, como é possível termos chegado a este ponto de não haver quem queira ser professor?

É patente que aquilo que mais afasta os jovens da carreira de professor não é propriamente o trabalho em si. A satisfação pessoal que o trabalho de professor concede a um indivíduo mais do que lhe garante até um sentido existencial de suficiente honorabilidade. É, por isso mesmo, extraordinário que a solução que hoje se aponta para tornar a profissão “atractiva de novo” seja aumentar os salários dos novos professores.

A ideia é dar a entender que o início desta carreira é muito mais apetecível do que nas outras. Fala-se, pois, de aumentar os primeiros escalões remuneratórios e aguardar a ver o que acontece. E é isto. Este é o plano. Um anzol.

Agarra-se o peixe pela boca e, pronto, temos almoço. Pois bem, perceba-se o seguinte: qualquer pessoa que se envolve na carreira docente pela simples razão de que se ganha bem no princípio, deve ser imediatamente expulsa da carreira de professor. Entrou pelas piores razões. Fez tudo mal.

O princípio do fim
Quem quer ser professor deve fazê-lo sabendo que entra num trabalho onde, mesmo que atinja o topo da sua carreira, nunca terá veículo próprio em leasing da empresa, cartão de crédito, telemóvel e telecomunicações gratuitas, seguros de saúde premium, viagens e despesas de representação, motorista, prémios e bónus de desempenho, comissões no valor de vendas, dividendos accionistas, penalização reduzida na reforma antecipada, jornada flexível de trabalho, e nunca, nunca, ganhará como professor senior, cinco, dez, vinte, ou cem vezes mais do que um professor em início de carreira, entre outras coisas.

Mas um professor deve ter a certeza de que a sua carreira é sólida e que o seu mérito conta para alguma coisa. Que, entre outras coisas, ao longo do tempo, pode aspirar a ter sempre um bom ordenado. Um vencimento que lhe proporcione constantemente uma condição financeira segura, estável e despreocupada. É a carreira toda que lhe deve interessar e não apenas o seu princípio. Aquilo que atrai numa profissão são as vantagens de como nela progredimos e melhoramos e as expectativas que ela nos permite ambicionar. Interessa bastante mais como a carreira decorre e acaba do que como começa.

Uma Primavera sem andorinhas
A escola vive numa sistemática convulsão. É preciso interromper este ciclo. Ela sobreviverá. Não temos nem orçamento, nem professores suficientes, mas o grande Carlos do Carmo ensinou-nos que “Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera”.

Nesta Primavera sem andorinhas nem professores, é necessário perceber que, justamente, aquilo que destruirá a profissão será a ideia de que se conseguirmos fazer entrar inocentes pardalitos na gaiola eles já de cá não saem. Saem, sim, Senhor.

Pior ainda: voam os melhores, porque procuram outras paragens, noutras latitudes mais amenas e abundantes. Trazer os melhores quadros para dentro das escolas e desse modo conseguir inspirar os nossos jovens a saberem aprender mais e melhor é saber imaginar, saber projectar uma carreira aliciante, com futuro.

O que atrairá gente para uma profissão em que tudo demora, (terapêutica, resultados, frustrações, ânimos e desfechos) é precisamente o seu futuro.

Como se passará o tempo ao longo dos anos nessa profissão. É preciso tratar os professores como clientes. Concentrarmo-nos na cultura da função educacional. Proporcionar uma experiência positiva a todos os envolvidos. Ir além do CV e da papelada digital. Reconhecer e estimular a inspiração onboarding que pode ser proporcionada pelos professores seniores. Tornar a carreira longitudinalmente aliciante e compensadora.

Aumentar vencimentos aos novos professores não é uma péssima medida. Mas pensar que ela resolve o problema não passa de uma ingenuidade dispendiosa, perdulária e primaveril. Não é mais do que uma emboscada, uma armadilha. Um primeiro milho. O mal é que todos sabem que o primeiro milho é sempre dos pardais.