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“Na vida, e nas lutas laborais, o que é altruísmo e o que é necessidade confundem-se”

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Na vida, e nas lutas laborais, o que é altruísmo e o que é necessidade confundem-se.

No limite a relação mais altruísta que há na natureza – a de uma mãe e o filho, em que ela arrisca a vida para o fazer nascer – e, mesmo na vida moderna, consegue fazer as coisas mais incríveis, arriscadas e por vezes perigosas, para o proteger (ou pensar que o protege), é também uma necessidade: de cuidar, de amar, de ser amado e cuidado (na velhice) de legar, ao género humano, um ser. Na greve dos professores não há nenhum oportunismo – há saber fazer contas, o Ministério não cede em nada, e as greves prolongam-se, se se prolongam os professores com salários de 1000/1500 euros não aguentam muitas vezes nem um dia de perda salarial. Os funcionários , por sua vez, com 700 euros, e na sua maioria essenciais mas com menos qualificações, são os mais descartados e desconsiderados, e jamais com esses salários aguentam uma greve.

Foi preciso chegar a 2023 para ver um dirigente sindical do STOP dizer “Entramos para negociar com o Ministro mas entramos todos juntos, nós professores, técnicos e funcionários, isso é histórico”. Eu não diria histórico, diria ufa finalmente alguma coisa normal, alguma coisa de esquerda foi dita! E só é admirável porque chegámos a um tal grau de falta de exigência que temos que nos admirar com o óbvio. Com o mínimo.

O que não é tão admirável é a quantidade de vozes públicas que, sem coragem para estarem contra a greve dos professores, dizem estar a favor desde que a greve…não exista. Não seja greve, não pare as escolas, não prejudique os alunos, não tenha fundos de greve, não tenha solidariedade entre sectores. Greve sim, desde que não tenha efeito algum, em suma. Se tiver criminaliza-se ou impõe-se serviços mínimos, isto imposto por um Estado que não cumpre os mínimos com crianças e jovens há décadas, desde logo porque não cumpre os mínimos com os profissionais da educação, apesar de pagarmos impostos em valores indecentes. Dos oportunistas que ganham milhões (públicos e publicados todos anos em “balanços positivos”, ou “regresso ao lucros”) em distribuição de dividendos pagos com os nossos impostos não rezam as crónicas. E quando ousamos questionar explicam-nos que “há um risco sistémico”, ” a UE não deixa”. Aos professores a dureza das palavras, aos carrascos do Estado Social o encolher de ombros.

O primeiro sindicato nos EUA a permitir e incentivar negros a sindicalizarem-se era dirigido por um comunista romântico Eugene Debs – uma das mais fascinantes figuras de sempre do movimento sindical. Era genuinamente anti racista, mas cedo percebeu, ele e todos, que ou havia solidariedade entre trabalhadores brancos ou os negros iam ser os furas greves dos brancos. Era uma resposta solidária e necessária. Toda a solidariedade é uma necessidade.

 

Foi muito bonito, quase emocionante, ver funcionários tão maltratados defendidos por professores. Onde alguns, poucos é verdade, viram oportunismo eu vi decência. Indecente seria cederem na luta entregando os funcionários, como no passado tantas estruturas sindicais entregaram os precários, ou ignorá-los, como continuam a fazer a maioria dos sindicatos. A divisão de categorias tem sido um dos problemas centrais da degradação dos locais de trabalho – há uns anos um médico esperou-me 20 minutos porque não havia um maqueiro para me levar a ele…A desgraça de uns é de todos, o fundo de greve é a lógica da solidariedade. E da necessidade.

 

Que esta solidariedade seja reduzida a “estão a usá-los” diz-nos duas coisas de quem pensa assim: que nada sabem de história das greves, e que acham que os funcionários são todos estúpidos, e manipuláveis e os professores oportunistas manipuladores. Diz-nos o que pensa quem está contra o fundo de greve dos trabalhadores menos qualificados – que não são sujeitos das suas decisões, mas uma massa amorfa. Que os “professores têm muita razão” mas “são uns canalhas que abusam dos funcionários”. Diz-nos em suma que a soberba e a ignorância são como o altruísmo e a necessidade – andam quase sempre juntos.

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