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“Hoje, quando entrei na escola, encontrei uma personagem curiosa e de quem já tinha saudades! O Principezinho!”- Amélia Rodrigues

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Hoje, quando entrei na escola, encontrei uma personagem curiosa e de quem já tinha saudades! O Principezinho! Sim, aquele de Saint- Exupéry e que, em algum momento da nossa vida, nos visitou e encantou!
Perguntou-me pelo seu amigo aviador e quis saber que espaço era aquele onde estávamos; respondi-lhe que nada sabia do aviador e que nos encontrávamos numa escola. Mas, quem é esta gente toda? – quis saber. Maioritariamente, professores, mas também técnicos administrativos, técnicos superiores, assistentes operacionais… hoje, não estão os alunos, porque as aulas ainda não começaram, esclareci-o. “E o que fazem tantos professores neste espaço?”, perguntou.
– Sabes, os professores são os pilares de uma sociedade, são muito importantes, pois são eles que formam todas as outras profissões. São os responsáveis pela formação das crianças, dos jovens…A escola é o lugar do SABER e o SABER é o que de mais precioso e poderoso o ser humano tem; é com aquilo que sabe que, depois, o Homem tem a possibilidade de transformar o mundo num lugar melhor. José Saramago, o patrono desta escola, disse um dia que o professor tem de ir bem alimentado para a escola, porque tem o “duríssimo trabalho de plantar árvores ou simples arbustos da sabedoria em terrenos que, na maior parte dos casos, puxam mais para o sáfaro que para o fecundo”.
– E o que é sáfaro?
– Quando um terreno é sáfaro quer dizer que é árido, estéril…
– Ah! Então o professor é aquele que luta para transformar qualquer terreno num campo de flores, depois cuida delas (como eu, no meu planeta, cuido da minha rosa) e elas cativam-no e ele cativa-as para que transformem aquilo que aprendem numa sociedade melhor! Estou a perceber! Os professores devem ser muito respeitados e queridos neste planeta! Vamos ver se percebi bem: os médicos que cuidam dos pacientes, que salvam vidas, os engenheiros, que edificam estradas, pontes e edifícios, os contabilistas, os secretários, os informáticos, os juízes, os ministros…todos aprenderam na escola! Sim, não há dúvida, os professores são muito importantes, imaginemos que não havia professores, ou que não se preocupavam em transformar os campos sáfaros em campos férteis! Seria muito mau, muito triste, o caos!
Certamente, todos reconhecem essa importância! Deve haver muitos habitantes do teu planeta a quererem ser professores, de certeza, uma vez que é uma profissão tão bonita, tão nobre, com tanto valor!
Aqui, senti que os meus olhos deixavam transparecer alguma tristeza.
– Não, nem sempre é uma profissão valorizada e, principalmente, por quem o deveria fazer, ou seja, os responsáveis pela educação do país! Esperamos sempre que vejam nos professores aqueles que, quando estão perante os alunos, fazem com que nasça mais uma estrela, ou uma flor, e o quão importante e bonito isso é! Os professores sentem tristeza, revolta, amargura…porque não veem o seu trabalho e esforço recompensados; são mal pagos, alvo de grandes injustiças a vários níveis, muitas vezes, para exercerem a sua profissão, têm de se separar da sua família, do seu lar, o que é tão triste!! Muito do tempo que trabalharam foi apagado do seu percurso de vida profissional, o que é uma enorme injustiça! Quando se reformarem, muitos terão dificuldades em viver com dignidade, porque as suas reformas serão muito baixas… Por estas e outras razões, hoje, muito poucos jovens querem ser professores! Sentem que tudo é incerto, sem incentivos ou motivação! Eles pensam: “Ser professor? Nem pensar!” E porquê? Assistem e conhecem bem o que se passa, as injustiças de que são alvo os seus professores, as dificuldades por que passam…não há qualquer motivação ou incentivo para abraçarem esta profissão! Que será do nosso país? É isto que também atormenta e inquieta os professores, afinal, eles também têm filhos, netos…
– Oh! Que triste! Se ainda aqui estão e resistem, então é porque, certamente, os professores também amam o invisível, procuram o melhor do ser humano através do coração, e não através de olhos calculistas! Afinal, podemos afirmar que são fiéis às suas flores, às rosas que fizeram desabrochar do campo sáfaro. E as suas rosas não são iguais a cem mil outras, porque são as deles…Ora, como é possível os responsáveis não reconhecerem o quão difícil foi e é cativar e cuidar dessas flores? Porque apenas veem com olhos frios e turvos, esquecendo que só se vê bem com o coração, daí que o essencial seja invisível aos olhos! Por isso, tens muita razão, é importante que a profissão de professor seja valorizada e respeitada! Os responsáveis não querem ser cativados!
