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Médica de Lisboa telefonou 44 vezes para a Linha de Apoio. Não teve resposta

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São às dezenas os relatos de desespero de médicos de família que não estão a conseguir o apoio necessário da linha dedicada ao Covid-19, acionada pela Direção-Geral da Saúde (DGS) para apoiar a validação de pessoas com suspeitas de infeção, que estão a chegar ao Sindicato Independente dos Médicos (SIM). A ausência de resposta agrava-se com as instalações insuficientes em muitas unidades de cuidados primários em todo o país, que na falta de salas e sanitários exclusivos para o isolamento de doentes estão a utilizar casas de banho.

“Na segunda-feira, recebemos dois doentes, mãe e filho, com tosse e vindos do Norte de Itália. Tinham estado na Urgência do Hospital de São José [Lisboa] e foram encaminhados para a nossa Unidade de Saúde Familiar (USF) [Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Odivelas], com uma carta a pedir o isolamento em casa durante 14 dias porque a linha SNS24 não tinha validado os seus casos. Estava de urgência e dei instruções para ficarem no isolamento — uma casa de banho para os utentes e que preparámos para o isolamento, com uma cadeira, bolachas e sumos, mas sem telefone, como estão a fazer muitas outras unidades e como já tínhamos feito durante a pandemia de gripe — e comecei a tentar contactar a Linha de Apoio ao Médico (LAM), eram 11h55. Fui atendida ao oitavo telefonema por uma enfermeira, que ficou com os dados dos doentes, o meu contacto e número de cédula profissional, e fui falando com os doentes por telemóvel.”

A médica de família do agrupamento de saúde Odivelas conta ao Expresso que às 15h30 continuava sem qualquer indicação, exceto que a enfermeira iria enviar um email ao médico. “Fui sempre tentando e ao 28º telefonema repetiram a mesma conversa. Os doentes não quiseram esperar e às 16 horas foram para casa. Passei-lhes uma baixa normal, que já enviei por correio, e informei tudo por escrito. No dia seguinte, ontem, terça-feira, voltei a telefonar para a linha a dizer que os dois doentes tinham o critério clínico e epidemiológico e que tinham ido para casa, mas só voltaram a pedir os dados. Também telefonei aos doentes para saber como estavam e também não tinham sido contactados. Voltei a contactar a linha. Ao todo liguei 44 vezes, e hoje, quarta-feira, ainda não tive resposta.”

Ainda naquela unidade registou-se outro caso. “O nosso ex-coordenador regressou da Áustria e, já cá em Portugal, recebeu um email a informar que tinha sido detetado um caso positivo no hotel durante o período em que lá tinha estado, pedindo-lhe que contactasse as autoridades de saúde portuguesas. Ele tentou mas também ainda está à espera. Decidiu voluntariamente ficar 14 dias em casa.”

INEM SEM AMBULÂNCIA

Mais a norte, em Santo Tirso, o silêncio dos médicos de apoio foi semelhante. Ontem, terça-feira, chegou ao SIM outro pedido de ajuda. “Estou há três horas com um doente fechado no consultório. É funcionário do aeroporto, teve na última semana contactos próximos com tripulantes e viajantes de voos da China (com três pilotos), Valência, Paris, Londres, Rússia e Alemanha. O colega de trabalho iniciou sintomas no sábado e sabe que foi hoje (terça) validado. Ele entrou polipneico [respiração rápida e ofegante], a dessaturar por períodos [com baixo oxigénio], com febre, sudorético, olhos encovados, tosse seca e ar cansado. Só pede para estar semideitado e não há como ter resposta da LAM. Fechamos às 20 horas, o doente não está em condições clínicas de ir para casa, tem alterações auscultatórias… A saúde pública tem ajudado de forma exemplar no que pode localmente, mas não consegue ultrapassar a linha. Ligo a mais quem?”

A resposta chegaria horas depois. “Finalmente, às 19 horas conseguimos a validação do caso mas agora não há previsões para o transporte, pois o INEM não tem ambulâncias disponíveis nem sabe dar previsões do tempo de espera. Não jantámos, nem temos como, mas o doente está orientado e estável. A nossa equipa mantém-se unida e até agora em permanência na USF e até que o INEM chegue e faça o transporte em segurança. Confesso que estamos exaustas e com fome…” A situação acabou por ser resolvida já noite, perto das 21h30.

Também na noite de terça-feira, outro médico fazia um desabafo num grupo no WhatsApp. “A propósito do Covid-19, alguém já ligou para a LAM? Conseguiram falar com o médico? Liguei hoje pelas 13 horas, fui atendida por uma senhora enfermeira que recolheu toda a informação e pediu para esperar, porque ia passar ao médico, e depois de largos minutos em espera informou que o médico não estava a atender, mas que entraria em contacto comigo para o número de telemóvel que deixei. São 20h55 e nada!!!”

INTERNOS NA LINHA DE APOIO AOS MÉDICOS

Os responsáveis conhecem as dificuldades mas “o reforço prometido pelo Ministério da Saúde pode revelar-se pior” do que a demora ou o silêncio, garante o secretário geral do SIM, Jorge Roque da Cunha. Do outro lado da linha para esclarecer as dúvidas dos médicos de família ou hospitalares podem estar “internos do 4º ano”, como é explicado numa nota enviada pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo a 26 de fevereiro.

No documento, a que o Expresso teve acesso, é referido que vêm “apelar à colaboração para a constituição de um grupo de médicos que possa assegurar a Linha de Apoio ao Médico, situação que é URGENTE resolver. Trata-se de assegurar dois turnos diários, das 8h às 20h e das 20h às 8h, com dois médicos em cada turno”. É explicado que “os médicos (podem ser internos do 4º ano) que asseguram esta linha não têm de estar em nenhum lugar referenciado, apenas têm de assegurar o atendimento do telemóvel pessoal” e que “o pagamento é assegurado em horas de prevenção”.

Os responsáveis acrescentam ainda que “desconhece-se o tempo durante o qual será necessário assegurar esta linha”, pelo que, “de modo a não sobrecarregar os médicos, estamos a solicitar que nos seja disponibilizada uma lista com cerca de dez médicos por ACES”, permitindo “condições para assegurar que cada médico fará apenas um turno por mês”. Pelos congestionamentos atuais na LAM, a adesão não terá sido a desejada.

O SIM já reagiu e numa carta enviada à ministra da Saúde, Marta Temido, afirma que a comunicação interna recebida é de “bizarro teor” e reveladora do “fito, como que usurário, de toda a operação: disponibilizem-se os trabalhadores médicos que destarte hão-de permitir dar uma certa aparência pública da grande prontidão do Serviço Nacional de Saúde, seja lá isso o que for, que a coisa ainda assim se fará na versão mais baratinha”. E diretamente criticam Marta Temido: “Não senhora ministra, o SIM não pode pactuar com estas engenharias, nem calar os atropelos que, em nome de situações inominadas, mas de grau dito à última hora como muito ‘URGENTE’, apenas revelam cruamente a leviandade de quem não sabe prever nem aplicar as medidas necessárias na proteção das populações e dos profissionais que as acodem e as tratam, a não ser mediante expedientes que violam os direitos elementares de quem trabalha na primeira da defesa da saúde dos portugueses.”

Fonte: Expresso

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