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Ministério não criou orientações específicas face à pandemia e há escolas com critérios muito díspares

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As escolas têm autonomia para decidir como vai ser feita a avaliação dos alunos e há casos, na mesma cidade, onde os critérios são substancialmente diferentes.

Na Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra, o terceiro período vai contar 10% para a classificação final; na Secundária Infanta D. Maria, a poucos metros de distância, será 25% e pode haver testes feitos em casa. Os professores admitem que há o risco de alunos serem beneficiados e que mais valia o Ministério da Educação dar uma orientação global.

Tendo em conta as desigualdades entre alunos que o ensino à distância tornou ainda mais visíveis, Helena Loureiro, professora da Avelar Brotero, defende que a tutela devia ter dado “orientações muito específicas” às escolas para que a avaliação sumativa do 2.º período correspondesse a 90% da classificação final e os restantes 10% fossem calculados com base nas atitudes e valores, das aulas à distância do 3.º período. “Na escola ao lado da minha [Infanta D. Maria], os professores vão fazer avaliação sumativa no ensino à distância. Fazer testes através de videoconferência não é rigoroso, nem é justo”, defendeu ao JN.

“A avaliação cognitiva online é muito pouco credível, porque não sabemos se os testes são feitos pelos alunos”, confirma Manuela Carvalho, docente na Secundária Infanta D. Maria. “A avaliação no 3.º período devia ser formativa ou ter influência só na classificação daqueles alunos com um desempenho excecional nas aulas online”, argumenta.

Os computadores sem câmara são um motivo adicional de preocupação: receiam que os alunos mais fracos tenham a tentação de copiar. “O ME demitiu-se daquilo que devia ser ele a fazer. Devia ter definido critérios de avaliação iguais para todos, de modo a que nenhum aluno fosse prejudicado”, defende.

TESTES FEITOS À DISTÂNCIA

Adjunto da direção da Infanta D. Maria, Licínio Jesus explica que metade dos 25% da nota do 3.º período será calculada com base no “domínio cognitivo”, que pode incluir testes, e a outra metade com base no comportamento. “É claro que não conseguimos controlar se os alunos fazem consultas nos testes. Se numa aula, por vezes, é difícil, quanto mais em casa”, observa. Recusa, contudo, que a intenção seja inflacionar as notas.

“Nunca foi nosso objetivo melhorar as classificações internas. Muitas vezes, as classificações nos exames até são superiores às classificações da escola”, garante. “Já antes da pandemia, não havia critérios idênticos nas escolas, porque as realidades são diferentes.”

Subdiretor da Secundária Avelar Brotero, António Miranda revela que contactou as “escolas na envolvente”, na tentativa de “uniformizar procedimentos para mitigar os efeitos discrepantes da pandemia”. No entanto, não conseguiu chegar a consenso no sentido de reduzir o peso do 3.º período na classificação final. “Não tenho dúvidas de que isso se vai repercutir nas notas finais de acesso ao ensino superior”, afirma. “Uns alunos vão ser prejudicados e outros vão ser beneficiados”.

Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática, defende que no 3.º período nem deveria haver matéria nova. Filomena Viegas, da Associação de Professores de Português, admite que haverá alunos “prejudicados” por causa destas disparidades.

Ministro promete mais inspetores e auditorias

O ministro Tiago Brandão Rodrigues vai mobilizar mais inspetores, para averiguar se houve classificações inflacionadas nas escolas. “Por um lado, haverá auditorias aos critérios de avaliação interna de cada uma das escolas, incluindo nos casos do ensino à distância”, explicou ao Público e à Renascença. “Por outro, registos claros de avaliação dos 1.º e 2.º períodos de cada um dos alunos, para entendermos exatamente [o que se passa]. Esta análise vai levar a ações disciplinares ou a recomendações.”

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