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Falta de professores: algo vai muito mal na educação – André João Ventura

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O início do ano letivo avizinhava-se normal, parecido com qualquer outro. Nas palavras do senhor ministro da Educação foi tudo preparado antecipadamente de forma a suprir todas as necessidades das escolas para que nenhum aluno ficasse sem aulas e muito menos ser prejudicado ao nível das suas aprendizagens. Confesso que duvidei deste discurso, e enquanto encarregado de educação de um aluno do 8.º ano de escolaridade, sinto-me enganado com os discursos que têm vindo a público por parte da tutela.

Não está tudo bem, antes pelo contrário, o ensino está moribundo, não pelos docentes ou assistentes operacionais, mas sim por parte de quem faz a gestão do mesmo.

O meu educando está sem aulas de Português desde o início do ano letivo. O professor de Francês encontra-se atualmente de atestado médico. Pergunto-me o que virá a seguir. É incompreensível esta situação que prejudica e hipoteca o futuro dos nossos alunos. Não pode ser tomado como normal esta situação de falta de professores. As escolas não podem funcionar assim, os nossos alunos necessitam de aprender e ter um ensino de qualidade. Quero um ensino com professores da área da educação, não com competências diversas, sem a parte pedagógica que é fundamental na escola.

Esta situação é transversal a várias escolas, consequência de muitos anos a tratar mal os professores. Não há quem queira ser professor. Não é aliciante ser professor. Há problemas que se arrastam há muitos anos. Há professores que estão fartos de ser professores e se tiverem uma oportunidade de mudança não hesitarão em sair.

A tutela tem de criar condições para resolver estes problemas, não é com a transferência das competências de contratação de professores para as escolas ou câmaras. A principal solução está em tornar atrativa a carreira docente, valorizando os membros da comunidade educativa em todos os sentidos. Só assim se podem cativar professores que trabalham noutras áreas para o regresso à educação, assim como aliciar os atuais estudantes para o ingresso em cursos de educação.

Os professores têm de ser valorizados, a escola tem de ser valorizada, o rumo tem de ser alterado. Não é com as palavras vãs dos últimos anos que alguma coisa vai mudar. Sãp precisas ações e não divagações. A palavra de escuteiro aqui não resulta.

É necessário devolver autoridade à escola, é necessário devolver o bem-estar aos professores, acabar com as burocracias inúteis e mudanças de paradigmas/modelo a toda a hora, devolver o tempo de serviço, acabar com cotas de progressão entre escalões, acabar com este tipo de avaliação docente.

Urge tornar esta profissão atrativa ou corre-se o risco de um futuro sem professores. Nos dias que correm continua-se a assistir, mais uma vez, à discriminação dos professores nas negociações salariais para o próximo ano.

O mesmo país, mas situações diferentes entre continente e ilhas ao nível da recuperação do tempo de serviço, ao nível das condições de trabalho.

Percebo muito bem o problema atual da falta de professores. Não há motivação para se seguir esta carreira. Os problemas prolongam-se no tempo, a falta de estabilidade ao nível das colocações, a necessidade de andar com a casa às costas assim como a dificuldade em arranjar habitação. Os vencimentos que são vergonhosos e que em muitas situações não chegam para suprir as despesas do mês. O trabalho que nunca está acabado, o excesso de documentos e grelhas para preencher. O trabalho efetuado em casa fora de horas. Para qualquer professor as 35h semanais de trabalho são largamente ultrapassadas, muitas das vezes à custa de sacrifícios pessoais e familiares.

Eu não quero esta escola para os meus filhos. Eu não quero esta escola para os filhos dos outros. Eu não quero esta escola para todos os que lá trabalham.

Este texto é a reflexão de alguns problemas que conduziram à situação atual. A minha preocupação fundamental é o meu educando estar sem diversos professores, mas é fundamental refletir em todo o processo que conduziu a um problema que deveria ter sido evitado.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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