Início Educação O ministro João Costa e o socialismo sinistro – Garbriel Mithá Ribeiro

O ministro João Costa e o socialismo sinistro – Garbriel Mithá Ribeiro

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A audição parlamentar ao ministro da Educação, João Costa, no passado dia 12 de julho colocou-nos diante de duas questões especialmente sensíveis.

A primeira.

Como tem insistido, o Partido Chega defendeu que a reprovação dos alunos é fundamental para responsabilizar o aluno e a respetiva família, o que significa não remeter as responsabilidades pelo insucesso escolar sobretudo para o professor. É tempo de travar hábitos tornados demasiado comuns de falta de estudo e de maus comportamentos dos alunos a quem foi passada uma carta branca de desresponsabilização, presente cultural envenenado que compromete o destino dos futuros adultos desde a infância, assim como da sociedade no seu conjunto. Em resposta, e sem qualquer base científica porque a mesma não existe, o ministro da Educação garantiu no Parlamento: «A retenção não é eficaz».

Tal ladainha é no mínimo duvidosa, muitíssimo mais numa democracia que deve ser caracterizada pela diversidade, pluralismo, contraditório. PSD e CDS-PP e agora também a IL aceitam o dogma como se o socialismo fosse uma revelação divina, não se predispondo ao contraditório em matérias sensíveis.

A tese que o atual ministro da Educação corporiza como nenhum dos antecessores é típica dos que vivem encerrados no ideal moral da vitimização, perspetiva que foi contaminando a orientação cívica e cultural das sociedades dado o poder hegemónico da esquerda a partir do controlo autocrático do ensino. Todavia, «A retenção não é eficaz» desfaz-se na lucidez dos que se orientam pelo ideal moral da autorresponsabilidade. O problema é que estes não têm visibilidade social, não conseguem condicionar as políticas de ensino porque não têm tido quem as representasse.

Esse panorama tem de ser transformado, sendo que este último segmento da população pode pertencer aos remetidos para a abstenção eleitoral, por sinal com peso crescente. Como acreditar numa democracia insensível ao óbvio e subjugada ao pensamento único?

Numa cabeça saudável, a reprovação de um aluno que não estuda, manifesta atitudes e comportamentos reprováveis ou não é assíduo nem pontual é a decisão mais normal do mundo e, que se saiba, não se inventou nada mais eficaz, descontada a ilusão, mentira, irresponsabilidade. Só falta a esmagadora maioria das forças políticas respeitarem as pessoas normais, defenderem a sanidade mental coletiva. Fazem justamente o inverso.

Na minha atividade de deputado, contactei com situações que dão que pensar. Por exemplo, visitar oficialmente um agrupamento de escolas onde as dificuldades de aprendizagem dos alunos são a queixa mais comum, porém depois apresentam-nos taxas de sucesso escolar próximas dos cem por cento. Além de ser óbvia a socialização da paranoia e da mentira da avaliação a partir do Ministério da Educação, como é que se pode gerar um contexto social favorável à correção das dificuldades de aprendizagem, ao reforço do sucesso efetivo dos alunos ou à dignificação da instituição escolar com tamanho curto-circuito mental?

Patologia mental coletiva é mesmo isto. Anoto que fora da escola a situação também está mais do que «normalizada».

É neste ambiente que que PSD e IL resistem em bater-se por uma ideia elementar e óbvia e deixam o Partido Chega isolado. Altere-se a moral social em favor da autorresponsabilidade e as reprovações farão milagres. Não seriam necessários muitos anos para as reprovações baixarem drasticamente e, proporcionalmente, a qualidade do ensino melhorar muitíssimo de forma consistente, sobretudo entre os mais pobres. As sociedades limitam-se a reagir a quem as governa e nós somos governados por ineptos, viciados em destruir a ordem moral e social, assim como em gastar o dinheiro dos contribuintes de forma absolutamente escandalosa.

A escola é, de facto, um problema gravíssimo. Basta ouvir o ministro da Educação.

A segunda questão.

João Costa também defende que «[O Perfil do Aluno] serve para avaliar competências e isso é mais difícil do que avaliar conhecimentos». Sem dúvida. O pior é que o sistema de ensino tem feito tudo para se desviar do conhecimento em favor da imposição de princípios e causas ideológicas progressistas. Fá-lo também, obviamente, no domínio da avaliação dos resultados escolares. Numa cabeça progressista-esquerdista, «avaliar as competências dos alunos» desde a infância é muitíssimo mais importante do que «avaliar conhecimentos».

Aqui bate o ponto. Um sistema de ensino universal e obrigatório que ambiciona «avaliar competências» significa a pretensão de avaliar pessoas, avaliar a complexidade e intimidade daquilo que os indivíduos são. Tal significa ir muito além de avaliar conhecimentos perfeitamente definidos nos programas que a escola tem de transmitir e verificar em que medida os indivíduos aprenderam. Hoje vocalizada de modo tão grosseiro por responsáveis políticos e académicos, «avaliar competências» retrata os que perderam a consciência de terem ultrapassado a fronteira do respeito pela liberdade, pelo pluralismo e pela condição humana próprios de uma democracia para escancararem a porta ao controlo mental totalitário das sociedades a partir da infância. É por isso que a esquerda controla de forma tão agressiva a intimidade da sala de aula e já remeteu metade dos professores para situações de sofrimento físico e psicológico. Também normalizámos esta hecatombe social.

Antes PSD e CDS-PP, agora PSD e IL. não percebem que o PS transitou, com o ministro João Costa, da subversão para a violação pura e simples da ideia de escola e aqueles partidos parecem surpreendidos porque o Chega impõe travões a fundo a este mundo enlouquecido.

Atingimos (para já) o auge de um ciclo iniciado na segunda metade dos anos noventa com o Governo de António Guterres, o tal da paixão pela educação, que entregou o ensino a uma das figuras mais sinistras da sua história, a então Secretária de Estado Ana Benavente. O atual ministro da Educação, João Costa, atingiu o estádio de sumo sacerdote da causa, tranquilo e seguro no discurso e modos como qualquer inquisidor que se movimentava como peixe nas águas do seu tempo histórico e mental.

Tudo isso tem de ter um fim.

Observador