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O fosso entre os partidos políticos e a sociedade civil – Alberto Veronesi

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A relação entre os partidos políticos e a sociedade civil é de extrema importância para o funcionamento saudável de uma democracia. No entanto, nos últimos anos, temos observado um aumento no distanciamento entre os cidadãos comuns e os políticos, criando assim um fosso cada vez maior, que compromete a representatividade e a legitimidade das instituições políticas.

Mas afinal quais as razões pelas quais os partidos políticos não se abrem à sociedade civil?

Uma das principais razões para a falta de abertura dos partidos políticos à sociedade civil é a preservação dos interesses partidários e a influência da burocracia política. Os partidos muitas vezes fecham-se nos seus próprios círculos, limitando a participação popular e tomando decisões com base nos interesses internos. É de perceção popular que os grupos de interesse organizados têm mais influência nas tomadas de decisões do que os indivíduos desorganizados. Isso resulta em políticas que não refletem adequadamente as necessidades e aspirações do cidadão comum.

A falta de abertura dos partidos políticos também pode ser atribuída à desconfiança mútua entre os políticos e a sociedade civil. De acordo com Pierre Bourdieu, sociólogo francês, existe uma “distância social” entre a classe política e os cidadãos, onde os políticos são vistos como uma elite distante e inacessível. Essa falta de envolvimento cria um ciclo vicioso, onde os políticos se afastam da sociedade civil e, por sua vez, a sociedade civil se torna cada vez mais desinteressada e cética em relação à política.

Outra razão significativa é a manutenção de privilégios e poder por parte dos políticos. A abertura dos partidos à sociedade civil poderia ameaçar os benefícios e a estabilidade dos políticos estabelecidos. Como apontado por Robert Michels na sua obra Os Partidos Políticos, a liderança partidária tende a tornar-se uma oligarquia, onde poucos detêm o poder e controlam o acesso aos recursos partidários. Essa concentração de poder dificulta a inclusão de novas vozes e ideias no processo político, contribuindo para o distanciamento entre os partidos e a sociedade civil.

Todas estas estratégias de fechamento têm consequências.

O fosso entre os partidos políticos e a sociedade civil resulta numa crise de representatividade. Os políticos são eleitos para servir os interesses da população, mas quando os partidos não se abrem à participação e ao diálogo com a sociedade civil, a representação adequada dos cidadãos é comprometida. Isso leva a uma sensação de descontentamento e alienação por parte dos cidadãos, que se sentem desconectados do processo político e percebem uma falta de responsabilidade por parte dos políticos eleitos.

A falta de abertura dos partidos políticos à sociedade civil também pode levar a decisões políticas inadequadas. Quando os políticos não estão em contacto direto com as demandas e preocupações da população, correm o risco de tomar medidas que não correspondem às necessidades reais das pessoas. Isso pode resultar em políticas desajustadas, ineficientes ou mesmo prejudiciais para a sociedade como um todo.

Para além disso, a ausência de diálogo e participação da sociedade civil nos partidos políticos pode contribuir para a polarização e o surgimento de extremismos políticos. Quando os cidadãos se sentem excluídos do processo político, podem procurar alternativas fora do sistema tradicional de partidos, aderindo a movimentos radicais e populistas. Essa polarização pode agravar ainda mais o fosso entre os políticos e a sociedade civil, tornando difícil o alcance de consensos e a procura por soluções pragmáticas.

O distanciamento entre os partidos políticos e a sociedade civil tem consequências negativas para a democracia e a governação.

A superação desse distanciamento é essencial para fortalecer a legitimidade das instituições políticas e promover uma governação mais inclusiva e responsável. A degradação das instituições acontece devido a este fosso e o crescimento dos extremos por inépcia dos políticos. Não vale a pena gritar contra os extremos quando estes são o resultado dos que gritam.

Observador

1 COMENTÁRIO

  1. Uma resposta a esta situação, é o Povo voltar maciçamente às urnas para votar em todos, menos nos partidos que estão na AR. O PS tem Maioria absoluta, numas eleições onde 48% dos eleitores não foi votar. Na realidade teve 21,8% a nível Nacional. Se os círculos fossem equivalentes, os votos da metade que votou não dariam mais que 93 deputados ao PS, logo sem Maioria absoluta. Esta só é possível por “manhas” que a nossa legislação eleitoral permite e por metade dos eleitores ficarem em casa – é que os “jotinhas”, os militantes, e os fanáticos para quem escolher um partido é como escolher um clube de futebol e por pior que “jogue” são sempre por ele, esses votam sempre. Assim uma meia-dúzia com interesses instalados sobrepoem-se a todo um País. Um primeiro passo para alterar isto é votar maciçamente mas não nos grandes partidos. Outro é forçar alterações que permitam votar em pessoa e não em partidos

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