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Marcelo defende escolas fechadas até à Páscoa. Governo espera (mas para já não abrirá nada)

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Oassunto constou da última reunião semanal entre o Presidente da República e o primeiro-ministro, quinta-feira passada, no Palácio de Belém, quando António Costa partilhou com Marcelo Rebelo de Sousa que a reabertura das escolas terá sempre que estar no topo das prioridades para desconfinar. A tese circula há semanas dentro do Governo e a confirmação oficial chegaria no sábado, pela voz da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, numa reunião com jovens socialistas. Mas o entendimento do Presidente é que essa prioridade só deverá acontecer depois da Páscoa.

 

Na opinião de Marcelo – que, sabe o Expresso, estranhou ouvir a ministra falar de prioridades para desconfinar apenas dois dias depois do chefe do Governo ter associado o tema do desconfinamento a meras especulações – o problema não são tanto os alunos, é a circulação de pessoas e a multiplicação de contactos que o regresso às escolas, ainda que só no pré-escolar e no primeiro ciclo, acaba por provocar, sem que haja ainda uma testagem massiva. Foi, por isso, com conforto que o Presidente ouviu vários especialistas convergirem, esta segunda-feira, na reunião no Infarmed, na previsão de que só em finais de março o número de internamentos em cuidados intensivos deverá ficar abaixo dos 200.

Nessa altura, com as férias da Páscoa marcadas para de 29 de março a 1 de abril, seguindo-se a sexta-feira santa e o fim de semana pascal, Marcelo Rebelo de Sousa entende que mesmo que os números da pandemia ultrapassem pela positiva as previsões dos especialistas e que a meta dos menos dos 200 internados em UCI chegue antes do fim de março, é melhor ter calmaAbrir as escolas nessa altura para as voltar a fechar ao fim de uma semana, é um cenário que, a ser decidido pelo Governo, não agrada ao PR.

Foi essa a fasquia – 200 internados em cuidados intensivos – que o Presidente da República apresentou ao país na semana passada quando, após ter pedido ao Governo um plano faseado para o desconfinamento e de o primeiro-ministro lhe ter respondido que era prematuro falar nisso, ele próprio decidiu avançar com um critério. A saber: que só se poderia voltar a abrir o país quando o número de infectados descesse para menos de dois mil, o de internados para 1250 e o de internamentos em UCI para 200.

O inspirador tinha sido Manuel Carmo Gomes, o epidemiologista que bateu com a porta do Infarmed com críticas ao Governo e que o Presidente decidiu adotar como exemplo a seguir. E ao definir balizas, Marcelo Rebelo de Sousa acabou por condicionar as decisões que o Governo venha a tomar nas próximas semanas. Tanto mais que o que o PR pediu não foram apenas números muito mais baixos do que os atuais. Pelo contrário, disse que “a redução não basta: tem de envolver uma “estabilização sustentada, duradoura, sem altos e baixos [dos números]”, para não se correr o risco de ser “mais um desconfinamento entre duas vagas”.

PRIORIDADE: RECUPERAÇÃO PARA MOSTRAR LÁ FORA

Evitar precipitações parece ser, desta vez, a palavra de ordem partilhada por Marcelo e Costa, muito atentos à necessidade de, em plena presidência portuguesa da União Europeia e com três cimeiras importantes na agenda já para finais de maio e princípios de junho, recuperar da forma mais credível possível a imagem do país no que toca à gestão da pandemia. E isso, como sublinham em Belém, só é possível “com uma recuperação sustentada e números fantásticos”.

Esta segunda-feira, o Presidente da República levou três recados à reunião do Infarmed. Primeiro: puxou pela “importância do aconselhamento científico de dezenas de especialistas”, que classificou de “ajuda essencial para refletirmos sobre o futuro próximo e o imediatamente subsequente”, e assim tentou reparar a ideia deixada pelo primeiro-ministro na semana anterior de que faltava consenso nas hostes.

Segundo: Marcelo insistiu que o que importa reduzir se queremos pensar em desconfinar “não é apenas o número de casos Covid mas, de forma muito especial, a sua incidência nos internamentos”.

E terceiro: que prevendo-se no segundo trimestre do ano um aumento significativo de vacinas, deve-se avançar “para um modelo de vacinação compatível com essa elevação de oferta, ou seja um modelo diferente” do atual.

Como já explicou o novo presidente do plano de vacinação, isso significa ir além dos Centros de Saúde e do SNS, com recurso aos farmacêuticos.

Do que Marcelo não falou foi da testagem, que na semana anterior tinha alertado ser vital reforçar, bem como as equipas para garantir um rastreamento eficaz dos contágios. Mas o tema promete estar presente nas reuniões que o PR terá com os partidos esta terça e quarta-feira. E é já amanhã que a DGS começa a implementar a nova estratégia de testar também os contactos de baixo risco. Segundo a ministra da Saúde, estará mais a caminho: a DGS prepara também uma normativa sobre testes de saliva por PCR, que permitirá massificar a testagem, por exemplo, nas escolas (quando reabrirem).

GOVERNO SINALIZA PACIÊNCIA

O Governo já tinha dados sinais de que o confinamento seria para durar. Mas esta segunda-feira, no final da reunião do Infarmed, a ministra da Saúde reforçou essa ideia: “Independentemente de o desconfinamento estar a ser discutido, este ainda não é o momento de falar de tempos e de modos”, disse Marta Temido aos jornalistas.

