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Nova carta de um português na China: “Se toda a gente cumprir, a coisa só pode melhorar…

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Já estou farto de ouvir aqueles áudios “olha, o meu cunhado tem um amigo que trabalha não sei aonde e manda dizer que…”. A sério, tenham calma, já passámos por isso e não é o caminho. Mais uma carta do português que está há oito semanas de quarentena, na província de Cantão, China

Boas tardes, concidadãos. Parece que o povo se está a preparar para aguentar o tranco. São boas notícias porque vos posso dizer que pior que o vírus em si é o blitzkrieg de informação que cai a todo o impiedoso segundo. Vão perceber que os vossos níveis de stress estão diretamente relacionados com o uso que fazem do telemóvel.

Quanto mais mais descerem nas profundezas da suposição e da desinfeção mais o vosso estado emocional se aproximará do curto-circuito. Até eu já estou farto de ouvir aqueles áudios: “olha, o meu cunhado tem um amigo que trabalha não sei aonde e manda dizer que…”. A sério, tenham calma, já passámos por isso e não é o caminho. O argumento do filme que estamos a atravessar já é suficientemente real, não precisa de mais efeitos especiais.

Os meios de comunicação também devem ter redobrada atenção a esta matéria. Ninguém está a pôr em casa a vossa liberdade de expressão, mas se calhar ajuda mais incidir no positivo e não antecipar incertezas, realçar investigações que supõem muito mais do que provam ou até dar voz a estudos demasiado manhosos para extrapolarem o Whatsapp.

Sinceramente, devo dizer que não estava à espera que o anterior texto que escrevi tivesse tanta repercussão, porque tendo em conta as vezes que abri o telemóvel e vi coronavírus em notícias, debates e opiniões pensava que cada português já tivesse material suficiente para fazer, pelo menos, uma pós-graduação na matéria e que, no terreno, houvesse uma preparação minimamente proporcional. Já escrevi noutro meio sobre a origem de toda esta trama, os loucos primeiros tempos de isolamento ou sobre a história do Dr. Li Wenliang. Mas também é verdade que, contando só desde que a quarentena começou aqui, os europeus estiveram um mês a ver o filme, que na altura até era um filme de rir, e quando ele estreou desse lado (apesar de já ninguém poder ouvir o nome) nem sequer os todo-perfeitos dos nórdicos adoptaram uma única medida que fosse.

Mas agora não é hora de encher a cabeça com nenhuma destas coisas, mas sim de encontrar e cumprir soluções para resolver a situação. Nem sequer vou discutir medidas como o facto de não se cancelarem todos os eventos de uma vez. Acho que o vírus não vai telefonar aos organizadores a dizer:“Ah, que pena, adoraria marcar presença no vosso evento mas não gosto de me propagar em locais com menos de uma centena de hospedeiros.” Sei que é uma situação nova para todos e as autoridades estão a dar o máximo e a fazer o melhor que podem.

Nestas coisas gosto de me focar no exemplo dos médicos. Nunca os ouvi perder tempo nem desgastar as forças que lhes restam com hipóteses ou conluios, tudo o que querem saber é das vidas que têm para salvar. Por isso, depois das autoridades competentes, aquilo que deve mesmo ser ouvido são os relatos do pessoal médico a quem este filme estoira diariamente nas mãos. Ouçam-nos, prestem atenção ao seu desespero quando exigem medidas ou mandam as pessoas despertarem de uma vez por todas, recolherem-se e protegerem-se a si e aos outros. Ninguém conhece melhor a realidade que estamos a viver do que eles.

É que agora já não há Chinas nem Itálias, a partir de agora já só há seres humanos a fazerem o melhor que sabem e a dar tudo o que podem em prol de algo muito concreto. E este exemplo, esta força, apesar dos dias de ansiedade e de prateleiras vazias, têm de admitir que tem um lado bonito de se ver.

“Para uma grande maioria de vós, pensem assim: o recolhimento é como se fosse domingo e os centros comerciais estivessem fechados”

Acho que é este o lado positivo que se retira dos tempos de cólera. São estes valores, estes gestos, estas pessoas que nos fazem acreditar que a caixa de Pandora ainda guarda, pelo menos, uma réstia de esperança para a Humanidade.

