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“Não podemos prejudicar os alunos”…

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“Discordamos veemente, mas acabaremos por fazer…”

Costumamos demonizar os outros, mas, e paradoxalmente, esperamos que, de entre os outros, venha alguém com a capacidade de nos salvar…

 Continuamente, a classe docente parece esperar pela vinda de um Outro, Redentor, uma espécie de “D. Sebastião” ou de um “mahdi” que a salve, apesar de, e em simultâneo, os outros serem comummente olhados por si com uma certa desconfiança e algum descrédito…

 De modo geral, os outros não prestam; os outros não são fiáveis; os outros não são leais; os outros não são credíveis; os outros não são honestos; os outros não são competentes… E nós somos? Cada um de nós é?

 Demonizar os outros serve, quase sempre, como uma desculpa para não provocar agitações ou promover alterações e proporciona o “conforto” necessário para justificar grande parte da inacção e do silêncio… Apenas criticar os outros e não fazer nada para sair dessa “zona de conforto” é uma atitude que parece denotar cobardia. O “conforto” alcançado por essa via conduz à lamúria eterna, mas não à mudança… E a mudança dá trabalho, sabemos bem… Carpir mágoas e frustrações continuamente é muito mais fácil e muito mais cómodo do que encetar qualquer tipo de mudança no sentido de as evitar…

 Reclama-se (muito) “oficiosamente”, mas “oficialmente” os protestos ou as reclamações raramente são visíveis ou não se concretizam… Numa escola, quantas reclamações ou protestos são formalmente endereçados ao Conselho Pedagógico ou ao Conselho Geral por Grupos de Recrutamento, por Departamentos ou por alguém em termos individuais? Que adesão existe em cada escola para se contestarem determinadas medidas tomadas pelo Ministério da Educação, por exemplo sob a forma de recusa da sua aplicação?

 Nas escolas ocorrem, com alguma frequência, “pequenas” e “grandes” injustiças… Perante tais iniquidades, qual é atitude geral mais comum? Parece que só agimos e nos pronunciamos quando a nossa “própria pele começa a arder”… Até lá, costuma assistir-se ao “arder da pele dos outros”, quase numa perspectiva voyeurista e de forma mais ou menos plácida… E o pensamento implícito parece ser este: “Desde que não seja comigo…”

Enquanto o pensamento for esse, nunca a classe docente conseguirá alcançar os seus principais desígnios em termos sociopolíticos, desde logo os factores relacionados com a progressão na carreira, com os vencimentos, com o reconhecimento/estatuto social, com a estabilidade/segurança no emprego ou com as políticas do Ministério da Educação face aos professores …

 A atitude do Ministério da Educação relativa aos professores, frequentemente contestada, sobretudo por não os respeitar e não os ter em consideração, não pode deixar de ser explicada pela própria atitude dos docentes face a si próprios e face aos seus pares…

 A desunião e a falta de solidariedade entre professores são notórias e, sendo obviamente do conhecimento do próprio Ministério, tornam-se potencialmente utilizáveis e manipuláveis por este último… Tornou-se claro, nos últimos anos, que o Ministério tem sabido muito bem como capitalizar essa desunião, em prol da implementação das medidas por si pretendidas, mesmo das mais lesivas e injustas para a classe docente…

 O Ministério sabe muito bem que a classe docente tem sérias dificuldades em conseguir empreender acções consequentes e tangíveis, quer sejam individuais quer sejam de grupo profissional… O Ministério sabe muito bem que os professores dificilmente se rebelarão e que continuarão a fazer o que lhes mandam, ainda que pontualmente possam existir alguns esboços de protestos…

 Um dos principais argumentos apresentados pelos professores para não levarem a cabo protestos efectivos e visíveis prende-se, muitas vezes, com esta alegação: “Não podemos prejudicar os alunos”…

 Em primeiro lugar, de uma forma ou de outra, os alunos serão sempre prejudicados…

Em segundo lugar, não é possível, nem aqui nem noutro qualquer lugar do mundo, assumir lutas, contestações ou protestos concretos e consequentes sem que existam “prejudicados” ou “lesados”… É assim em todas as lutas, independentemente da sua natureza, e existirão sempre alguns danos colaterais… Se os trabalhadores da saúde ou dos transportes fizerem greve, obviamente que existirão sempre alguns lesados e prejudicados… Mas não poderia ser de outra forma…

Portanto, tal argumento aparece, mais uma vez, revestido por uma dose assinalável de “desculpas” para não se efectivar qualquer tipo de contestação visível e concreta…

Aliás, na classe docente as “contestações” mais comuns são aquelas que se fazem em surdina e num grupo restrito de pessoas… Para além disso, considera-se quase sempre que é ir longe de mais…

 Depois aparecem as questões relacionadas com a “opinião pública”, como se os professores não fizessem também parte da sociedade civil e não pudessem dar o seu contributo para a vox populi … Ouve-se muitas vezes: O que diria a “opinião pública” se a classe docente boicotasse a realização de exames ou se fechasse as escolas por tempo indeterminado, como forma de materializar eventuais protestos? A maioria dos professores não quererá sequer ouvir falar em “boicote de exames” ou em “fecho de escolas”, quanto mais participar numa luta desse género… Serão, por certo, encontrados todos os argumentos evasivos para que tal nunca se concretize, apesar das lamentações persistirem e de existirem motivos para uma luta séria e palpável…

 Discorda-se e reclama-se muito, mas poucos assumem e se responsabilizam por algum tipo de luta efectiva… E quando alguns o fazem, à partida, praticamente todas as lutas estão condenadas ao fracasso, por falta de adesão, sempre justificada pelos mais variados motivos…

Os protestos dos professores são quase sempre realizados de modo “brando e aveludado”, podendo traduzir-se por esta afirmação: “Discordamos veemente, mas acabaremos por fazer…”

Sublevações ou revoltas parecem não ser apreciadas pela classe docente que, aparentemente, prefere continuar a conformar-se, sublimando e recalcando o seu descontentamento e a sua indignação…

 Antes de se dirigirem (merecidas) críticas à Tutela, impõe-se, contudo, a resposta a uma pergunta: O que é que cada um está disposto a fazer por si próprio e pelos outros?

 As queixas recorrentes serão para levar a sério ou deverão ser relativizadas e interpretadas como um traço intrínseco e definitivo da classe docente?

 Dificilmente alguém levará a sério lamentos contínuos, mas inconsequentes… E isso é o que melhor serve ao Ministério da Educação…

(Matilde)

 

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