Início Educação Não faço greve, mas explico a razão. – Elisa Manero

Não faço greve, mas explico a razão. – Elisa Manero

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Já me perguntaram:

 

-Vais fazer greve?

 

Não faço greve, mas explico a razão.

Nessa altura, estava a lecionar em Sintra.

Recebi um email da minha Coordenadora,  teríamos  de fazer 7 horas diárias na escola. 

Um professor tem como funções  lecionar, estar nas reuniões ou preparar as aulas. Nas escolas não existem computadores, nem mesas de trabalho, nem gabinetes de trabalho para todos os professores em simultâneo.

Nesse dia decorria um pré- aviso de greve às reuniões finais de ano. No calendário, eu tinha reuniões até às 21h, porque durante o dia, os alunos tinham os exames.

Nessa altura eu tinha solicitado por escrito, a alteração da hora da reunião porque tinha dois filhos menores, com 4 e 7 anos a meu cargo e o meu marido estava em missão fora de Portugal, e não tinha família alargada para deixar os mesmos. Não obtive aprovação. Eu teria de estar na escola às 14h, para vigiar um exame.

Preparei o lanche e o jantar dos meus filhos, fiz umas sandes, sumos e água, meti na pasta  uma muda de roupa para cada um,  lápis e cadernos para pintarem e lá fui eu a caminho do IC19. 

Acabei por não vigiar o exame, porque disse que teria de ir com os meus filhos para dentro da sala de exames, e os meus filhos estiveram presentes na reunião. 

Lecionei nesta escola há dez anos, estive seis anos na mesma escola, foi até hoje a escola que mais gostei de lecionar. 

Falam da felicidade do trabalho, fui feliz nesta escola. Apesar deste  episódio, nunca me senti posta em causa, e a Diretora apesar de ser firme também era justa e cumpria a lei. Sempre tive direito a ter horário flexível por ter menores de 12 anos. Elaborei uma minuta para o efeito e divulguei através de uma página nas redes sociais.

Nos anos posteriores, tive oferta de procedimentos disciplinares, que nunca se concretizaram, por fazer o pedido por escrito de horário flexível por ter menores de 12 anos. Mas nem o delegado sindical, nem os professores mais velhos manifestaram a sua solidariedade, ou me ajudaram a enfrentar esses diretores. 

Alguns colegas em surdina disseram muitas vezes:

– Tens muita coragem.

– Não é coragem, é sobrevivência.- dizia eu.

Tive um Coordenador de Departamento que era um exemplo apesar de tudo, ele orientava e ajudava os seus Professores, o Coordenador Zé.

Todos os momentos de pressão, levam a pouca saúde.

Quando falam dos professores doentes, a verdade é uma, a  pressão é grande, muitos colegas aparecem para apontar e poucos para ajudar.

Os professores ficam doentes. Os sintomas começam na falta de sono e descanso, no aumento de peso e no aparecimento das doenças metabólicas.  

Neste momento, sou feliz na minha Escola, o meu Diretor além de se preocupar com os alunos, também olha pelos seus Professores na medida do possível, e os Coordenadores seguem o seu exemplo.

Como sou leal às pessoas mas fiel aos meus princípios, não farei greve.

Se quero diferente, faço diferente, na hora de votar, tento não cometer o mesmo erro.

Elisa Manero

 

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