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Há crianças de 11 anos dependentes de pornografia

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Rodrigo (nome fictício) tinha 10 anos no primeiro confinamento imposto pela pandemia. Como tantas crianças fechadas em casa, passava horas na internet para se entreter. Um dia, uma troca de mensagens com amigos levou-o, por curiosidade, a pesquisar às escondidas no YouTube um vídeo pornográfico. O espanto foi tal que quis ver mais um e depois mais outro. Quando deu por si, fazia-o todos os dias. Apesar da vergonha e da culpa que o atormentavam, não conseguia parar. Quase um ano depois, os pais notaram que andava nervoso e muito irritável. Quando o confrontaram, acabou por confiden­ciar-lhes o que o perturbava.

Para aliviar os problemas de consciên­cia do filho, os pais desvalorizaram o caso, embora tenham passado a estar perto dele quando, em casa, estava online. Mas o reforço da supervisão não foi suficiente. Meses mais tarde, o rapaz contou-lhes que continuava a ver no smartphone sempre que conseguia e pediu-lhes ajuda para parar. Foi então que decidiram procurar apoio psicológico. “Chegou à consulta num estado de grande ansiedade. Tinha medo até de ver televisão, com receio de ver acidentalmente num filme ou numa série qualquer cena que pudesse funcionar como um gatilho e o levasse novamente a pesquisar compulsivamente conteúdos pornográficos”, conta a psicóloga Rita Rebordão, diretora de aconselhamento na plataforma Dá o Clique, que apoia jovens e adultos no tratamento da dependência de pornografia. Um ano e meio depois, Rodrigo, atualmente no 9º ano, está pronto para ter “alta”. Finalmente já não tem vontade de ver. Mas está longe de ser um caso isolado.

Em Portugal, 40% dos rapazes e 26% das raparigas entre os 9 e os 16 anos já viram conteúdos pornográficos

Nos últimos anos, a proliferação de dispositivos móveis com internet de alta velocidade tornou a pornografia mais acessível do que nunca, incluindo por parte de menores, já que vários sites têm mecanismos de verificação da idade fracos ou até inexistentes. De acordo com o estudo “EU Kids Online”, financiado pela Comissão Europeia, atualmente o primeiro contacto com pornografia ocorre, em média, aos 11 anos. Em Portugal, 40% dos rapazes e 26% das raparigas entre os 9 e os 16 anos já viram conteúdos sexuais, segundo os resultados do último inquérito europeu realizado no âmbito deste projeto. Os dados foram compilados em 2019 e tudo leva a crer que depois da pandemia os números tenham crescido ainda mais.

O fenómeno está a gerar preocupação a nível global. Em 2021, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou para a “enorme quantidade de pornografia disponível online, incluindo conteúdos cada vez mais gráficos e extremos que são facilmente acessíveis a menores de todas as idades”, avisando de que a exposição precoce pode gerar problemas de saúde mental, nomeadamente dependência. Tal como algumas drogas, o consumo frequente de pornografia tem impacto no sistema nervoso, provocando uma libertação anormal de dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de prazer, o que impele os utilizadores a repetir a experiência e, progressivamente, a querer ver mais tempo ou conteúdos mais intensos para alcançar a mesma emoção. À semelhança do que acontece com o uso de estupefacientes, quanto mais cedo se começa maior é a probabilidade de desenvolver uma adicção. Os casos estão a aumentar em todo o mundo.

MOLDAR A SEXUALIDADE

O pedopsiquiatra Augusto Carreira, ex-diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, tem vindo a acompanhar alguns menores com dependência de pornografia. O mais novo tinha 9 anos; a maioria entre os 12 e 13. “Em alguns casos foram os pais que descobriram, noutros foram os próprios jovens que se sentiam tão angustiados que pediram ajuda. O consumo intensivo de pornografia acarreta entre os mais novos um sentimento de culpa e vergonha tão intenso que a certa altura se torna insuportável”, explica.

A dependência desenvolve-se habitualmente em jovens que já têm uma vulnerabilidade prévia, nomeadamente perturbações depressivas ou de ansiedade, sendo por isso mais residual. Já o desenvolvimento emocional é afetado de uma forma transversal. “O que verifico cada vez mais é que a pornografia está a servir de modelo para a aprendizagem da sexualidade, passando uma visão completamente distorcida e veiculando uma ideia de objetificação da mulher” que está a ter impacto nas relações de namoro entre os adolescentes, diz. No consultório, o pedopsiquiatra tem vindo a receber um número crescente de raparigas que se queixam de serem pressionadas pelos namorados a reproduzir o que eles veem nos vídeos e mostram-se muito incomodadas com isso. “Estes relatos, que há alguns anos eu não ouvia, estão a tornar-se frequentes”, avisa. A própria Unicef alerta para o facto de o consumo de pornografia entre os menores poder aumentar o sexismo, a objetificação e até a violência sexual.