– Não, muitos são mentirosos, hipócritas, cínicos, manipuladores…Não sabem, nem querem criar laços…
– Mudemos de assunto, porque este é muito triste! Compreendo agora por que vejo no olhar de muitos destes professores uma sombra de desconforto, embora sorriam e pareçam felizes, o que não deixa de ser surpreendente!
Tens vestida uma camisola muito bonita! Esse desenho parece um conjunto de chapéus de chuva, em cima de uma estrutura que faz lembrar um pássaro…e essas palavras, o que querem dizer? “Ser descontente é ser homem”?
– Afinal, não mudamos de assunto…Esta camisola é igual à de vários professores que já viste entrar na escola e encerra uma mensagem muito bonita! Este desenho representa, de forma criativa e estética, a Passarola do livro Memorial do Convento, de José Saramago. Simboliza a capacidade que o ser humano, particularmente os professores, têm em fazer voar! Simboliza a capacidade de VOAR, de concretizar os sonhos, de ir mais além, inerente ao Homem, mas isso só é possível se as VONTADES de todos se unirem em torno de um mesmo objetivo. Pela união e congregação de vontades, o ser humano já transformou tanta coisa! É essa capacidade de sonhar e de conquistar horizontes que os professores ensinam aos seus alunos, dizendo-lhes também que nunca devem desistir! Afinal “QUEM ENSINA A VOAR NÃO PODE RASTEJAR!”. Imagina uma sociedade sem capacidade de sonhar, de satisfazer a sua curiosidade, de lutar! Seria tão triste!
A expressão que está estampada na camisola – “Ser descontente é ser homem”-, pertence a um grande poeta, Fernando Pessoa; a Humanidade é, de facto, feita de descontentamento, inquietação, desassossego…é também esta ideia que os professores procuram transmitir…Os seus alunos, tal como os próprios professores, devem dar asas ao seu descontentamento, lutar pelos seus objetivos, sonhar e ir à conquista desse sonho, romper horizontes e desbravar terrenos sáfaros, nunca devem resignar-se, desistir, antes, lutar, pois só assim o “mundo pula e avança”!
A escola deve ser o lugar do prazer do conhecimento, mas também do esforço em conquistar etapas, em projetar o futuro…
No entanto, os responsáveis veem, cada vez mais, a escola como um local onde os alunos estão, e não um local onde SÃO. A escola é, naturalmente, O LUGAR do saber, da imaginação, da cultura, da construção de memórias! E os professores devem ter todas as CONDIÇÕES para tornar este LUGAR o espaço de todas as possibilidades e transformações positivas, só assim, teremos uma sociedade que não rasteja, que não se deixa manipular, que acredita em si e nas suas potencialidades! Já dizia alguém que o colapso da Educação é o colapso da nação!
Por isso, os professores não desistem, lutam, não se resignam, são seres naturalmente DESCONTENTES, embarcam na sua PASSAROLA, sempre em busca do VOO certeiro, se não for nesta viagem, será na próxima!
– Que bonito! Gosto dos PROFESSORES! E tu cativaste-me! Diz a todos os professores que os admiro, que gosto deles, que continuem a ser descontentes, a perseguir as suas vontades, a voarem…
De repente, acenou-me com a mão e dirigiu-se para o Parque Desportivo; passado alguns momentos, deixei de o ver… Quando me dirigia para a sala de professores, estranhamente, ouvi a sua voz, num sussurro bem audível: “«Colhe o dia porque és ele»! Diz a todos os professores para continuarem a sentir a paixão que os anima, porque, como afirmou Edward Morgan, mais vale uma pessoa com paixão do que 40 que, simplesmente, sentem interesse”.
Procurei-o por todo o lado, mas não o encontrei…Terei sonhado?
Texto da autoria da Prof.ª Amélia Rodrigues