Esta foi forte. Mas ver os portugueses a aplaudir os médicos, os italianos nas varandas, a luta dos profissionais de saúde de todas as nações, um espírito de empatia sem filtros, é muito bom. Os italianos são um povo de raça, quando é preciso ir vão com tudo, não pensam duas vezes. Os espanhóis, estava a ver que não, mancaram-se, estão a recolher, não há povo mais callejero, nem mais ‘isto não vai bater aqui porque nós temos o melhor sistema nacional de saúde do mundo’ do que eles, mas chegaram ao inevitável. Sei que quem lhes tira a rua aos fins de semana e umas cañas ao fim da tarde, tira-lhes tudo, mas eles vão conseguir.

O português é outra história, o português tem que ir com jeitinho, tem que se ir convencendo porque para cada cabeça, há muitos milhares de sentenças. Tem de ir aos poucos, embora toda a gente saiba que acaba sempre por ir, mesmo que com aquele ar contrariado de quem não quer a coisa. Para uma grande maioria de vós, pensem assim: o recolhimento é como se fosse domingo e os centros comerciais estivessem fechados.

Qual é a outra alternativa para um domingo português? Exacto, sofá. É só isso. O recolhimento é ser domingo e vocês não se conseguirem desagrafar do sofá nem terem nenhum centro comercial para enfiar aquela cara de quem tem uma segunda-feira gigante prestes a roubar-lhe anos de vida. Nem mais, agora é só fazer umas pequenas alterações a esse figurino para ir ocupando os dias. Sinceramente, não sei porque há aí tanto drama em relação a ficar em casa. Atenção, é ficar em casa, não é ficar sem casa. Se o problema é uma pandemia a salto lá fora não estou a ver local mais seguro para se estar.

Procurem agarrar-se aos lados positivos da questão, aqui na China ao longo destas oito semanas o número de divórcios tem disparado absurdamente, sinal de que isto também pode ser uma excelente oportunidade para testarem o estado das vossas relações. Para quem tem crianças convém ter ainda mais reservas de paciência, independentemente de como se sentirem por dentro, comprar muita farinha para bolos e metade da papelaria para não faltarem canetas, folhas ou cartolinas. Se bem que quanto às cartolinas reciclar também vale, com os cartões dos rolos de papel higiénico que se açambarcaram dos supermercados dá para fazer bonecos e robôs durante os próximos anos.

Outra coisa, não sei se vão implementar aulas online mas não custaria muito. Dado que tanto professores como alunos vão estar em casa, sempre se aproveitaria o facto de qualquer criança saber usar um tablet desde os três meses de gestação para fazer outra coisa que não fosse ver vídeos de unboxing até à overdose. Não esperem que ocorra exactamente ao mesmo ritmo do que na escola, mas mantém as crianças ocupadas e a ir avançando numa altura em que é importante não perderem o fio à aprendizagem. Requer alguma organização e o auxílio dos pais neste processo, o que pode ser mais um bom desafio para se ter em casa durante os próximos tempos.

Quanto às pessoas de mais idade é preciso transmitir a importância do contributo de cada um para esta causa. Para alguns é difícil perceberem, são mais teimosos, mais calejados

Mas antes de ir embora queria aqui dedicar-me à necessidade de trabalhar a consciencialização de dois grupos da sociedade em particular: algumas pessoas de maior idade e uma certa malta jovem.

Quanto às pessoas de mais idade é preciso transmitir a importância do contributo de cada um para esta causa. Para alguns é difícil perceberem, são mais teimosos, mais calejados. Muitos têm o hábito enraizado de se reunirem para jogar umas cartadas, aqui na China também. As autoridades andaram a desmobilizá-los, não foi fácil e foi preciso muito altifalante pelas ruas para passar a mensagem. Já li que na Itália fizeram o mesmo. Lá está, o ser humano é igual em todo o lado.

Reparem, estes senhores mais experientes em Portugal dizem “ah e tal, porque eu comi muita sardinha a dividir por sete ou oito na infância, não é agora que uma gripe dos chineses me vai virar”. Mas na China é igual: “ah e tal, porque eu comi muita sardinha a dividir por vinte ou trinta na infância, não é agora que uma gripe dos americanos me vai virar”. Enfim, é preciso paciência, diálogo e muita Cristina Ferreira para lhes fazer entrar a mensagem. É que nisto do vírus também há os negacionistas por isso é que é há a necessidade premente de ir burilando muitas cabecinhas.

