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O Grande Líder Apresenta-se – 1 – Paulo Guinote

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João Costa chegou ao governo em finais de 2015. Eu tinha 50 anos. Chegou a ministro em inícios de 2022. Eu estava a fazer 57 anos. Em finais de 2015 eu sabia que em inícios de 2022 faria 57 anos. Apesar de ser de Letras, consigo somar números com poucos dígitos e usar um calendário. Aparentemente, o secretário agora ministro e a equipa do ME em 2015, apesar de incluir um cientista, não estavam em condições de fazer somas assim tão simples.

 

Em finais de 2015, sabia-se que existia já um enorme desgaste na classe docente, que os problemas de saúde estavam a aumentar, assim como o mal-estar psicológico estava instalado. Nada ou pouco se fez a esse respeito e, quase sempre, o pouco que foi feito, provocou mais desânimo e irritação do que alguma melhoria, pois a sensação de injustiça permaneceu, para além de que qualquer questão relacionada com os professores surge sempre envolvida em considerandos pouco favoráveis e uma muito mal disfarçada acrimónia.

 

A pandemia e o fracasso rotundo do ensino não-presencial pareceram reforçar a imagem dos professores, mas o sol durou pouco e as nuvens agruparam-se de novo. Mal terminou oficialmente a pandemia nas escolas, abriu o período do “faltam professores”, como se de novidade se tratasse. Não, não era nenhuma novidade e desde 2018 que os efeitos já se sentiam. E a previsibilidade da situação vinha ainda mais de trás, porque, como acima escrevi, somar um ano de cada vez à idade dos professores e analisar os números de pedidos de aposentação antecipada não carece de estudo encomendado a qualquer instituição externa ao ME, a menos que exista dinheiro para gastar e entregar nas mãos certas.

 

Sei que vozes de zecos não chegam aos céus olímpicos dos decisores iluminados, mas não fui o único a escrever repetidamente que a escassez de professores não tem a ver com o modelo de concurso, com as mobilidades por doença ou outras ou, sequer, com a falta de gente habilitada para a docência (basta ver os números do concurso externo). A escassez de professores resulta da degradação objectiva, material e simbólica, da docência, feita de modo deliberado por uma clique política alargada (que surge de recantos só inesperados para quem não conhece as figuras e os modos de pensar de pseudo-elites com pretensões intelectuais, de muitos “radicais de esquerda” aos liberais de direita), com forte ancoragem na comunicação social.

 

As condições de exercício da docência foram precarizadas em termos de vínculo e proletarizadas em termos materiais, fazendo com que poucos desejem entrar em tais condições e muitos desejem sair o quanto antes. O modelo de concurso só se tornou parte do problema quando o tentaram “aperfeiçoar”, no sentido da desregulação. Quando começaram a acontecer, de forma repetida coisas “extraordinárias” e ultrapassagens em diversas faixas de rodagem. Ou quando a colega de governo do actual ministro Costa, considerou que era tempo de tornar ainda mais draconianas as regras para os docentes contratados. Pelo meio, minguando a recuperação do tempo de serviço dos que estão na carreira e mantendo um modelo de avaliação de desempenho vulnerável aos maiores abusos e injustiças, ia-se desmoralizando os resistentes.

Recordemos que há 20 anos se decidiu que só poderia ser professor quem tivesse formação pedagógica, incentivando-se o que chamei muitas vezes “formação de aviário”, em que alguém sai certificado para a docência sem ter dado aulas. Foi uma opção errada, que derivou da confluência de muita gente numa ideologia da docência essencialmente como pedagogia e não da docência como actividade intelectual com forte componente académica. É a ideologia do actual ministro, que anda sempre a repetir uma ladaínha anti-conhecimento científico, muito new age, patchouly e mindfulness com granola ao pequeno almoço. Mas agora já se quer aceitar na docência qualquer pessoa, com qualquer formação de base e depois logo se vê se há seis meses para lhe pincelar uma “formação pedagógica” que legitime a designação de “professor”. Continuo a achar que o modelo está errado e que se deveria ter mantido aquele em que as pessoas se formavam numa área disciplinar específica, entravam no ensino e depois faziam a sua formação em exercício/serviço ao obterem um lugar no quadro. Em condições decentes. Com uma carreira em que todos pudessem ter o seu tempo de serviço contado. Não ter um par de gerações que perderam mais de seis anos da sua vida profissional, em virtude de congelamentos decretados por governos do partido do actual ministro.

 

João Costa “vendeu” uma entrevista ao Expresso em que aparece com a imagem de alguém que sabe o rumo a tomar. Pena que só o tenha descoberto mais de seis anos depois de estar no governo e não adianta vir dizer que não era ele a decidir. O ministro Tiago é que não era, que entrou e saiu da pasta sem perceber da missa o introito. E se à secretária Leitão deixaram fazer as asneiras de que agora se percebem os estilhaços, também a ele teriam deixado ter uma intervenção positiva, se assim o entendesse e tivesse tido a coragem de a assumir.

 

Lamento, mas não admiro bombeiros resolutos em apagar fogos que viram acender sem mexer um dedo e estando sempre prontos para se desresponsabilizarem em off e vitimizarem-se à mais pequena crítica. Há quem ache que é sempre tempo de achar soluções e não de olhar para trás e apurar culpas. É o lema dos que sabem ser culpados.

 

O tanas é que não é tempo de apontar o dedo a quem aponta o dedo! Porque dar as chaves do negócio a quem o enterrou, sendo por cá prática comum na área financeira, é caminho quase completo para enxertos mal feitos.

O Meu Quintal

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