Para já, é certo que “no horizonte da próxima quinzena ainda há que manter as atuais medidas”, diz uma fonte do Executivo ao Expresso.

Mas as projeções divulgadas esta segunda-feira confirmam que o só muito dificilmente haverá qualquer margem para dar qualquer passo de abertura antes da Páscoa. O primeiro foi a tal projeção de Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, de que a meio de março o país ainda estará próximo dos 300 casos em Cuidados Intensivos; o segundo o alerta de João Gouveia, coordenador da Resposta em Medicina Intensiva, de que a situação do SNS só será sustentável se tiver 285 camas livres para tratar covid – e com os novos contactos muito controlados.

À saída da reunião, Marta Temido frisou duas vezes este dado, lembrando que neste momento esse é, ao invés, o número de camas disponível para tratar todas as outras doenças (quando deviam ser mais de 700). E ainda sublinhou o que disse João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, que alertou para a certeza de que, uma vez levantado o confinamento, as novas estirpes da covid-19 voltarão a espalhar-se com enorme velocidade.

Temido ainda avisou, por isso, que as restrições são para manter nas próximas semanas e que o país não pode correr o risco “de passar de um extremo para o outro”. Para ser secundada pelo o secretário-geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, que levava mensagem estudada: o confinamento tem de continuar para “não se deitar por terra” tudo o que tem sido feito e só em meados de março se poderá perspetivar as condições em que poderá acontecer o desconfinamento.

António Costa, que todos na reunião anotaram ter ficado em silêncio na reunião, foi depois por cima com um simples tweet, corroborando a mensagem de prudência:

Para já, até à próxima reunião (daqui a 15 dias), Costa esperará que o grupo de peritos que designou lhe entregue critérios para começar o desconfinamento, mas também para definir que medidas devem ser executadas e quando sempre que houver novo crescimento de casos. A ordem continua a ser para resistir.

OPOSIÇÃO JÁ INQUIETA

A oposição contesta, contudo, a estratégia. À esquerda e à direita, os partidos defendem a necessidade de se começar desde já a preparar o plano de desconfinamento. “Para que se faça um desconfinamento gradual e conhecido antecipadamente é necessário haver uma métrica e um planeamento. O planeamento deve ser feito rapidamente, de modo a que os portugueses saibam com tempo o que se vai passar nas suas vidas”, disse o deputado do PSD Maló de Abreu.

Salientando a descida do número de infeções, a porta-voz do CDS-PP, Cecília Anacoreta Correia, defendeu que o esforço dos portugueses está a ser compensado e que é altura de o Executivo começar a planear detalhadamente o desconfinamento. “O sucesso do desconfinamento depende essencialmente do que o Governo seja capaz de fazer e de preparar para controlar a pandemia num contexto mais aberto da sociedade”, observou a porta-voz dos centristas, defendendo já o regresso às aulas presenciais até aos 12 anos a partir do próximo decreto do estado de emergência.

Já o líder da Iniciativa Liberal (IL) acusou o Governo de “falta de sentido de urgência” no combate à pandemia, manifestando dúvidas sobre a capacidade de rastreamento à covid-19. Segundo João Cotrim de Figueiredo, só se poderá “esperar que o resultado do próximo desconfinamento seja o mesmo”, alertando para a provável subida do número de casos após o regresso à ‘nova normalidade’.

Na mesma linha, André Ventura voltou a acusar o Executivo de “falta de preparação” no combate à pandemia e apelou à injeção de liquidez nas empresas face ao adiamento do desconfinamento. “Neste confinamento quase absoluto e sem perspetivas de desconfinamento pedimos então apoios até 70% da faturação que estas empresas têm perdido para as conseguirmos fazer sobreviver”, afirmou o deputado do Chega.

À esquerda, o dirigente do PCP, Jorge Pires, considerou que a evolução positiva da covid-19 só reforçou a ideia de que é altura de se elaborar um “plano sério” e “gradual” de desconfinamento, apontando também para o “descontentamento” geral e crescente dos cidadãos face às medidas restritivas.

Sem pressionar um desconfinamento, o Bloco de Esquerda, Moisés Ferreira pressionou o Governo no plano dos apoios, por “não estar efetivamente a corresponder a este esforço que população está a fazer”. Apontando para a baixa execução orçamental, o deputado bloquista criticou que em anos de pandemia, o Executivo poupe verbas que devia canalizar para o reforço do SNS, bem como para apoios para as empresas e famílias. “Enquanto tiver que haver medidas de restrição, o Governo não pode estar a poupar à custa das vítimas da pandemia”, reforçou. Moisés Ferreira concordou ainda com a necessidade de o país intensificar a testagem e capacidade de rastreamento à covid-19, de forma a se “antecipar” ao vírus e não apostar em medidas reativas.

Já a líder parlamentar do PAN, Inês de Sousa Real, admitiu que não se podem aliviar já as medidas de restrição, mas considerou que é essencial é que da mesma forma que se preparou o confinamento que se planeie desde já e de “forma eficiente” o desconfinamento. Para a dirigente do PAN, o plano de desconfinamento deve assumir as “diferenças regionais” ao nível da evolução epidemiológica e ter como “aliados” o plano de vacinação e uma campanha de testagem “mais generalizada”, dando prioridade à reabertura do “pequeno comércio” e “pequenas empresas”, mais afetados pela pandemia.

Expresso

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