Bem, o segundo grupo a que eu me queria referir é uma certa juventude. Para começar são jovens, o que naturalmente lhes dá um grau de “estou-me a borrifar para tudo o que não dá likes no Instagram” que é difícil de combater. Depois, é complicado porque uma grande parte é malta que anda na universidade. Isto por si só deveria significar alguma coisa em abono dos próprios. No entanto, muitas vezes não significa, o que aliás é um paradoxo muito ao estilo negacionista. É preciso lembrar que os negacionistas típicos são essencialmente pessoas com grande poder, conhecimento e influência, mas que apresentam um discurso de QI nível caixa de comentários de notícias sobre governo, futebol ou outra coisa qualquer.

Neste caso do vírus certos jovens negacionistas insistem em dizer que têm mais que fazer do que perder tempo com gripes. Primeiro, temos de começar por lhes fazer entender que não convém andar por aí em excursão porque se a universidade fechou é porque foi alvo de uma epidemia mundial e não de uma desratização. Se necessário, traduzir em emojis que o vírus não é o Armageddon, mas também não é só um resfriado porque nunca se ouviu ninguém dizer que arrumou um resfriado à base de chá de limão e um par de antirretrovirais para o HIV. HIV que é aquela doença que ceifou grande parte das referências musicais que os seus pais apreciavam, mas que também continua muito viva por aí.

Além disso, devemos fazer-lhes compreender que não deve ser particularmente agradável para um doente crónico ou para alguém subitamente acossado por uma apendicite saber que não tem meios médicos disponíveis porque a malta esticou a corda até à bolha rebentar no SNS. Ou, por outras palavras, o pessoal se deixou arrastar até à última cerveja já depois do bar ter fechado portas. Em relação a esta franja ainda mais específica de uma certa juventude que além de negacionista é exibicionista, é preciso explicar ainda o seguinte: existem algumas culturas em que nos velórios as pessoas têm o hábito de se juntar para celebrar a vida, convivendo e bebendo umas cervejas à volta de defuntos. Celebrar a vida, seja de que maneira for, tem sempre um propósito digno de consideração.

O problema é que haja pessoas que contrariem a ordem de se juntar para celebrar somente a parvoíce, reunindo-se para beber cerveja à volta de um país em suspense, centenas de pacientes acamados e médicos semi-defuntos que nem sequer água podem beber para não terem de despir o aparato das desconfortáveis fatiotas no caso de quererem ir urinar. Jovens amigos, mais que não seja, acho que devem um pedido de desculpas a algumas pessoas e principalmente um grande pedido desculpas ao Cais do Sodré, que apesar de não ter culpa nenhuma lhe colaram um nível de vergonha alheia tão alto que atingiu aquele ponto em que nenhum português com um mínimo de decência deseja ser apanhado lá de copo na mão enquanto esta cena não desaparecer da memória colectiva. Se era para isso ao menos tinham ido para Albufeira…

Por último, acho que para ficarmos completos na arte do recolhimento falta aquela mãozinha com a meteorologia que só São Pedro sabe dar. Uma vez que são tempos particularmente dados à prece, era pedir-lhe que reduzisse a luminosidade do ecrã, mas sem baixar a temperatura. A temperatura parece que dá jeito, mas fica mais difícil de conter estas pessoas quando bate um solinho nas mesas de jardim ou nos areais da marginal.

Claro que nada disto é fácil para ninguém, principalmente na galopante fase inicial antes das medidas começarem a fazer efeito. Muita notícia, muita incerteza. Já vi pessoas saírem daqui para nunca mais e que agora estão desesperadas para voltar cá. É muita reviravolta no marcador ainda com tanto tempo para jogar. Aqui está a abrir, mas a batalha não pode esmorecer um milímetro. São oito semanas do que vocês estão a começar e não foi o fim do mundo, como não vai ser aí. Se toda a gente cumprir a coisa só pode melhorar, acreditem. Todos temos medos, mas todos temos de os enfrentar e como nem a Lua nem Marte são ainda opções para um short break, a casa de cada um, para os que têm a sorte de ter uma, é o sítio mais protegido para se atravessar a tempestade. Gosto de pensar que daqui a uns anos vamos estar a falar disto “lembras-te daquele ano do surto?” ou “lembras-te daqueles cinco anos dos surtos, para mim o segundo foi o mais complicado; não, para mim foi o quarto” ou então, melhor: “lembras-te daquele ano do Corona?; Qual? O gajo que jogou no Porto?; Não, meu…”. Enfim, venha o que vier é preciso contarmos uns com os outros, por isso agora é que é altura de afirmar com confiança e de dar um verdadeiro significado à expressão “estamos juntos!” Temos mesmo de estar, sem excepções.

Muita força para todos nós. Um abraço!

Fonte: Visão