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Inteligência emocional nas escolas – a chave para a prevenção do bullying – Eva Brás Pinho

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Há dias, o país confrontou-se com um vídeo no qual assistimos ao atropelamento de um jovem quando tentava afastar-se de colegas que o perseguiam. Despertou, assim, o país para uma problemática há muito discutida e, infelizmente, longe de estar resolvida.

Este fenómeno traduz-se em atos reiterados de violência física ou psicológica contra uma vítima. Tratando-se sempre de atos violentos, no corpo deixam marcas externas, mais que evidentes e alarmantes; mas a violência psicológica, não menos perniciosa, enraíza feridas profundas, muitas vezes recalcadas, que impactam o desenvolvimento, criando cicatrizes e perturbações que, por vezes, subsistem até à vida adulta.

Embora os dados da GNR indiquem que este fenómeno afetou mais de 5.600 crianças em 2020, importa reconhecer que as induções retiradas de dados estatísticos provenientes das ocorrências reportadas não são rigorosas, nem 100% confiáveis, sendo muito provável que os números sejam mais elevados. Ou seja, pecam por defeito.

O medo que as crianças têm de relatar a situação que estão a sofrer, cumulado com a inoperância e incapacidade das escolas para oferecerem uma resposta eficaz aos casos reportados, desencoraja qualquer tipo de denúncia. Tendencialmente, o reporte apenas piora a situação: seja porque os professores e auxiliares não podem acompanhar as crianças a cada segundo do seu intervalo, seja porque, normalmente, agudiza a situação de sofrimento da criança, que sofre a retaliação dos bullies.

Em consequência do vídeo viral, gerou-se uma onda de censura nas redes sociais. As partilhas, comentários e ilações sobre a dita agressora são dirigidas a uma criança que, com 13 anos, se vê comentada por toda a internet. Invertemos papéis. Aqueles que se chocaram com o impacto que o bullying pode ter na vida de uma criança, criaram uma nova vítima, desta feita, de cyberbullying.

Em todo o jovem agressor há também uma vítima da sua insegurança, da sua falta de autoestima, da sua própria incompreensão, das suas circunstâncias familiares e do que observa. As crianças não nascem más e é urgente parar com a lógica de desresponsabilização dos educadores. Não são “cruéis”. Reproduzem e aprendem o que observam. Salvas raras e excecionais patologias, que o comum dos utilizadores das redes jamais pode aferir, as crianças são produtos de aculturação. Seja porque na sua realidade a violência é normalizada, seja porque convivem com figuras de autoridade que se impõem pela humilhação e pela inferiorização daqueles que têm ao seu cuidado. A mensagem que se transmite é simples: a vulnerabilidade pode ser explorada, permitindo a imposição da vontade do mais forte.

Para evitar erradas interpretações, clarifico:

Não desculpabiliza, não justifica nem tão pouco desresponsabiliza. Devem ser consciencializadas das consequências dos seus atos.  Não obstante, se o que se deseja é uma mudança estrutural no comportamento, castigos e repreensões não são suficientes. Exige-se educação, diálogo e, acima de tudo, precisamos de ajudar a criança a compreender-se a si, aceitar-se como é, aceitando que a diferença no outro é algo positivo.

Assim, se por um lado o bully assume um comportamento aparentemente confiante, perseguindo, humilhando, excluindo dos círculos sociais e por vezes agredindo fisicamente, a vítima assume um papel mais passivo, incapaz de fazer frente ao seu agressor. O denominador comum? A falta de autoestima em crianças com muita imaturidade ainda, tornando-as incapazes de gerir emocionalmente o que sentem e procurar formas saudáveis de reação.

A vigilância próxima e atenta por parte da comunidade escolar é essencial, evitando a habitual inoperância e ineficácia da resposta dada pelas escolas, criando mecanismos de prevenção e de proteção da vítima. Tal deve partir do incentivo aos colegas que observam a denunciar as situações, em espaços reservados, que os protejam de ser vistos como os “queixinhas” e, consequentemente, as próximas vítimas.

As ações de sensibilização para o bullying são um primeiro passo (há demasiado tempo e com poucos resultados), o que obriga a concluir pela sua incapacidade para, efetivamente, tocar os jovens que encontram nestas sessões uma oportunidade para “fechar os olhos” entre aulas.

Ao invés de culparmos a alegada maldade intrínseca das crianças, como se de uma fatalidade se tratasse, orientando exclusivamente as respostas para mecanismos de sanções, controlo e medidas disciplinares, precisamos de ir à raiz causadora dos episódios de bullying: a falta de gestão emocional das crianças e jovens.

Sentir faz parte da vida e saber fazer as pazes com quem somos é o ponto de partida. As crianças sentem tudo, com muita intensidade, e aquilo que precisam é de aprender a gerir tudo o que sentem. Compreendendo as suas próprias emoções, relacionam-se com as dos colegas. Sentindo o outro. Caminham, assim, para uma relação saudável e empática.

Desta forma, construímos um mundo mais tolerante, mais positivo, mais empático. Um mundo que aceita a diferença e a abraça. Um mundo que reconhece que a individualidade de cada um é uma gota num oceano imenso, mas que todas as gotas acrescentam, têm valor e são preciosas.

Ensinamos inteligência emocional às crianças de hoje, e com elas construímos o futuro.

Observador

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