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“Nós vivemos numa escola falhada. Ou queremos salvar todos e não salvamos ninguém” – Gabriel Mithá Ribeiro

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Em relação à autoridade, um dos ataques mais frequentes que lhe fazem, é por ter assumido que ‘se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para atuar, não dou aulas sem estar bem preparado, faço jogging. Tive um aluno que ficava à porta da sala a gozar, um dia agarrei-o com toda a força e rebentei-lhe a camisa e só não lhe bati’.

O episódio foi este: eu dava aulas numa escola na Margem Sul e de vez quando um aluno vinha e batia à porta e agitava a turma toda e depois era difícil começar a aula. Ele não era meu aluno, ele entrava e saía. Até que um dia ele entrou e por acaso eu estava ao pé da porta. Assim que ele entrou agarrei-lhe na camisa e rebentei-lhe a camisa. Ele saiu disparado e nunca mais perturbou a aula. Foi esse o episódio. Agora, esse episódio tem muito a ver com o falhanço grave do sistema de ensino. Eu trouxe isto em força aqui para o Chega. O que estamos a defender é que uma coisa é a sociedade, outra são as instituições. A sociedade é um espaço aberto, onde tudo pode ser negociado, livre, discutido, não há hierarquias, mas na instituição é o contrário, é um espaço fechado para ser gerido pelos agentes de dentro. Um sistema social equilibrado é aquele que sabe equilibrar a abertura da sociedade com o fechamento da instituição. No Chega nunca vamos recusar a democracia, o que nós estamos a dizer não é que a democracia falhou. O que nós estamos a viver é um falhanço grave de uma série de instituições. Família, escola, justiça, por aí fora. E porque é que estas instituições falharam? Falharam porque há valores como a autoridade, a hierarquia e a ordem que foram abandonados. Quando estes valores da sociedade absorvem as instituições, que é aquilo que temos hoje, nós temos uma democracia com tendências totalitárias. Quando os valores das instituições, que são estes da autoridade, hierarquia e ordem, invadem o espaço da sociedade, nós temos uma ditadura como a do Estado Novo. Equilibrar isto quer dizer que precisamos desesperadamente desses valores para contrabalançar a sociedade e a instituição.

Defende ou não castigos físicos na escola?

 

 

Isso foi uma aldrabice pegada. Foi o Bernardo Ferrão naquele programa o Polígrafo que veio dizer que eu defendo castigos corporais. Isso é uma mentira grosseira. Se há coisa que eu percebi, até porque estudei esse fenómeno em Moçambique, é fácil promover linchamentos quando a comunicação social se comporta dessa maneira. Se eu precisasse agora de dar aulas no ensino secundário com esse tipo de trabalhos jornalísticos a minha vida complicava-se. É uma grave irresponsabilidade pegar em meia dúzia de ideias e concluir isso. Para concluir que alguém defende castigos corporais eu tenho que fazer uma investigação a sério. Estou a fazer uma acusação pública. Quando entrei no Chega perdi algum espaço na comunicação social. Sou vice-presidente do partido desde 2020 e todos sabem que o que mais se faz desde essa altura é acusar o Chega de racismo. Mas o Chega tem um vice-presidente desde 2020 que é negro. Esse presidente fez uma formação específica na área do pensamento social. Tenho uma pós-graduação doutoral sobre relações raciais ou racismo. Não estou a tirar conclusões caídas do céu. Nunca fui chamado para nenhum debate.

Nunca bateu em nenhum aluno?

Não, nunca bati em nenhum aluno, isso claramente não. Mas já mais que uma vez forcei-os a sair da sala de aula. Temos que ser muito sérios neste tipo de debates. Nós vivemos numa escola falhada. Nas escolas onde dei aulas, praticamente todos os anos junto da direção da escola eu reunia os piores e os mais difíceis alunos, fazia uma turma de currículo alternativo, em que eu era diretor de turma e dirigia aqueles alunos. O objetivo é salvar alunos, porque muitos deles são pobres e não têm outra alternativa. Mas não sou romântico, temos que distinguir claramente aquilo que é uma decisão moral do que é uma convenção. Entregam-nos 15 alunos para sermos professores deles e tínhamos este dilema. Ou queremos salvar todos e não salvamos ninguém, nem a nós mesmos, ou para salvarmos a maioria temos que sacrificar dois ou três, porque são aqueles que impedem todos os outros de trabalhar. Foi sempre isso que fiz. Tive sempre turmas maioritariamente negras, tive alunos ciganos. Estou a falar de alunos que insultam e incitam à violência na escola, com facas.  Vivi neste ambiente e sei o que é preciso fazer para mudar isto. Dão-nos 17 alunos para a mão e o dilema é este. Vou salvar destes 17, talvez 15. Fiz sempre isso e consegui. Aqueles dois ou três que não se corrigem vou pô-los daqui para fora. E punha, mas salvava os outros 15. Isto é uma decisão moral que temos de tomar na nossa profissão, na nossa vida. Fui pobre, eu sei o que o ensino vale. Vivi numa barraca e tive de estudar no tempo em que, felizmente, não havia esta conversa do Bloco de Esquerda sobre as vítimas. O Estado português, às pessoas que estiveram nas minhas condições, sempre deu possibilidades de estudar e trabalhar como Moçambique não dava. Eu vivendo numa barraca sempre assumi a responsabilidade de ter que estudar e sei que resolvi os problemas por mim mesmo e ninguém me tratou como coitado. Na minha decisão moral nunca hesitei em pegar neste tipo de alunos e levá-los até ao fim. Fui um dos professores cuspidos na sala de aula e nunca me queixei disso. Raramente faço participações disciplinares. O Estado português em termos de autoridade institucional desceu ao nível do zero. Eu dizia aos alunos: ‘Tomo conta de vocês primeiro porque sou homem, segundo porque sou negro’. Numa turma maioritariamente negra vejo o que as professoras brancas sofrem. Qualquer reparo que façam a um aluno é logo racismo e isso comigo não pegava. Eu alegava essa cor de pele, a mim eles não me acusavam de racismo. E, portanto, conseguia pô-los na ordem, trabalhar com eles, ir a visitas de estudo, e tudo mais. Mas isso é uma decisão moral com a qual nos temos de confrontar hoje. Outra coisa é uma convenção. Que eu saiba Max Weber definiu o Estado como aquele que tem o poder coercivo legítimo. Se estou numa sala de aula, a autoridade sou eu. Se eu for chamar a diretora da escola ou uma funcionária para resolver um problema de indisciplina na sala de aula, nunca mais tenho autoridade sobre os alunos. Não tendo autoridade sobre os alunos, vou perder aqueles 15 ou 17 e eu mesmo vou entrar em estados de depressão e outras coisas.

Mas os outros que defendem o contrário dizem que não pode ficar ninguém para trás.

 

 

Isso é um debate político e ninguém é dono dele. Porque aqueles que não querem deixar os outros para trás, acabam por deixar todos para trás, porque depois ninguém pega neste tipo de alunos. São decisões difíceis e estamos aqui a ser um pouco levianos na forma como gerimos o sistema de ensino.

Entrevista completa no SOL