Salvador (nome fictício), hoje com 33 anos, foi viciado em pornografia entre os 16 e os 22 e reconhece que o vício moldou a sua experiência de sexualidade, levando-o a “tratar mal” algumas raparigas com quem se envolveu na altura. Foi “por brincadeira e incentivo de colegas” que começou a ver conteúdos pornográficos no início da adolescência, numa altura em que ainda não existiam smartphones e a internet de banda larga estava a começar. Via no computador de casa, com o cuidado de apagar o histórico para os pais não descobrirem. Aos 16 anos, quando teve um portátil só para si, passou a fazê-lo todas as noites, no quarto, sem ninguém perceber. Com medo de que julgassem que era “tarado”, não contava sequer aos amigos. Aos poucos, foi procurando vídeos “cada vez mais violentos” e pressionava namoradas para os reproduzir. “Passei a olhar para as mulheres como um objeto de prazer e reduzia-as apenas ao desejo que despertavam em mim”, confessa.

Sentindo-se cada vez mais envergonhado, tentou parar, mas assustou-se. “Percebi que tinha um problema porque simplesmente não conseguia controlar.” Demorou dois anos, com muito acompanhamento e várias recaídas, até largar finalmente a pornografia aos 22 anos.

PRINCESAS DA DISNEY E SUPER-HERÓIS

Como Salvador, muitos menores começam a pesquisar conteúdos pornográficos intencionalmente, movidos pela pressão de pares e por uma curiosidade natural em torno da sexualidade. Mas a realidade de hoje já nada tem a ver com a que se viveu. Nos últimos anos, as plataformas de pornografia, com streaming grátis ilimitado, multiplicaram-se. Com o surgimento dos smartphones, que milhares de crianças têm, o acesso tornou-se ainda mais fácil. E basta que façam algumas pesquisas de vídeos pornográficos, muitas vezes como brincadeira, para que os algoritmos usados por motores de busca e redes sociais identifiquem o interesse e passem a promover esses conteúdos, aumentando a probabilidade de exposição repetida.

A exposição frequente a pornografia na net está a moldar a visão que muitos adolescentes têm da sexualidade

Mas muitos menores, sobretudo os mais novos, foram expostos a pornografia acidentalmente, por exemplo ao “tropeçarem” em anúncios e pop-ups direcionados para sites pornográficos e que aparecem em muitos videojogos populares entre adolescentes. Ou ainda a partir de pesquisas inocentes no YouTube cujos resultados os conduziram, sem que percebessem, para vídeos pornográficos. Foi o que aconteceu com o filho de João Canto e Castro aos 8 anos. “Ele estava a ver vídeos de bonecos animados no iPad quando, de repente, ficou muito surpreso, dizendo-me que tinha aparecido uma coisa estranha. Eu fui ver e era um vídeo pornográfico, mas com um título exatamente igual ao de uns bonecos animados. A partir daí nunca mais o deixei pesquisar sozinho no YouTube”, conta o pai.

À Associação Mirabilis, que se dedica à sensibilização pública para o perigo dos ecrãs no desenvolvimento das crian­ças, chegaram no último ano vários relatos de pais no mesmo sentido, incluindo de pornografia animada usando princesas da Disney, super-heróis ou personagens de videojogos. “Quando vão pesquisar as personagens de que mais gostam, aparecem vídeos normalíssimos, mas também, entre os relacio­nados, vídeos com conteúdos pornográficos, sem que os pais façam ideia”, contam as fundadoras.

Segundo a investigação nesta área, o impacto mais ou menos grave da exposição à pornografia por parte de menores depende de vários fatores, como o estádio de desenvolvimento, características de personalidade e do contexto de vida e até da intencionalidade ou não do acesso às imagens. Certo é que em Portugal 35% das crianças entre os 9 e os 11 anos e 23% dos jovens entre os 12 e os 14 admitem terem ficado perturbados pelo contacto com conteúdos pornográficos, de acordo com o “EU Kids Online”.